Um Homem que Grita, ou as convicções do coração

por max 24. janeiro 2012 11:41

 

Em algum lugar, li um comentário sobre Um Homem que Grita (Un Homme qui crie, 2010), onde destaca-se que é uma produção do Chade, África, o que acaba sendo muito especial, mas, principalmente, que é um filme africano sobre a África, uma produção que não se acomoda nos lugares comuns, no folclórico, em tudo aquilo que, realmente, é a África, mas que, ao mesmo tempo, não representa tudo o que a África significa, não é tudo o que a África pode nos contar sobre o próprio continente. Seu diretor, Mahamat-Saleh Haroun (Bye Bye Africa, Our Father, Temporada de Seca/Daratt), sem dúvida, nos ambienta em uma sociedade e seus conflitos (no início da guerra civil), mas seu centro está na relação entre pai e filho, na vida íntima, em suas tensões, enfrentamentos. O cineasta aposta na complexidade do ser humano, ali onde amamos e, ao mesmo tempo, odiamos, onde sofremos e, ao mesmo tempo, nos alegramos. Um homem que se vê obrigado a deixar o trabalho de toda sua vida, um homem já de 55 anos e sem maiores recursos, não pode sentir-se feliz por seu próprio filho ter lhe tirado esse trabalho. Mas o que fazer quando a vida do rapaz talvez dependa da decadência do próprio pai? A freira Joana Inês da Cruz disse que o amor é um labirinto; também poderia ser dito que o amor é sacrifício. Assim, Mahamat-Saleh Haroun escapa das armadilhas que são lugar comum e "politicamente corretas", buscando aprofundar-se. Lembro, aliás, de uma resposta de Leonard Cohen em uma recente entrevista a respeito da estreia de uma nova produção. Cohen fala das ideias, diz que o que ele deseja quando escreve uma canção é desfazer-se das ideias, que não lhe atraem as canções com ideias. "Tendem a ser propaganda. Sempre estão do lado certinho das coisas: a ecologia ou vegetarianismo ou contra a guerra. Todas estas são ideias maravilhosas, mas gosto de trabalhar as canções que vão além dos slogans, com tudo o que de maravilhoso há nelas e com o que de importante elas promovam, e acabo encontrando-as nas convicções mais profundas no coração. Nunca escrevi uma canção didática. Somente minha experiência, tudo o que tenho que colocar em minhas canções é minha experiência."

Um Homem que Grita, um filme honesto, simples, mas profundo, sensível mas não fresco demais, que ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes. Estreia, quarta-feira, 25 de janeiro, no Max.

Para reapresentações, clique aqui.

222, vinheta 1

por max 8. setembro 2011 09:28

 

A sala está cheia de sombras de pássaros, alguns em silêncio, outros batendo as asas. A tarde apóia-se na cama morta, vazia anônima e desordenada. Morta por causa do vácuo e do caos, é apenas fica uma quietude muito etérea perto da morte, uma morte confortável. Ele escreve e lembra da garota. Ela é, talvez, uma daquelas sombras de pássaros nas paredes de seu quarto, uma das estáticas, quase tímida. Imagina que ela está fora na avenida, dando o rosto para a multidão que a admira. Na onda de fãs, um holofote poderoso, o foco da Fama. Na sala escura, no entanto, lança sua sombra que é na realidade um pássaro frágil dado a confusão. Lembra dela inquieta, recorda a sua excitação, como se ela pulasse na grama, procurando subsistência, balançando a cabeça para cima e para baixo, na verdade, entre as suas pernas. Lembra dela também poucos minutos antes, deitada no sofá, um peito para fora e uma garrafa na mão, cheia de coragem e ternura. Foi uma pássara brava, valente, cheia de coragem, sim, e a sua coragem tinha algo de inocência, de ternura, de absurdo. A valentia pode ser estúpida. Mas, afinal, ele que é um idiota, terminou assistindo a menina coragem, a menina famosa fazendo um bom trabalho na virilha dele, onde a delícia é mastigada. O seu coração e a sua voz eram uma lenda. Mas ele não queria o som da voz. Ele queria os lábios da boca, a saliva da boca. Ele estava lá pela carne. Pela carne e claro, pelo dinheiro. Em Manhattan sempre se está pelo dinheiro. Manhattan a frívola, a da moda que gostamos, a das pílulas de dieta. Manhattan a das pessoas bonitas. Ela deu uma gargalhada. "Eu gosto de homem bonito, mas você vai ser uma exceção." E mais tarde, quando a sua cabeça estava entre as pernas dele, ele disse, "Você também é uma menina muito feia." Ela parou, se jogou para trás em cima da cama, deu um gole, riu de novo fazendo um estrondo gostoso: "Não importa, somos feios, mas temos a música." Ele e suas lembranças, talvez estão no quarto n º 2 do Hotel Chelsea. Ele pode precisar dela, talvez não. O que é certo é que seu nome é Leonard Cohen e que ela se chamava Janis, Janis Joplin.

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