Sur la Planche, ou o cheiro que condena

por max 24. janeiro 2013 09:14

 

Uma amiga me contou que passava pela rua e um pedreiro gritou pra ela uma cantada bem especial: «Ah, essa mocinha deve ser muito cheirosa». Lembro desta história ao escrever este texto para Sur la Panche (2011), primeiro longa da jovem diretora marroquina Leila Kilani. No filme, o odor que emana do corpo de Badia (Soufia Issami) vem de limpar camarões numa fábrica. É símbolo de uma vida que ela deseja deixar para trás, de uma vida que é como uma peste. Badia é uma jovem de origem rural que partiu para a região comercial de Tanger, ao lado do cais, em busca de uma vida melhor. Dos dois possíveis trabalhos para mulheres ali, o têxtil e o com os camarões, ficou com ela o pior e, assim sendo, ela logo descobre que nada é como imaginava - e, por causa disso, se rebela. Ela se rebela contra esse odor que impregna sua pele, essa marca de gado que a diferencia como uma pária. Com Imane (Mouna Bahmad), Badia visita, à noite, bares e restaurantes cosmopolitas de Casablanca; ambas disfarçadas de prostitutas, quando, na verdade, buscam um pouco de grana extra, roubando câmeras fotográficas, telefones e alguns outros itens. Badia não se resigna a ficar no papel que foi lhe dado. Badia quer passar a outro mundo, o mundo esplendoroso. A partir dali que o filme trabalha constantemente as dicotomias: a noite e o dia, Tanger e Casablanca, a fábrica e a região comercial, Badia e Imane, e ambas, cada uma a sua vez, contrapostas a duas garotas mais refinadas, Asma (Nouzha Akel) e Nawal (Sara Bitioui). Esta última contraposição das quatro moças fará ainda mais forte o conflito do odor. Porque o odor sempre estará ali, no corpo de Badia, impregnando-a, denunciando-a, metáfora de sua origem, de sua classe social, de sua condenação aos limites de seu mundo.

A diretora faz um retrato de um mundo dividido, de um mundo com uma enorme brecha, onde, paradoxalmente, passa da desesperança ao suposto bem-estar, e acaba resultando somente através do criminal, da fantasia, da simulação, como se aquele outro mundo fosse um paetê, algo também falso, virtual. Mas o odor persiste, e o odor deve ser lavado. A partir dali que a imagem da água também se molda para o filme e também outra dicotomia unida ao símbolo do odor. A água batiza, purifica; a água, como o mar, como o rio, cheia de fendas, e seu transbordar se traduz na anulação das fronteiras, na possível eliminação do odor que condena. Mas no transbordar, tais águas não vão sujar-se?

Sur la Planche, neste sábado, 26 de janeiro. A mulher na miséria, a mulher na riqueza, o corpo que escapa da utopia, o odor, a água. O que você vê, quando vê o Max?

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