Patrulha Estelar, ou a arca de Noé da ficção-científica japonesa

por max 7. novembro 2012 14:41

As naves interestelares do imaginário do cinema e da literatura de nossos tempos devem muito ao barco e também, creio eu, ao submarino, mais até que ao foguete moderno. A nave é um personagem a mais, um ventre enorme, como o da baleia, uma mãe que protege, que cuida, que dá calor e segurança a seus viajantes. A nave flutua nas águas imensas dos universos apocalípticos. O mar, nestas histórias de viagens e mares, é um signo de caos, de mundo em caos, da zona de perigo e da grande aventura da redenção, do novo começo. O barco é a imagem do pós-apocalipse.

No "Poema de Gilgamesh", o personagem Uta-na-pistim, ciente do fim do mundo, constrói um barco no qual levará os animais e seu sêmen. Na mitologia indiana, Svayambhuva Manu também constrói um barco diante da eminência da catástrofe. Deucalião, filho de Prometeu, fabrica um barco e vira, junto com sua esposa e um grupo de animais, o único sobrevivente da humanidade logo após o dilúvio enviado por Zeus. Na mitologia grega e em Apolônio de Rodas também aparece o barco Argo, no qual estavam Jasão e seus heróis; o barco Argo estava protegido por Hera, o ventre e a luz do intelecto aqui se unem para atravessar a obscuridade e o caos do mundo. Não devemos esquecer também de Ulisses em sua volta a Ítaca: Ulisses vem do caos da guerra, de um período infernal, além de tudo, marcado por Calipso na ilha de Ogigia. E, claro, deve-se ressaltar Noé e sua arca, o navegante cristão das águas do fim do mundo. Todos eles tripulam um artefato que navega pelo caos do mundo, e são também os salvadores da raça humana.

A Tábua de Esmeralda da cabala alquímica nos diz que o que está acima é igual ao que está embaixo. Tal pensamento se dá pela lei da analogia que existe no pensamento mágico. A partir disto, o céu, o espaço exterior foi entendido em determinados momentos, como outro mar, outro oceano. Aquela ideia aristotélica de etéreo, uma substância que estava no ar (e que, hoje, podemos relacionar com a matéria escura), nos faz ver o céu como um mar. A terra navega em um mar infinito; o universo inteiro é mar. É a partir daí que Luciano de Samosata, em suas Histórias Verdadeiras, nos mostra, cerca de 50 anos depois de Cristo, um barco que viaja para a lua. Vemos aqui uma das primeiras imagens (que eu saiba) da viagem no barco através do espaço.

O submarino também está muito presente nessas naves de nosso imaginário galáctico. Verne, que nos deu a ideia do foguete que viaja para a lua, nos deu também Nautilus de 20 Mil Léguas Submarinas (1871) e de A Ilha Misteriosa (1875). Aquele submarino desenhado e comandado pelo Capitão Nemo conta com todos os luxos, as comodidades e os espaços necessários para longas travessias (tinha 70 metros de comprimento por 8 de largura). A ampla cabine de comando, com suas enormes janelas, é um claro antecessor das cabines de comando das naves futuras como as de Star Trek. De fato, a Enterprise, nave emblemática da Frota Estelar da Federação dos Planetas Unidos, é mais um encouraçado do que outra coisa. Costuma-se dizer, inclusive, que seu nome veio da HMS Enterprise da Marinha Real britânica. Star Trek – Jornada nas Estrelas (Star Trek) teve início em 1966, Perdidos no Espaço (Lost in Space) em 1965. A nave, neste último caso, tem mais a forma de um disco voador do que de um barco, seu interior é um lugar com comodidades para uma família completa; família, aliás, pioneira, que nos lembra a de Noé. Mesmo assim, é certo que podemos ver o professor Robinson como uma mistura de Crusoé perdido no espaço com um Adão intergaláctico (onde Zachary Smith é a viva imagem de um demônio cômico), e também que a nave Júpiter 2 saiu de um planeta Terra superlotado, apocalíptico em seu excesso, por um mar desconhecido e caótico em busca de uma terra prometida, de um novo mundo onde se possa recomeçar, que é a essência de todo ato pós-diluviano. Também se deve notar que tanto Star Trek quanto Perdidos no Espaço foram séries que tiveram seus inícios em pleno período do programa Apolo. Em 1969, como sabemos, a Apolo 11 e seus tripulantes tocariam o solo lunar. É interessante notar que a forma do foguete não é precisamente a inspiração destas naves imaginárias. Na série Battlestar Galactica, de 1978, é ainda mais óbvia a relação da nave espacial com os temas do dilúvio e o barco salvador: quem vai na nave em questão são os últimos sobreviventes da humanidade depois de um Armagedon explosivo.

O Nostromo, de Ridley Scott em Alien – O Oitavo Passageiro (1977), vem do romance de Joseph Conrad, Nostromo. O livro, segundo Conrad, era um reflexo da América Latina, e a região onde se desenvolviam os fatos fica na orla marítima. O personagem, Nostromo, tem fortes relações com o cais e com barcos, como líder de um enorme setor, o dos trabalhadores. Uma vez mais, identifica-se aqui a relação entre a nave espacial e o mar.

Em 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968), a imagem ou a relação dos símbolos com o mar e a viagem marítima estão presentes desde o título. A odisseia, a viagem de Ulisses através do mar, o retorno, o homem que volta às suas origens em meio ao caos do mundo. Por trás da viagem até o estranho sinal de acústico (o sinal do monolito), Kubrick está criando a ideia de uma nova humanidade: o encontro com o criador, com a realidade do criador misterioso a partir das origens, o que implicaria em uma nova visão da existência, uma nova humanidade. O Discovery 1 não é um foguete Apolo, é outra arca de Noé.

Em 2012, com Prometheus, Ridley Scott retoma o imaginário de Alien e reune o tema da busca dos deuses de Kubrick (lembremos que, em Alien, o Nostromo modifica seu curso para a Terra e vai atrás de um misterioso sinal). Prometeu é o nome da nave, Prometeu, doador do fogo aos homens e pai de Deucalião (esse Noé grego do dilúvio grego), dá nome ao filme à nave na qual viajam os apaixonados e iludidos arqueólogos com a esperança de encontrar as respostas da vida em uma lua distante. Aqueles "engenheiros", como são chamados no filme, são os possíveis criadores da humanidade. Tal qual em Kubrick, os homens viajam ao encontro de seus deuses, a busca de elevar-se, de entender-se, de aperfeiçoar-se, de tornarem-se novos homens.

A Ásia, por sua vez, também não escapa da imagem da nave que cruza o mar do universo em tempos apocalípticos. Em 1974, estreia na televisão japonesa, a série Patrulha Estelar (Uchuu senkan Yamato). Seu autor é Leiji Matsumoto, mestre veterano do animé. Matsumoto modifica a forma como são vistas as séries animadas. Tira-as do universo infantil e as aproxima de um público mais juvenil, até mesmo do adulto. Como mais tarde faria George Lucas, trabalha a space opera, essa mistura de épico e romance. A série de 26 capítulos não teve sucesso no início, mas, com os anos, foi virando um clássico do animé. Um dos personagens principais da série: um encouraçado voador, que sai em busca de uma espécie de máquina que limpa o cosmos, que permitirá a erradicação da forte radiação que assola a Terra. No planeta, cabe dizer, sobram poucos humanos e todos vivem embaixo da terra. Vários filmes baseados na série foram realizados. O mais recente é de 2010, dirigido por Takashi Yamazaki e leva o título de Patrulha Estelar. Aqui, a nave espacial é mostrada em todo seu esplendor: um enorme encouraçado de guerra, adaptado para viajar em velocidades impressionantes. Mais que um Noé, um Adão e uma Eva já redimidos de todo o pecado, atravessam as águas do universo com a finalidade de fundar uma nova humanidade. É especialmente importante o nome da nave para compreender seus outros significados. O encouraçado Yamato foi o orgulho da frota naval japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Yamato e Musashi foram os dois maiores encouraçados de guerra já construídos até agora. Ambos viram o fim dos seus dias em batalha. O fato das naves da série e dos filmes serem construídas com os restos do Yamato original, não somente nos remete à imagem da ave Fênix, mas também à ideia de uma redenção salvadora. Aquela guerra significou um apocalipse para os japoneses. Nada mais apocalíptico do que uma derrota e, no caso do Japão, uma derrota por causa de uma das armas mais apocalípticas já imaginadas: a bomba atômica. O real fim do mundo para os japoneses, representado pelos restos do Yamato, encontra sua redenção, seu novo começo, na nova nave imaginária que irá zarpar com o objetivo de forjar uma nova humanidade.

Este mês, no Max, você poderá aproveitar um daqueles filmes nos quais as naves espaciais são barcos que percorrem o caos do universo. Na quinta, 8 de novembro, assista Patrulha Estelar. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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