O juramento, vida e documentário depois de 11 de setembro

por max 27. janeiro 2012 09:18

 

A filmagem de um documentário pode nos fazer acreditar que o destino existe, ou pode nos levar a pensar que a vida é realmente um caos, sem sentido. Um documentário depende dos vai-e-vens, do fluxo, daquilo que vai aparecendo no caminho. Difícil é planejar um documentário. Mas se, ao final, todas as peças se encaixam, se, ao final, você fica com a sensação de que tudo estava esperando por você, de um jeito ou de outro, então haverá horas e horas de material fantástico que deverá ser condensado sob o seu olhar e de seu montador.

A diretora Paula Poitras sabe muito bem que o mundo lá fora está cheio de conexões inesperadas, de surpresas, de longos caminhos, de momentos maravilhosos, de cortinas, de lenços, de véus, de mentiras e de verdades tão estreitamente unidos que não resta nada além de pensar que a fragmentação não existe e que, por trás dos fatos, há algo que junta tudo, algo que une tudo, algo esférico talvez, mas nunca simples. Desde 2006, Laura Poitras prepara uma trilogia de documentários que gira em torno do tema do terrorismo e da catástrofe de 11 de setembro, buscando abarcar a totalidade desse assunto, como se, através de seus documentários, buscasse mostrar a unidade que existe em cada parte, em cada coisa da existência. Começou com My Country, My Country, documentário que foca um médico iraquiano aspirante a político com anseios democráticos em pleno tempo da invasão americana, para seguir com O Juramento (The Oath, 2010), um filme que levou a cineasta, durante uns quatro anos, a ir e vir dos Estados Unidos para o Iêmen. Em princípio, e sempre sob uma perspectiva micro-macro, ela queria mostrar um regresso, a volta ao lar de algum prisioneiro islâmico de Guantânamo, de alguém relacionado com a Al Quaeda que fosse declarado inocente e que voltaria para sua pátria. Para isso, Laura Poitras conseguiu Salim Hamdan, que se encontrava na prisão e em pleno processo. Poitras, porém, viajou ao Iêmen na busca de entrevistas com a família dele, e nessa busca chegou ao concunhado de Salim, um homem fascinante chamado Abu Jandal. Salim, cabe aqui dizer, havia sido motorista de Osama Bin Laden, e Abu, um dos seus guarda-costas. Ambos casaram-se com irmãs por determinação do mesmo Osama, mas, ao final, Salim, o simples motorista, foi quem acabou capturado e enviado para Guantânamo, enquanto isso Abu, o mais ativo, o mais radical, ficou livre. Abu é um personagem extremamente fascinante, e o documentário absorve esse poder. Salim passa a ser uma voz, uma presença invisível, e Abu, em contrapartida, ocupa todo esse espaço. É um homem carismático, gente como a gente, que fala conosco e, além disso, está convencido que o ocidente é o inimigo. Ele se expressa abertamente, mas não apóia o terrorismo. Até parece que tem uma alma transparente. Cuida de seu filho, é bom com ele, trabalha duro. Trata-se de um homem comum e normal que vive seu tempo e sua cultura. Inclusive, depois da volta de Salim, somos informados de suas falhas, de seus medos, daquilo que supostamente fez em seu passado. Ali então entendemos, ou acreditamos entender, que a vida, às vezes, é maior do que qualquer radicalismo, que qualquer juramento de morte. Esse amor pela vida, que vemos ali, é como fazer um documentário. O documentário afronta isso com uma convicção, com um pacote de ideias pré-concebidas, mas então a realidade nos enfrenta e nos diz que não, que a coisa não é bem assim. O mesmo acontece com a vida e as convicções. A vida, o instinto da vida, é maior que qualquer convicção, que qualquer ideia. A história que Poitras conta não é fácil, porque bem sabemos que as crenças que estão por trás desses homens tão humanos e tão próximos, são as mesmas que levaram à destruição das torres gêmeas e a tantas mortes. Entender não é o mesmo que justificar, ver o lado bom de alguém não é abrir-se, amar e aplaudir e a obscuridade desse alguém. Quem são essas pessoas que estiveram a um passo de participar desse grupo de assassinos suicidas? O que pensam, o que pensavam? O documentário gira em torno disso e, como um filme de suspense, vai girando em torno do mistério. O mistério do ser humano, o mistério da vida.

O Juramento, neste domingo, 29 de janeiro, no Max.

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