11:25 The Day He Chose His Own Fate, o caminho do guerreiro Mishima em vídeo

por max 14. março 2013 07:22

 

Existe a sensação de que a vida de muitos escritores japoneses conhecidos no mundo ocidental é planejada da cabeça aos pés. O escritor, Haruki Murakami, é um modelo de disciplina tanto na escrita, como no esporte, como na vida. Yukio Mishima é outro atleta do espírito. Marguerite Yourcenar registra em Mishima ou a Visão do Vazio (Mishima), que sua vida foi "tão calculada quanto sua obra". Alguns dizem que quando tomou o quartel general de Tóquio do comando Oriental das Forças de Autodefesa do Japão, ele já tinha certeza que iria morrer, e que tornaria sua morte um ritual. Em 25 de Novembro de 1970, Mishima entregou seu último romance ao seu editor, e também deixou um dinheiro reservado para aqueles que sobrevivessem à tomada do quartel.

Mishima se inspirava na lei do caminho do guerreiro ou samurai (bushido), caracterizada pela luta espiritual contra o excesso e por um pensamento constante na morte. O caminho do samurai, assim diz a lei, se encontra na morte. Mas essa morte deve ser com disciplina, coragem. No entanto, um bushi (ou samurai) não ansiava pela morte. O samurai tem uma vida disciplinada. A morte é uma questão de honra, a morte é uma exaltação da vida que não se pode mais viver dignamente. Neste contexto, Marguerite Yourcenar (sempre olhando para Mishima), comenta que "o desejo da morte é comum em seres dotados de paixão pela vida".

Direitista e defensor do Imperador, o que já foi dito, seguidor dos códigos de conduta do caminho do guerreiro, Mishima via com maus olhos a expansão que estava acontecendo no Japão no final dos anos sessenta e início dos anos setenta. Cabe dizer que Mishima foi uma espécie de "Pop Star" de seu país em sua época. Era escritor, compositor, campeão de artes marciais, ator e também modelo (tinha um corpo bem definido, chegou a ser fotografado nu). Ele pulou de um extremo a outro, da cultura à celebridade com grande facilidade. Contudo, por trás daquele homem excêntrico que gostava da fama, havia uma paixão muito forte pela política. Mashima formou seu próprio exército, o Tate-no-kai. Embora dizer "exército" talvez seja um exagero. Mas Mishima tinha suas próprias pessoas, treinadas para a guerra com seus próprios uniformes. Lembrando que após a Segunda Guerra Mundial, o Japão perdeu o seu exército, e isso para Mishima foi vergonhoso, tão vergonhoso como ver o país entrando cada vez mais na corrente do Ocidente. Mishima, como um bom seguidor do caminho do guerreiro, decidiu protestar contra aquilo que lhe parecia uma grande desgraça. Além disso, como um bom samurai, sabia que se rebelar contra a autoridade traria o suicídio.

11:25 The Day He Chose His Own Fate (2012) gira em torno dos últimos dias de vida de Yukio Mishima. O filme é dirigido por Kōji Wakamatsu e possui um forte tom político que permite um olhar profundo a aspectos da cultura japonesa como o sentido do coletivo, a honra, a tradição, a disciplina e o passado através da figura de Mishima. Um filme que seguiu os caminhos da gravação em vídeo, como se fosse, ironicamente, paradoxalmente, de uma telenovela transmitida por todos os televisores do país, como se aquele fato real e trágico fosse uma fantasia que se vive nas telas da TV e não tem nada a ver com o país. Assim, o formato utilizado se transforma, desde a perspectiva do cineasta, em uma crítica à sociedade contemporânea. É como se Wakamatsu soubesse, como se suspeitasse que aquela recriação da morte do homem preocupado pela degradação de sua nação se tornaria uma história de telenovela que vive e morre na tela, como um espetáculo; uma história que por mais que diga grandes verdades, vai ficar debaixo da mesa. Quem sabe, às vezes um ato heroico pode ser uma simples loucura, uma simples estupidez, e é melhor esquecer.

11:25 The Day He Chose His Own Fate, quinta 14 de março. Honra, vergonha, loucura, política, heroísmo, morte. O que você vê quando vê o Max?

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