Sonata de Tóquio ou o Japão se desintegrou

por max 17. abril 2011 19:06

 

 

Para os japoneses a etiqueta social é importante. As pessoas são, o que poderíamos dizer, muito educadas e gentis, muito próximas a sua história e tradições. De alguma forma, poderíamos pensar que continuam em contato com as coisas boas do passado. No entanto, os seres humanos somos seres humanos e, no Japão ou na Cidade do México, a modernidade e sua crise atacam da mesma forma e produzem os mesmos efeitos em todos. O filme Sonata de Tóquio (Tôkyô sonata, 2008), dirigido por Kiyoshi Kurosawa (conhecido por grandes filmes de terror), apresenta uma tragicomédia com toques surreais e absurdos que mostram claramente o colapso da família do Japão, neste mundo do qual falamos. Onde assumimos que existem o respeito e a tradição encontramos com o caos, a incomunicação e o isolamento. A incomunicação também cresce dentro de um certo encerramento, em um silêncio interior e muito reprimido. Como no filme L'emploi du temps (2001), de Laurent Cantet, o personagem masculino neste filme pretende continuar indo para o trabalho todos os dias, apesar de ter sido demitido de um emprego no qual esteve muitos anos. Este homem mente para a sua família, por suprema vergonha, mas ao mesmo tempo, seu filho pequeno, esconde para ele os seus estudos de piano. Está também o filho mais velho, que quer se inscrever na aventura de sua vida, juntando-se a uma missão militar dos EUA. No meio de tanto segredo social masculino, está a mulher, a mãe, um símbolo de amálgama, de coesão, de resignação na tragédia. Ao redor desta família, há desespero, mais desemprego, mais homens que mentem, pessoas que se divorciam, assassinatos familiares, consequências dessa loucura moderna. Kurosawa revela a terrível realidade: as filas para obter comida de graça, o trabalho miserável nas ruas, parques de desempregados... E depois, quando estamos concentrados na narrativa do filme, mesmo naquele momento, o cineasta dá uma volta na história e introduz um sequestro muito particular. Enquanto o mundo dos homens vive os seus segredos, em outras áreas, as das mulheres, existem também segredos, silêncios que matam esperanças, dor e rebeldia. Nesta área, as coisas são mais empáticas, mas também mais escuras e estranhas. Todos neste filme têm suas histórias para esconder.

Sonata de Tóquio não é um filme fácil, não foi feito para uma tarde de pipoca. A história mergulha na alma dos personagens e não olha para outro lugar quando encontra poços sujos e vergonhas escondidas. Ainda aponta para a redenção dentro do caos, a crise como um momento necesário anterior ao crescimento, ao equilíbrio. Tokyo Sonata ganhou o prêmio "Un Certain Regard" em Cannes.

Sonata de Tóquio, sexta-feira 20 de maio, na série de filmes dedicados ao Festival de Cannes.

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