Marley, ou um documentário além do ídolo desejável

por max 10. fevereiro 2014 12:39

 

Quando a United Colors of Benetton nos mostrou rostos de diferentes raças, juntos numa mesma imagem publicitária, lembrei de Bob Marley. Marley foi o primeiro homem terceiro-mundista globalizado através da música, Marley, para mim, era do século XXI em meio ao século XX. Era mulato, filho de mulher negra com homem branco (mas seu pai também era jamaicano) e viveu o drama, exatamente por ser mestiço, de não ter um lugar certo no mundo. O homem de hoje, desejado pela publicidade e pelo ativismo, é um homem aparentemente universal. Seus traços são uma sobreposição indefinida criada por um jato global que nos envolve. Esse rosto, geralmente, é uma beleza do terceiro mundo, uma beleza exótica cujos traços mais marcados se suavizam no caldeirão da raça caucasiana. Keanu Reeves não é marcadamente do Oriente Médio, Marley não era marcadamente negro. Mas, aos olhos da civilização ocidental, Marley era negro, um negro pacífico, espiritual, xamânico e musical do terceiro mundo. Escreveu Roland Barthes em "Bichon entre os negros", texto que pertence ao livro Mitologias: "No fundo, o negro não tem uma vida plena e independente: é um objeto curioso; é reduzido a uma função parasitária: distrair os homens brancos com sua extravagância obscuramente ameaçadora". Talvez Bob Marley, para o pequeno burguês sobre o qual escreve Barthes, continue sendo ameaçador, mas, ao mesmo tempo, era possível olhar em seus olhos e ouvir sua música, podia ser menos ameaçador prestando-se atenção às suas letras: aquele homem exótico, caso manipulasse sua mensagem, acabou como um ser espiritual, mas também um guerreiro. Mas sua guerra era boa, sua guerra era a música. A música que eu gosto e que me transforma em uma pessoa preocupada com os direitos civis.

Marley, pra mim era assim: a glamourização do terceiro mundo e do guerreiro negro. Marley, no fundo, foi uma porta simplificada e "conveniente" de uma série de signos e abstrações que precisavam de concretização: rasta, reggae, amor universal, maconha mística, boa música, mar, sol... Não é ruim, sem dúvida, mas era necessário; eram os anos sessenta, imagens como as dele foram imperativas para acomodar inquietudes espirituais e conduzir o movimento político por igualdade. Mas Marley não foi um mero instrumento daquele momento. Marley transcendeu, sua música o superou e o transformou em lenda. Em nossos dias, esta lenda, este símbolo simplificado do negro espiritual e bonachão, ao mesmo tempo guerreiro e idealista, exige complexidade e profundidade, para que sua mensagem, ou melhor, seu verdadeiro significado universal toque a humanidade. É assim que surgem documentários como Marley (2012), de Kevin Macdonald (O Último Rei da Escócia - The Last King of Scotland), trabalhos sérios que buscam o corpo, a carne e o osso dessa foto pop que muitos jovens carregam estampada em suas camisetas. Essa pesquisa cumpre sua função, graças à cooperação da família Marley e de pessoas que estavam perto do ídolo. Não se trata, claro, de um ato de louvor, de uma apologia nem nada no estilo. Tampouco o trabalho cai na dinâmica entrevista / música / entrevista que todo documentário mal amarrado nos obriga a ver. Mcdonald realizou um trabalho minucioso, uma investigação real do ser humano que era Bob Marley e de seu legado como músico e, por que não, como pensador ativista do século XX.

Assistir às origens deste homem misto que foi Marley também é assistir aos inícios do reggae, gênero também misto que se separou do ska, quando entrou no jogo a fusão da música americana com estilos como o R&B, o Soul, o Motown e outros. Claro, o reggae não é só ritmo, mas também apoesia, e nas letras de Marley se reflete sua religião, esse outro equilíbrio que é o rastafári. O cineasta chega lá e mostra Marley em sua verdadeira dimensão: a do homem abstêmio e disciplinado que se exercitava, mas que consumia maconha, pois a maconha era parte do ritual da sua crença.

Claro, em algum momento, Marley o homem começa a se confundir com Marley o ídolo. A fama engole os homens, mas não a fama como um verme egocêntrico; Marley estava longe disso, sem a fama como uma máquina que não para, que te distancia das pessoas, da sua gente, às vezes de você mesmo, sem que isso tenha a ver com a idolatria. Sem dúvida, Mcdonalds se empenha em levantar o fardo pesado e continua investigando o homem, de carne e osso, como já disse antes, através dos amigos e familiares que têm bastante a dizer.

Bob Marley nasceu em 6 de fevereiro de 1945. No Max, terça 11 de fevereiro, 69 anos depois de seu nascimento, Marley, um dos documentários mais completos sobre a vida de um dos grandes músicos do século XX.

O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Etiquetas:

Geral

arquivos
 

nuvem