O Planeta Solitário, ou quando o universo nos enfrenta

por max 5. julho 2013 03:34

 

Esta deve ter sido uma história de amor. Um casal decide visitar os verdes campos da Europa do Leste, na Georgia. Seu casamento está prestes a acontecer e parece que serão felizes para sempre. Eles são Alex (Gael García Bernal) e Nica (Hani Furstenberg) e estão muito apaixonados. Não há nada mais romântico. Viajar para o campo, cruzando magníficas paisagens, entrar em contato com a natureza, fazer amor sob as estrelas. Nossos tempos têm isso, nossos tempos procuram sentir, ir além da razão, para se conectar com algo mais, misturar-se com a Mãe Terra e com o Universo. Nossos tempos pretendem ser animistas e panteístas. Buscamos respostas em outros lugares que já não são da modernidade fria e racional. Sim, mas em certas ocasiões, essa busca não tem nenhuma preparação. Essa busca começa apenas com uma ideia, com um desejo superficial, com um sonho inocente. Nos amamos, somos lindos e bons, acreditamos na conexão de todas as coisas, o mundo é perfeito. E claro, o mundo é perfeito, mas nós não. O mundo é um todo e somos nós que estamos sobre o mundo, completamente incapazes de compreender as grandes coisas. A conexão, na realidade, não existe. Às vezes, só precisa de um gatilho, algo insignificante para que tudo comece a desmoronar. E isso é o que acontece em O Planeta Solitário (The Loneliest Planet, 2011) da diretora Julia Loktev. Se em Day Night Day Night (2006), através da imagem do jovem terrorista, Loketv trabalhou com os processos de invasão que moldam uma mente e criam pensamentos, em O Planeta Solitário ela se instala na dinâmica de deseducação, de abertura para outras realidades. O exterior, as grandes paisagens, o detalhe mínimo (quando Alex vê uma espingarda ameaçando, ele coloca o corpo de Nica para se defender) servirá para confundir a mente, para descentralizar a aprendizagem. Essas ideias cômodas e superficiais sobre o que somos e sobre o que são nossas relações humanas começam a desmoronar e isso é o que vamos notando ao longo do filme. Sem as distrações das cidades, sem ruído e fúria, não há nada mais do que nós mesmos, e é aí que começamos a ver nós mesmos e aos outros, quando começamos entender, a partir dos nossos profundos silêncios, que estamos realmente sozinhos.

O Planeta Solitário, domingo, 7 de julho. Cinema independente, solidão, histórias de amor que que se rompem. O que você vê quando vê o Max?

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Dia Noite Dia Noite ou Kafka terrorista

por max 17. abril 2011 19:45

 

 

Dia Noite Dia Noite (Day Night Day Night, 2006) me faz pensar em uma variante contemporânea de Kafka, mas o primeiro filme de Julia Loktev não é exatamente kafkiano, nem acho que tenha sido criado com essa visão. Já no começo, o filme nos leva para determinadas formas de compreensão do conceito do que Kafka introduziu na literatura. Milan Kundera diz de Kafka, em A arte do romance: "A maneira como ele vê o "eu" é totalmente inesperada". Por que K. é definido como um ser único? Não é por causa de sua aparência física (da qual nada se sabe) nem por sua biografia (ninguém o conhece), nem pelo seu nome (não tem), nem por suas lembranças, pelas suas inclinações ou seus complexos. Talvez seja devido ao seu comportamento? O campo livre de suas ações é lamentavelmente limitado. Graças aos seus pensamentos mais íntimos? Sim, Kafka segue de perto os pensamentos de K, mas estes só se preocupam com a situação presente: o que fazer lá, imediatamente." Isto último, já diz Kundera, é um campo muito limitado, um campo que fica com o momento, embora conheçamos os pensamentos de K. com respeito a tais situações, não sabemos mais sobre ele. Isto faz com que seja terrível, monstruoso. É como andar com um cara que não sabemos que está maluco até que ele começa a falar bobagens ou até que mata alguém. K. é qualquer um, qualquer pessoa que nos rodeia. É alguém de quem conhecemos o dia-a-dia, porém nada mais. Um colega de trabalho, um vizinho, qualquer um cuja vida esteja completamente absorvida pela vida presente. Você, eu. A personagem feminina do filme de Loktev é como K., um personagem que só vemos vivendo o presente, não conhecemos o seu passado nem o que busca. Ela tomou uma decisão: decidiu se tornar uma bomba humana para explodir na Times Square. Mas sabemos só isso. Na verdade, a garota não tem as características típicas que poderia ter um terrorista forjado no lugar comum (nesses tempos, árabe, muçulmano). Ninguém sabe de onde a garota vem, a sua nacionalidade é desconhecida, embora não conheçamos os seus pensamentos, podemos vê-la no presente desde a sua chegada no aeroporto. Igual que K., a garota é guiada por um poder superior a ela (outra característica de Kafka), essa voz ao telefone que, como os emissários e outros representantes que aparecem em O Castelo, vão levando os personagens de lá para cá , dominando a sua totalidade. A garota terrorista que vive a sua cotidianeidade, seu treinamento, suas refeições, seus silêncios, está atolada em um presente marcado pela morte de sua missão ou sua sentença. Mas parece que ela não se preocupa com essa missão/sentença. Kundera diz que para Kafka a punição procura a culpa. Ao contrário do que acontece com Raskolnikov, que está buscando a punição para seu assassinato, na literatura de Franz Kafka, os personagens buscam as razões para a sua punição. Neste caso, a garota terrorista de Dia Noite Dia Noite, tem uma missão que é irmã da pena na morte. A morte está sempre lá, no fundo de toda a punição, embora a morte física não seja necessariamente o fim dessa punição. Mas o isolamento, a imobilidade, são formas de anular o "eu", de impedir a liberdade, no final, a morte é a abolição de todas as liberdades, sujeita a certos conceitos, é claro.

Em algumas culturas ou circunstâncias, o sacrifício da missão é uma libertação. Mas não sabemos isso no filme. A garota só vai para a morte. Não sabemos se ela se sente culpada e está à procura de uma punição (uma negação da liberdade absoluta), ou uma crença que busca o sacrifício (a busca da liberdade máxima). Parece que isso não é importante para os fins da história. De alguma forma, os terroristas podemos ser todos, cada um de nós, esmagados pela sociedade e pela impessoalidade de sua fúria.

Qualquer pessoa, parece-nos dizer o filme, pode explodir e se tornar um terrorista de si mesmo e dos poderes que nos dominam. Em "Conviction", Georg Bendemann termina se atirando no rio, condenado por seu pai, mas sua morte só machuca ao próprio Bendemann, é um ato de violência contra si mesmo e já. Em nossos tempos, no entanto, a violência da morte tem uma profunda conotação coletiva. Parece haver um vazio enorme onde todos são iguais. Os limites da individualidade foram apagados pelo poder que é a massificação de tudo. Na ausência do "eu", a morte deve ser coletiva. O sacrifício supremo do alienado exige uma platéia, um teatro, uma declaração de princípios que há de ser sempre coletiva. Assim, Dia Noite Dia Noite parece-me um filme independente profundamente kafkiano que vai além dos clichês do que chamamos sem pensar muito de kafkiano. É kafkiano minimalista e século XXI, kafkiano sutil e também muito profundo. Mas terrível, terrivelmente kafkiano.

Dia Noite Dia Noite ganhou o Director's Fortnight del Prix Regards Jeune. Assista no domingo, 15 de maio, no ciclo em homenagem ao festival de Cannes.

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