A Cabeleireira, ou ser gorda no capitalismo

por max 13. janeiro 2012 11:33

 

Com as vanguardas artísticas, o conceito de beleza começa a mudar e aqueles padrões do realismo trazidos pela modernidade são questionados até a morte, exaustivamente. A beleza, até aquele momento, tem duas fontes fundamentais: a realidade em si, em especial a natureza, que entende-se como a imitação ou a mimese de tudo o que é a natureza e o mundo e, sempre de fundo, o cânone da beleza (ou a regra, o parâmetro da beleza) que vem dos gregos, essa forma idealizada, estilizada, perfeita da realidade. Ambas as maneiras de entender a beleza se estabeleceram em paralelo ao longo dos séculos, apesar do estímulo da vanguarda, apesar daquela frase famosa de Lautréamont: "Belo como o encontro de um guarda-chuva com uma máquina de costura sobre uma mesa de dissecação". Se bem que agora a contemporaneidade conhece a relatividade do conceito, herdada dos questionamentos já assinalados; a beleza segue cumprindo os parâmetros que chamamos de clássicos, que explodem no mundo da moda, da publicidade, dos concursos de beleza e inclusive do universo pornográfico, em um redemoinho de referências cada vez mais idealizadas e complexas. A muito fraca, a anoréxica, a de seios fartos, a de olhos muitos grandes, a nórdica, a latina, a negra, a oriental, assim, imagem sobre imagem, acessório sobre acessório, como se a beleza fosse uma Barbie que vamos vestindo para cada ocasião. Mas essa ideia da Barbie, porém, não deixa de ser essencial. Há um modelo, um ideal digamos platônico, um modelo do que é o belo, que tem sua origem naquela cultura grega que destaco, e mesmo que as variantes possam multiplicar esses exemplos, do que se tem certeza é que a beleza tem seus limites. Os parâmetros de uma bela mulher, segundo a lei do mercado, existem. O mercado da beleza tem seu preço, e se valoriza alto e com força, com vontade e com fervor.

A Cabeleireira (The Hairdresser, 2009), da diretora Dóris Dörrie, aponta essas questões sobre o belo, e nos apresenta Kathi (interpretada por Gabriela Maria Schmeide), uma cabeleireira de Berlim, mãe solteira e extremamente gorda, confrontando sua obesidade em um mundo onde o aspecto, a imagem, a beleza dominam as relações e os negócios: o mundo das cabeleireiras, que corresponde, por sua vez, ao nascente capitalismo da Berlim unificada. Kathi acaba sendo uma estranha no novo mundo do seu mercado de trabalho; seu aspecto é desagradável para muitos, assim como a raça também é desagradável para muitos. Kathi e os outros, Kathi que se converte nos outros. Ela passa a estreitar as suas relações com os imigrantes orientais, que vemos no filme, inclusive os que ela traz do outro lado do muro, e que na Berlim já unificada é desejo integrar-se ao mercado de trabalho, ali onde tudo, ofício, publicidade, beleza e política, tudo é parte da mesma coisa. Jean Baudrillard dizia que agora vivemos em um mundo onde tudo se transformou em estética, onde tudo transformou-se em arte e já não há arte, de tanto que há arte em todos os lugares. Em uma sociedade assim, quem não compartilha dos parâmetros de beleza e não joga segundo as leis de mercado passa a ser o outro, o outro que vem da outra Berlim, o outro que é obeso, a outra que é mãe solteira, o outro que é de outro país e que é pobre e imigrante, de outra raça, o outro que não se encaixa. Tudo isto está em A Cabeleireira, sob o ponto de vista da comédia, sofrimento de lindas cores que nos faz rir mas também nos põe diante da realidade, talvez com um pouco de otimismo (refletido no personagem) sobrecarregado... mas, convenhamos, a alegria também conta diante de um bando de idiotas que querem agarrar-se à felicidade e tê-la somente para eles.

A Cabeleireira, nesta sexta-feira, 13 de janeiro, no Max.

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