Últimos Dias, ou o fracasso da contracultura

por max 4. abril 2012 10:12

 

Grunge comercial-contracultural

Never Mind, do Nirvana, Ten, do Pearl Jam. Estes são os dois álbuns, estas são as duas bandas que deram vida ao grunge. E o grunge, sim, é um estilo musical: é indie rock, com heavy, com punk. É rock alternativo, é a paz e é o grito, é o vazio e é a explosão no vazio. Porque o grunge é também uma atitude de vida: contracultura sim, mas contracultura que, apesar de tudo, torna-se comércio, sucesso social. Enquanto isso, a alma punk estava cheia de raiva, mas entendia que essa raiva era uma maneira de mudar o mundo, o grunge explodia a partir do silêncio, do vazio de uma alma que não acredita em nada e se reconhece vencida desde o início. O grunge explode a partir da descrença do mundo. Não pode ser mudado, nada serve, mas aqui estou eu, gritando o meu nada ao nada. O grunge, já se disse, é a contracultura derrotada, a contracultura que aceita sua derrota e que, sabendo-se derrotada, se deixa arrastar pelo mar dos dólares, das multidões, do capitalismo, para terminar crucificada em seu próprio vazio, vazio enojado do mundo. Não acreditam em mim? Falemos então da grande estrela contracultural morta.

 

A grande estrela contracultural morta

Vem aí a grande estrela contracultural morta, aqui vem vestido de mulher, com a cabeça baixa, chorando pelas esquinas, sem lágrimas para derramar. Vem aí a grande estrela contracultural morta; sabe, desde o princípio, que fracassou. Mas se deixa levar, se deixa levar, porque a gravidade pertence a ela. A gravidade e a grande estrela contracultural morta. A gravidade, a queda, a silenciosa queda, que termina em estrondoso cheiro de pólvora. Ao final, o que sobra é causar danos. Ferir-se é o prazer máximo, o prazer máximo é matar-se. Nihilismo, estoicismo, a grande estrela contracultural morta sabe disso, ou sabia. A grande estrela contracultural morreu em 8 de abril de 1994. Quem a encontrou foi um eletricista que chegou para instalar um novo sistema de segurança em seu chalé com vista para o lago Washington, ao norte da cidade de Seattle. Nem a vida do lago salva, porque a grande estrela contracultural morta estava morta, rodeada de uma enorme poça de sangue. Havia tomado uma overdose de heroína e depois explodido a parte esquerda da cabeça com uma espingarda Remington de calibre 20. Isto é o que contam as notícias, e assim repetem Joseph Heath e Andrew Potter em Lucro Sujo (Taurus, 2005). Os autores também falam sobre este assunto da estrela contracultural morta:

 

"Kurt Cobain matou Kurt Cobain. Mas o cantor do Nirvana também foi vítima de uma ideia falsa: a teoria da contracultura. Ainda que se considerasse um músico punk, um roqueiro dedicado a fazer música 'alternativa', havia vendido milhões de discos. Em grande parte foi quem propiciou que a música, antes denominada 'hard rock', fosse rebatizada como 'grunge', um rótulo muito mais comercial. Mas, ao invés de sentir-se orgulhoso, esta popularidade sempre o envergonhou. Tinha a consciência pesada por 'ter se vendido às multinacionais'."

 

O leitor-diretor grunge

Gus Van Sant é um mito do cinema independente. Tem esse talento para abordar temas espinhosos contemporâneos e, ao mesmo tempo, tem também isso que o faz estranhamente comercial. Isso como se fora um diretor grunge. Gus Van Sant sabe ler no nihilismo, no estoicismo ou no vazio da contemporaneidade. Sobretudo, na alma desses jovens vazios, encurralados, perdidos nestes tempos inexplicáveis, onde até a contracultura é parte do sistema. O sistema perfeito, a máquina perfeita. A exceção será tragada, absorvida, e a exceção não se "sente" cômoda com o lugar que lhe foi designado, que se exploda e seja eliminada. Que se acabe (e aos quantos mais que se apresentem), entre vícios, paixões desenfreadas e armas. No final, a exceção, esse brinquedo quebrado, desaparecerá, e o sistema seguirá funcionando. Gus Van Sant, incrível clarividente, deixa ver isto em seus filmes. Lembremos de Drugstore Cowboy (1989), Garotos de Programa (My Own Private Idaho, 1991), Elefante (Elephant, 2003), Paranoid Park (2007) e, claro, Últimos Dias (Last Days, 2005).

 

Os últimos dias

Em abril, o Max nos traz, de Gus Van Sant, Últimos Dias, uma recriação dos momentos derradeiros do vocalista do grupo Nirvana, Kurt Cobain. Nesta quinta-feira, 5 de abril, reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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