Nota de Rodapé, ou você entre as rivalidades de pai e filhos

por max 12. julho 2013 09:00

 

A relação pai e filho está presente ao longo de toda a história da humanidade. No Ocidente começa com a mitologia grega, onde pais e filhos sobrenaturais vivem uma devastadora luta de poderes. Cronos é derrotado (ou castrado) por seu filho Urano (Saturno), que posteriormente, com medo que sua descendência faça o mesmo com ele, devora seus filhos. A famosa pintura de Goya é bem ilustrativa em relação a isso. Zeus, que foi escondido pela mãe, Rea, já adulto vence seu grande rival, seu pai Urano. Na religião católica Deus criou Adão e Eva e, de alguma maneira, ele cresce quando decide pecar, ignorando as ordens do pai.

O pai é um poder, é a representação de uma velha forma de poder, o filho é a revolução, o novo, que luta para ter voz. Contra a tirania de castração do pai, o filho deve se transformar e cortar. É o que fez Urano. Os testículos são a representação máxima dessa tirania, que continua a ser o filho e anseia separar-se do pai para encontrar a si mesmo, para alcançar sua individualidade. É um processo lógico e ancestral. No entanto, o episódio é também alegoria e metáfora de algo maior. Quem está contra o pai, também poderia se levantar contra os governos, contra os estados, contra imperadores, reis, ministros, governantes em geral. Assim, entre as leis religiosas mais antigas, exige-se respeito pelo pai e pela mãe. A figura paterna pode ser uma forma de controle social, e também, sem dúvida, esta forma de controle tem suas raízes mais profundas na alma dos homens.

Por estes caminhos da relação entre pais e filhos, entre os desejos de autoridade de uns e de outros, pelos caminhos da paixão atávica, temos a comédia do cineasta israelense Joseph Cedar (autor de Fogueira – Medurat Hashevet e de Beaufort), Nota de Rodapé (Hearat Shulayim), um filme que se move, ainda mais idealmente, na esfera do campo acadêmico, onde as competências entre professores-pesquisadores têm o prestígio da amargura. Cedar nos mostra, como previsto, um pai e um filho, neste caso, ambos pesquisadores das sagradas escrituras hebraicas.

O pai, Eliezer (Shlomo Bar-Aba) é misantropo, obsessivo, acadêmico, soberbo e apenas dono de um pequeno "sucesso". Seu prestígio alcança uma nota de rodapé no livro de sucesso de alguém. Uriel (Lior Ashkenazi) é o filho e é dono de um temperamento sedutor que encanta a todos. Uriel também conhece as luzes da fama; ele publicou vários livros e parece, sem dúvidas, que é muito mais importante e muito mais conhecido que seu pai.

No entanto, o filho despreza o pai e assim vamos conhecer Cedar de uma maneira muito divertida, inteligente e amarga logo no início do filme. Mas, chega o momento de ruptura: o pai é informado que receberá o maior e mais importante prêmio de Israel concedido a pesquisadores do campo religioso. E embora aqui aconteça a primeira ruptura, logo a situação fica ainda mais complicada, quando percebemos que era tudo um engano.

É quando, a partir de notas de rodapé muito criativas que o diretor introduz na trama, podemos conhecer e entender o comportamento do pai e do filho e a tensa rivalidade entre eles. No fim, o que está em jogo são os sentimentos, os sentimentos colocados na balança da vida. Cedar pesa e nos mostra; ele faz com graça, com um toque sarcástico e com ternura. Com tudo isso, quem gosta de bons filmes, agradece.

Em 2011, o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes e a Academia de Cinema de Israel concedeu-lhe dez prêmios, incluindo o de Melhor Filme.

Nota de Rodapé, domingo 14 de julho. Pais, filhos, cinema do mundo. O que você vê quando vê o Max?

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