Começa o ciclo Sensos de Humor – Os Homens que Encaravam Cabras

por max 2. dezembro 2011 06:37

 

O senso de humor, muito poucos têm, muito poucos compreendem isso; este mundo está cheio de gente séria demais. O humor é crítica, é ataque, é arma dos fracos contra os poderosos. O humor é como aquele arauto que vivia dizendo no ouvido do imperador romano: "lembre que és humano". Este mês, o Max tem o prazer de apresentar, todas as sextas-feiras de dezembro, um ciclo de cinco filmes sobre Os Sentidos do Humor. São, a saber: Os Homens que Encaravam Cabras (The Men Who Stare at Goats), Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão (A Woman, A Gun And a Noodle Shop), Estrada de Rei (King´s Road), A Mulher do Meu Amigo (A Mulher do Meu Amigo) e Sem Açúcar (Cheeni Kum).

Nesta sexta-feira, 2 de dezembro, começamos o ciclo com Os Homens que Encaravam Cabras (2010).

Há anos, décadas atrás, desde os tempos da Guerra Fria, vem-se falando de certas experiências secretas dos governos com relação aos poderes paranormais. Uri Geller, aquele famoso homem com poder mental que ficou conhecido por entortar colheres, dizia ter sido vítima de experimentos militares relacionados a seus supostos poderes. (Inclusive há um filme de Ken Russell, falecido recentemente, chamado Mindbender, de 1996, que fala sobre Geller e os tais experimentos militares). Costuma-se dizer que os russos foram pioneiros nesse campo, inclusive algumas provas vieram à público; nada que de maneira conclusiva demonstre que a mente é capaz de telecinesia ou telepatia ou adivinhação, ou de matar com somente o olhar. Cientificamente, nada disso foi comprovado. Jon Ronson, um corajoso jornalista galês que já tínhamos mencionado aqui, realizou uma pesquisa sobre o tema há alguns anos, daí saiu um livro intitulado Os Homens que Encaravam Cabras. Aqui, Ronson não somente investiga, mas também, com seu estilo que tem muito do gonzo de Hunter Thompson, zomba dos níveis do absurdo a que podem chegar esse tipo de investigações. De fato, o livro ficou tão bom e divertido que, rapidamente, o Canal 4 britânico realizou uma série de três documentários onde fica evidente esta loucura da qual estamos falando. Mas o assunto não parou aí e, em 2009, o livro passou para as telonas convertido em uma comédia de ficção estrelada por George Clooney, Jeff Bridges, Ewan McGregor e Kevin Spacey, e dirigida por Grant Heslov. Este é o primeiro longa-metragem de Heslov, que já havia trabalhado como ator e como roteirista com Clooney. De fato, com Clooney, foi indicado ao Oscar pelo roteiro original de Boa Noite e Boa Sorte (Good Night and Good Luck, 2005). Certamente, ele levou adiante Os Homens que Encaravam Cabras, provando que gosta de produzir projetos sempre interessantes.

Na adaptação, bastante livre, pois passa do documento jornalístico para a ficção, Ewan McGregor interpreta Bob Wilson, um repórter que vai ao distante Iraque fugindo de seus problemas familiares, mas ao mesmo tempo buscando demonstrar para sua esposa que é um homem de verdade. Lá, ele encontra Lyn Cassady (Clooney), que lhe confessa que fez parte de um grupo de espiões psíquicos do exército. Logo, a história começa a voltar ao passado para contar as peripécias delirantes desse grupo de homens com supostos poderes, como a invisibilidade e a capacidade de matar com o poder da mente.

Os Homens que Encaravam Cabras é uma comédia cheia de momentos absurdos tratados com elegância, com arte cinematográfica, muito como a marca dos irmãos Cohen. O senso de humor deles apela para a inteligência e joga e zomba com graça dos outros sentidos, dos sentidos paranormais que tanto se diz que os militares têm perseguido há décadas.

Os Homens que Encaravam Cabras, nesta sexta-feira, 2 de dezembro, dentro do ciclo Sensos de Humor, no Max.

Para reapresentações, clique aqui.

Kubrick, um enigmático ícone do cinema

por max 21. novembro 2011 10:03

 

O falso Kubrick

Lembro de ter lido, uma vez, uma notícia sobre um caloteiro que havia se passado por Stanley Kubrick para conquistar mulheres. A pessoa que se fazia passar por ele ia a bares de Los Angeles, se sentava no bar e procurava mulheres bonitas. As garotas, muitas delas ou quase todas, tratando-se de Los Angeles, queriam ser atrizes. Assim, esse cara conversava com elas e dizia que era Kubrick e prometia um papel em seu próximo filme. Elas, encantadas, interessadas, acabavam sendo enganadas e terminavam na cama com o falso Kubrick. Era uma notícia realmente particular, estranha e divertida. O que me chamava especialmente a atenção era o equívoco por "ignorância" dessas moças e com isto não quero dizer que Kubrick tenha sido um santo; a verdade não sei. O que sei de fato é que Kubrick não costumava sair para diverti-se, nem cometer excessos pela noite de Los Angeles. Kubrick nunca se deixou levar pelas luzes de Hollywood, sempre foi um homem reservado, um ermitão que somente pensava em trabalho. Era um desses homens com talento, com genialidade, com ego enorme. Não, definitivamente Kubrick não tinha estado nesse bar, porque Kubrick estava em outro lugar, bem distante, nos arredores de Londres. Kubrick, na realidade, não estava nunca em lugar nenhum. Era um homem que vivia em seu próprio mundo.

 

O suscetível meticuloso

No entanto, alguns anos depois de sua morte, arquivos e caixa e mais caixas de materiais de vários tipos ocupavam a casa do cineasta. Ele era um pesquisador incansável. Seu grande sonho - rodar a vida de Napoleão - acabou em montanhas e montanhas de material informativo. O jornalista e cineasta Jon Ronson conta, em alguma parte, que quando visitou a casa de Kubrick, entrou em uma biblioteca enorme, onde todos os livros eram sobre Bonaparte. Assim escreveu: "Me sinto um pouco como Shelley Duvall em O Iluminado, folheando o romance de seu marido e descobrindo que ele somente disse uma frase: "Só trabalho sem diversão faz de Jack um bobão", a mesma frase, digitada várias vezes, em todas as páginas." De fato, conta o mesmo Robson, que John Baxter em uma biografia sobre Kubrick o compara com o próprio Jack Torrance. Não sabemos se não fez Napoleão de tanto estudá-lo. Não sabemos se foi culpa de Hollywood que cancelou o projeto. O certo é que Kubrick podia demorar anos entre um filme e outro por causa de suas pesquisas, de seus estudos aprofundados. Nos anos 50, quando começou, fez quatro filmes; nos anos 60, também quatro; nos 70, dois; nos 80, outros dois; e finalmente um, o último, em 1999. 13 longas no total, mais três curtas. Esse é o resultado de 50 anos de carreira cinematográfica. Kubrick, sem dúvida, se dava seu tempo, vivia em seu tempo, em seu mundo. Era meticuloso, era suscetível, mas fez obras-primas

 

O artista ocupado

Este homem teria tido tempo de sair pra seduzir mulheres em bares de Los Angeles? Não, estava muito ocupado querendo fazer outras coisas. E coisas do seu jeito. Porque Kubrick fez as coisas com calma, e sempre com curiosidade criativa. Porque esta é a essência do verdadeiro artista: a luta contra o lugar comum, sua obstinação para ir ao lugar onde todos já haviam ido, mas tirar dali algo novo. Não é de se estranhar então que tenha feito filmes tão variados, e que tivesse ido de um gênero a outro com a inquietude de sua enorme curiosidade artística: grande produção de Hollywood, ficção científica, filme histórico, comédia, erotismo, sátira social, terror inclusive. Ali foi Kubrick e ali demonstrou o que podia fazer. Que a arte não se divide em baixa cultura e alta cultura, ou em arte popular e arte acadêmica. Não, Kubrick, como todo grande artista, bebia de todas as fontes e adaptava aos seus gostos. De fato, a maioria dos filmes de Kubrick tem histórias adaptadas de outros, mas adaptadas por ele. Os roteiros eram sua visão, a produção era sua, a fotografia sua (Kubrick começou sua carreira como fotógrafo), a direção sua. Tudo ele controlava, tudo fazia parte de sua visão.

 

O visionário visualizador

Certamente, a palavra "visão" não deve ser tomada de forma leviana com Kubrick. Ele era um visionário, um visualizador de mundos. Sim, há algo fundamental em sua capacidade para construir mundos, para construir cenas. Se muito de seu cinema parece uma explosão que acontece fora da realidade, não devemos esquecer que uma de suas características essenciais é a capacidade de recriar mundos com absoluta e obstinada fidelidade. Sabe-se que para fazer 2001: Uma odisséia no espaço (2001: A Space Odyssey, 1968), Kubrick e Arthur Clarke fizeram um estudo profundo do que seria o futuro. Entrevistaram especialistas da NASA, especialistas em moda, especialistas em computadores. De fato, o filme se vendia como uma versão "realista" do futuro. O interesse cenográfico de Kubrick estava sempre na busca do real. Sempre buscava ser o mais realista possível. Os cenários alucinantes de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb) foram trabalhados com extremo detalhe baseando-se nas localizações reais, apesar, inclusive, dos militares do Pentágono se recusarem a colaborar com ele. Suas recriações históricas, Spartacus (Spartacus, 1960) e Barry Lyndon (Barry Lyndon, 1975), são notáveis. Sim, Kubrick era um grande realizador de cenários, cada detalhe tinha que ser realizado perfeitamente. Se Tim Burton é um criador de mundos únicos, Kubrick era um grande recriador de realidades. Sabia que para provocar o mundo e seus males, devia estabelecer-se sobre esse mundo e desafiá-lo. Seu caminho para esse mundo eram suas histórias, que chegavam a níveis realmente alucinantes, absurdos, oníricos inclusive. A arte de Kubrick era um espelho, mas um espelho que ludibriava os homens.

 

Nesta terça, 22 de novembro, delicie-se com a última obra-prima de Stanley Kubrick, De olhos bem Fechados (Eyes Wide Shut), dentro do ciclo Ícones do Cinema, no Max.

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