Twilight Portrait, ou as obscuridades da condição humana

por max 9. novembro 2012 13:34

 

A arte não tem motivo para ser complacente. A arte procura escavar a alma e, a partir dali, não necessariamente surgem as melhores facetas do ser humano ou, pelo menos, não as mais fáceis de compreender. O cinema russo dos últimos anos compreendeu assim e suas circunstâncias históricas, talvez, não tenham permitido ver de outra forma. Depois da queda da União Soviética, restaram muitas feridas, muita necessidade, muita pobreza de alma. Twilight Portrait (2011), obra de estreia de Angelina Nikonova, nos faz mergulhar em um mundo onde não exista a compaixão, onde o homem é lobo do homem e onde sentimentos como o amor estão impregnados de forte dose de agressividade e dor.

O filme apresenta Marina (Olga Dihovichnaya, que também assina, com a diretora, o roteiro do filme), uma mulher de classe alta, arrogante e, para completar, entediada com o marido, seu trabalho e sua vida, em geral. Ela vive no vazio. Um vácuo que, durante um ano, foi repleto de escuridão. Durante anos, Marina foi testemunha, como assistente social, dos mais baixos comportamentos humanos. Talvez o mal seja um vírus. Talvez de tanto presenciá-lo, de tanto aproximar-se dele, a pessoa acabe ficando contaminada por ele. Ou viciada. Ao ver o ser humano cometendo barbaridades, a fé na vida vai se desfazendo e, em seu lugar, fica um vazio. Esse vácuo que, em Marina, será violentado por três policiais que se oferecem para acompanhá-la, depois de um assalto. Assim começa o filme. O espectador se pergunta o que mais pode acontecer. Podemos nos rebaixar mais? Aqui, o filme tem uma virada que, em um primeiro momento, não parecerá tão inesperado, mesmo aparentando ser lugar comum: Marina segue um de seus agressores, vai até a casa dele e o ameaça com uma garrafa quebrada. Supomos, então, que se seguirá a vingança, uma solução muito fácil. Mas não. Marina se joga contra seu agressor, o policial, mas não para matá-lo e sim para transar com ele. Aquela virada que parecia óbvia e clichê toma outros rumos. A diretora e a roteirista não são complacentes. Marina está mergulhada na obscuridade e quer mais dessa escuridão. Começa, então, uma relação com o policial agressor, tanto que, ela acaba vivendo com ele em um antro lamentável e na companhia dos deploráveis familiares do agente. Marina mergulha na sujeira e, a partir dali, busca a redenção de seu novo companheiro, talvez a dela também. Ela se mostra submissa, mas combativa ao mesmo tempo. Deixa-se maltratar, mas, ao mesmo tempo, insiste no amor, sentimento que para o agente é uma grande ofensa e motivo de fúria. Marina insiste. É como se, depois de todos os seus anos como assistente social, tivesse chegado a pensar que não havia feito realmente nada de útil, que tudo foi uma dissimulação distante e asséptica. É como se ela se punisse por isso, como se achasse que a verdadeira sinceridade da alma, o verdadeiro amor ao próximo fosse sujo, se deixasse também contaminar-se pela obscuridade. O fogo purifica, mas quem brinca com fogo se queima.

Assim é o primeiro trabalho da diretora Angelina Nikonova, bem sucedido nos festivais de cinema, admirado e premiado por personalidades da importância de Paul Auster e o Nobel de Literatura John M. Coetzee. Podemos pensar, inclusive, que a história de Marina foi influenciada por Desonra, de Coetzee. No final das contas, trata-se de duas histórias nada complacentes sobre a falta de respeito com o corpo e sobre a condição humana em ambientes hostis, onde uma vida não vale nada e o amor é uma quinquilharia.

Twilight Portrait, sábado, 10 de novembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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