Monty Python: Quase a Verdade, ou, o melhor da comédia britânica num documentário

por max 29. outubro 2011 03:14

 

O riso sempre tem sido um problema. O humor, como parte desses mecanismos do riso, também. Baudelaire, no seu ensaio Da essência do riso, faz uma revisão das considerações do riso na cristandade, e nos diz o seguinte: «o riso humano está intimamente ligado ao acidente de uma antiga queda, de uma degradação física e moral.» Vemos aqui o riso unido ao pecado, ao demônio, surgido logo depois da tentação.

No Paraíso que ainda não conhece a mordida da maçã, diz Baudelaire, a alegria não se expressava com o riso, o riso não deformava os rostos. Para a Idade Média o rosto deforme é demoníaco, a beleza é celestial. E claro, o riso deforma o rosto angélica, faz que o corpo se estremeça, e corpo estremecido é corpo possesso.

Lembremo-nos de O nome da rosa de Umberto Eco. Todos os assassinatos que acontecem naquele monastério são consequência de um livro envenenado a propósito pelo monge Jorge de Burgos. Por quê o monge tem envenenado as páginas desse livro (da língua ao dedo que mexe com a folha) com a única finalidade de conseguir a morte de qualquer um que queira lê-lo? Pois porque é um livro escrito por Aristóteles que se trata sobre o riso. Sim, o riso não resultava somente diabólico pela sua relação com a deformidade, senão também porque o riso denotava superioridade, e ninguém, ninguém no Reino do Senhor, podia se sentir superior. Diz Baudelaire: «O riso provém da ideia de superioridade». Essa mesma ideia será utilizada por Hobbes no seu Leviatã. O riso é produto do orgulho e da aberração, como orgulhoso e aberrado é o Satã. Mas também, devemos estar conscientes, o chamado ao pecado é uma expressão de liberdade. Eva se atreveu a contradizer o mandato de Deus, Eva disse não, e ao dizer não, elegeu, foi livre. Eva mordeu a maçã, deixou de ser uma boba feliz que não conseguia pensar, que não se atrevia a contradizer um mandato único: com a mordida da maçã nasce a liberdade e a inteligência. O humor também nasce quando o homem deixa de ser um borrego, nasce da inteligência. O humor, isto sim, é algo mais do que o simples riso. O humor é essa operação do espírito que atua sobre a realidade, que a percebe nas suas misérias, e a devolve convertida numa crítica mordas, num desembaraço, num discurso carregado de inteligência e dobles sentidos.

O humor é ataque e é crítica. O humor não sente piedade por nada. Arremete contra todos, mas principalmente ao poder. Com o poder político, com o poder social, com o poder eclesiástico, com o poder do espetáculo, com as normas instauradas, com os medos (o medo é um poder que domina) e com a língua (o poder do Estado). Por causa disso, o humor se entretém no jogo de palavras e torce o idioma. Por isso, a través do absurdo, a tolice e o surrealismo, o humor parodia e satiriza os poderes. A sua é uma lógica diferente que pretende dominar o mundo.

Uma das culturas que se da melhora com o humor, já disse em outro texto, é a britânica. A galera dos Monty Python, possivelmente o mais famoso dos grupos de humor em língua inglesa, nasceram oficialmente em outurbo de 1969, quando apareceram ao ar na BBC com um programa que tinha o nome de Monty Python Flying Circus (embora já vinhesem trabalhando juntos fazia alguns anos). O elenco estava conformado pelos comediantes John Cleese, Terry Jones, Terry Gilliam, Eric Idle, Michael Palin e Graham Chapman. Deles os dois únicos que não eram ingleses eram Terry Gilliam que era americano e Terry Jones que era galés. Por separado, Gilliam foi principalmente o desenhista do grupo (suas ilustrações para os Python são um clássico), mas também atuava copiosamente. Mas adiante, como já todos sabemos, se convertiria num diretor de culto com filmes como Brazil, Twelve Monkeys, e há pouco tempo atrás The Imaginarium of Doctor Parnassus.

Os Python, por sorte, tinham licença para fazer o que quisessem no seu show da BBC, constituído basicamente por pequenas cenas, ligadas umas com outras, pelo general, pelas ilustrações de Gilliam. Essa liberdade conseguiu fazer obras maestras de humor, cheias de absurdo, sátira, ironia e muita imaginação.

Além disso fizeram teatro, realizaram discos e libros, e em 1974 o seu primeiro filme: Monty Python and the Holy Grial, à que sucederiam Monty Python´s Life of Brian em 1979, Monty Python Live at Hollywood Bowl em 1982 y Monty Python´s The Meaning of Life em 1983. De onde provem esse nome tão particular? Pois cada um dos Python tem uma versão diferente, embora sempre concordem mais ou menos na mesma coisa. O negócio de «Flying Circus» apareceu como imposição dos executivos da BBC que proporão aquela frase horrorizados com títulos tão delirantes como The Toad Elevating Moment (que significa mais ou menos O momento da elevação do sapo), ou A Horse, a Spoon and a Basin (parecido a Um cavalo, uma colher e uma vasilha). O Python, aparentemente, surgiu de Cleese, que gostava de usar nomes de animais como recurso humorístico. E Monty porque todos achavam que parecia como o nome de alguém canhoto, desalinhado, simpático pela sua lerdeza. Então a BBC deu de si, o grupo também, e daí surgiu o nome.

Mas se voce quer saber mais, Max te convida a desfrutar Monty Python: Quase a Verdade (2009), um documentário produzido pela IFC (Independent Film Channel) na celebração dos 40 anos da primeira transmissão do Monty Python's Flying Circus. Originalmente o que esteve no ar tinha seis longas partes, logo se reduziu a uma hora para poder ser distribuído em outros canais de televisão. É um recorrido à historia do grupo, aos começos de cada um dos Python no gênero do humor, até o seu último filme. Entrevistas com Michael Palin, John Cleese, Eric Idle, Terry Jones e Terry Gilliam, e outros amigos e fanáticos célebres, vai estruturando o complexo caminho do grupo. Os segredos, o amor pelo trabalho (eles não faziam mais do que trabalhar e quase não tinham vida privada), a morte de Chapman em 1989, seus problemas com o álcool.

Monty Python: Quase a Verdade é um trabalho da altura dos seus homenageados, divertido e comovedor, que nos apresenta o funcionamento interno do grupo e também nos faz uma clara panorâmica da sua importância, do seu legado.

Monty Python: Quase a Verdade, neste domingo 30 de outubro, por Max.

Para retransmissões faça clique aqui.

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