Inverno da Alma, ou a odisseia do mal

por max 11. setembro 2013 09:59

 

E você pode se perguntar: de onde vem o mal? Qual é sua origem? O que produz tudo isso? Em uma região longínqua, onde não existem celulares, nem computadores, nem cinema, nem shopping center, ali, entre os bosques, névoa e veículos sem motor, nas portas das cabanas, o mal toma assento. Ele se instala em silêncio e cheira a anfetaminas. E alguém, outra vez, se pergunta: quem nasceu primeiro, a anfetamina ou o mal? Neste mundo do subúrbio não há modernidade, nem utopia bucólica. É um lugar perdido, um lugar onde o mal tem a forma do silêncio, do final, do tédio existencial. Assim é Inverno da Alma (Winter´s Bone, 2010), filme indicado a quatro Oscars e ganhador do Prêmio do Júri no festival de Sundance. Um trabalho independente dirigido por Debra Garnik, que nos faz mergulhar em obscuridades ainda mais patéticas e horrendas do que as que John Boorman havia apresentado em Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972); um mundo remoto, quase esquecido, onde os seres humanos parecem saídos das entranhas da terra, pequenos titãs, pequenos monstros consumidos pela ignorância e pela própria natureza. Digo pra mim mesmo que talvez o homem tenha criado a civilização para isso, para "limpar-se" da natureza, de seus abismos, de seus atavismos, de sua bestialidade, de seu poderoso silêncio, que é mais como o grito, o urro de um enigma. O silêncio do bosque sobressai, aterroriza. Não obstante, no filme de Debra Granik, a essa monstruosidade dos seres marginalizados soma-se algo novo, algo mais, outro fator de embrutecimento: a droga. A droga que já não é entendida como a entenderia um homem antigo, primitivo; não em sua sacralidade, senão dentro dela, paradoxalmente, bestialidade profana. A droga dessacralizada, que adormece e que, ao mesmo tempo, é fonte do mal ao converter-se em negócio obscuro, ilegal, de obscuras estratégias. Em Inverno da Alma há, pois, uma dupla articulação do horror: o mal é produzido por causa da anfetamina (droga que provém do mundo civilizado) e do abandono da essência humana e a adoção dessa animalidade arisca e crua do distante habitante rural. A comunidade onde vive Ree Dolly (Jennifer Lawrence), nossa pequena protagonista, parece o mundo de Boorman com drogas.

Ree, nossa heroína, vê a patética tranquilidade de seu mundo desgastada (deve cuidar de sua mãe inútil e catatônica e de um par de crianças) quando a estabilidade de seu lar é ameaçada. Ela pode perder o lugar onde vive, pois seu pai, um drogado fabricante de drogas, pôs a casa como garantia de sua fiança. O pai, ao sair, desapareceu, e agora Ree e sua família poderiam perder a casa. Ree, esta jovem garota austera e ao mesmo tempo bela e correta, sai em busca do pai perdido. Mas este pai não é Odisseu nem ela é Telêmaco. Neste mundo não há deuses, mas sobram titãs, os monstros, os homens que não querem falar porque se falassem, descobririam sua animalidade, o abismo no qual caíram. Lembro daquela cena na qual Pinóquio é levado a um lugar de prazeres infinitos, de prazeres que adormecem a consciência, que terminam transformando a ele e a seus companheiros em burricos desesperados. Este mundo de Ree é parecido. O prazer e o vazio transformaram essas pessoas em seres perversamente animais, selvagens mas, ao mesmo tempo, perversamente racionais. Contudo, mais perto da perversidade, o mal se traduz em silêncios cheios de terríveis segredos, de espantosas verdades. Ree, o único ser humano com capacidade de elevar-se contra a bestialidade, fará aqui uma viagem às profundezas dos invernos da alma.

Inverno da Alma, nesta quinta, 12 de setembro no Ciclo Independentes USA, que o Max apresenta toda quinta. O que você vê quando vê o Max?

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Inverno da Alma, ou a odisseia do mal

por max 18. maio 2012 11:34

 

E você pode se perguntar: de onde vem o mal? Qual é sua origem? O que produz tudo isso? Em uma região longínqua, onde não existem celulares, nem computadores, nem cinema, nem shopping center, ali, entre os bosques, névoa e veículos sem motor, nas portas das cabanas, o mal toma assento. Ele se instala em silêncio e cheira a anfetaminas. E alguém, outra vez, se pergunta: quem nasceu primeiro, a anfetamina ou o mal? Neste mundo do subúrbio não há modernidade, nem utopia bucólica. É um lugar perdido, um lugar onde o mal tem a forma do silêncio, do final, do tédio existencial. Assim é Inverno da Alma (Winter´s Bone, 2010), filme indicado a quatro Oscars e ganhador do Prêmio do Júri no festival de Sundance. Um trabalho independente dirigido por Debra Garnik, que nos faz mergulhar em obscuridades ainda mais patéticas e horrendas do que as que John Boorman havia apresentado em Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972); um mundo remoto, quase esquecido, onde os seres humanos parecem saídos das entranhas da terra, pequenos titãs, pequenos monstros consumidos pela ignorância e pela própria natureza. Digo pra mim mesmo que talvez o homem tenha criado a civilização para isso, para "limpar-se" da natureza, de seus abismos, de seus atavismos, de sua bestialidade, de seu poderoso silêncio, que é mais como o grito, o urro de um enigma. O silêncio do bosque sobressai, aterroriza. Não obstante, no filme de Debra Granik, a essa monstruosidade dos seres marginalizados soma-se algo novo, algo mais, outro fator de embrutecimento: a droga. A droga que já não é entendida como a entenderia um homem antigo, primitivo; não em sua sacralidade, senão dentro dela, paradoxalmente, bestialidade profana. A droga dessacralizada, que adormece e que, ao mesmo tempo, é fonte do mal ao converter-se em negócio obscuro, ilegal, de obscuras estratégias. Em Inverno da Alma há, pois, uma dupla articulação do horror: o mal é produzido por causa da anfetamina (droga que provém do mundo civilizado) e do abandono da essência humana e a adoção dessa animalidade arisca e crua do distante habitante rural. A comunidade onde vive Ree Dolly (Jennifer Lawrence), nossa pequena protagonista, parece o mundo de Boorman com drogas.

Ree, nossa heroína, vê a patética tranquilidade de seu mundo desgastada (deve cuidar de sua mãe inútil e catatônica e de um par de crianças) quando a estabilidade de seu lar é ameaçada. Ela pode perder o lugar onde vive, pois seu pai, um drogado fabricante de drogas, pôs a casa como garantia de sua fiança. O pai, ao sair, desapareceu, e agora Ree e sua família poderiam perder a casa. Ree, esta jovem garota austera e ao mesmo tempo bela e correta, sai em busca do pai perdido. Mas este pai não é Odisseu nem ela é Telêmaco. Neste mundo não há deuses, mas sobram titãs, os monstros, os homens que não querem falar porque se falassem, descobririam sua animalidade, o abismo no qual caíram. Lembro daquela cena na qual Pinóquio é levado a um lugar de prazeres infinitos, de prazeres que adormecem a consciência, que terminam transformando a ele e a seus companheiros em burricos desesperados. Este mundo de Ree é parecido. O prazer e o vazio transformaram essas pessoas em seres perversamente animais, selvagens mas, ao mesmo tempo, perversamente racionais. Contudo, mais perto da perversidade, o mal se traduz em silêncios cheios de terríveis segredos, de espantosas verdades. Ree, o único ser humano com capacidade de elevar-se contra a bestialidade, fará aqui uma viagem às profundezas dos invernos da alma.

Inverno da Alma, neste domingo, 20 de maio. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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