Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão ou Zhang Yimou e os Coen foram à ópera chinesa

por max 9. dezembro 2011 07:13

 

Estamos já familiarizados com o costume ocidental -hollywoodiano- de adaptar filmes asiáticos para o público do mundo todo. Porém, o diretor Zhang Yimou (ou Yimou Zhang, como preferir) realiza com Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão (A Woman, A Gun and a Noodle Shop, 2010) o processo inverso, e chama sua versão asiática de Gosto de Sangue (Blood Simple, 1984), primeiro e genial filme dos irmãos Ethan e Joel Coen. Zhang Yimou declarou que é fã do cinema feito pelos Coen, e que, desde a primeira vez que viu Gosto de Sangue, ficou profundamente admirado e pensou em fazer uma adaptação. Sempre teve a ideia em mente, até que um dia se propôs realizá-la, mas com uma variante: ambientar a história em um momento histórico que permitisse ao cineasta tomar elementos da ópera de Pequim, ou da ópera chinesa, de ambientação sempre histórica e cuja estrutura fundamental tem raízes na mescla das artes marciais com a tragédia e a comédia. Aqui, com estes dois últimos elementos citados, Zhang Yimou pode ver enormes coincidências com o primeiro filme dos irmãos Coen, onde também a comédia e a tragédia se fundem para formar uma peça estranha e fascinante. Sim, comédia e tragédia também estão em Gosto de Sangue, e o mesmo acontece na ópera chinesa. O laço estava estabelecido e Zhang Yimou se permitiu não somente uma versão, mas também uma fusão, dizendo que a vida é uma tragicomédia em tudo. Esta fusão operística permitiu ao cineasta também o desdobramento cinematográfico e cênico. Bem sabemos que Zhang Yimou dirigiu filmes muito simples como Nenhum a Menos (No One Less, 1999), mas que é mais conhecido por espetáculos visuais como Herói (Hero, 2002), O Clã das Adagas Voadoras (House of the Flying Daggers, 2004) ou A Maldição da Flor Dourada (Curse of the Golden Flower, 2006). Yimou se iniciou como diretor de fotografia e, desde então, seu gosto pela luz e pelo cenário não diminuiu. De fato, foi o diretor principal da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim em 2008. Em Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão os cenários, a encenação, a arte estão ali; em menor medida que em seus filmes mais grandiosos, sim, devo dizer, mas estão. O deserto, os céus, os planos gerais, os closes, alguns momentos de câmera lenta nos falam do virtuosismo do diretor que, sem dúvida, se concentra em criar uma adaptação cheia de silêncios, detalhada, tensa, uma forma de respeitosa homenagem aos Coen; se bem que as variantes da ópera chinesa apontam um ou outro elemento distinto, como a presença dos cômicos de estilo ch´ou, neste caso cômicos wuch´ou, que são malabaristas. Talvez a inclusão desse tipo de cômico tenha sido menos compreendida pelo público ocidental. A comicidade que aqui está representada é gestual, boba, medonha (muito asiática), o que não deixa de ter sentido, pois os personagens do filme se movem em um universo cheio de superficialidade, ignorância e paixões baixas. São seres feios como feias são suas almas, seres dominados pelo destino clichê daqueles que vivem no barro da ambição, da avareza, do sexo, da intolerância, do ódio e inclusive do medo e do perigo que assedia.

Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão, segundo filme que o Max nos traz neste mês de dezembro dentro do ciclo Sensos de Humor. Delicie-se com ele, nesta sexta-feira, 9 de dezembro.

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Matadores de Velhinha ou a violência como uma forma de arte

por max 17. abril 2011 19:27

 

 

Joel e Ethan. Coen, seu sobrenome. Devo dizer para começar que são os meus favoritos. Que eu os sigo desde o primeiro filme, que Barton Fink abriu um buraco na minha cabeça. Que o melhor filme que Nicolas Cage já fez foiRaising Arizona (e também alguns outros feitos com Lynch). Que The Hudsucker Proxy  (algo assim como a história do hula hula) e The Big Lebowski  são duas obras-primas incompreendidas. Que Fargo merece seu Oscar enorme. Que The Man Who Wasn't There é uma das obras-primas dos filmes em branco e preto do mundo. Que No Country for Old Men é uma das melhores adaptações de romances que já vi em filmes. Que Anton Chigurh, interpretado por Javier Bardem, é um dos maus mais assustadores do cinema. Os irmãos Coen são contadores de histórias e, têm talento, genialidade, para sair do lugar-comum, para criar personagens diferentes. Eles são comerciais? Às vezes sim, às vezes não. Todos os seus filmes têm um ar de diversão e peça original que muitos gostam. No entanto, também é verdade que os Coen não fazem concessões, apesar de contar histórias "divertidas" sempre estão à procura de seus caminhos, dos seus próprios gostos, da sua própria saída, de ir mais além. Os irmãos Coen gostam de violência, algo francamente comercial, mas a violência que eles fazem tem diferentes matizes, não está em conformidade com o efeito especial. A violência nos Coen é uma exploração, é a busca da alma humana. Violência, jogo da vida e da morte, manifestação do homem, de sobrevivência e destruição. Quando as coisas são entendidas dessa maneira, a partir do pensamento e da arte, a violência não pode ser o fim para ter mais audiência. Nos Coen, é um meio para falar do homem. E eles fazem isso com humor, com acidez, beleza e histórias verdadeiramente originais. Matadores de Velhinha (The Ladykillers, 2004) é um filme onde mora a violência. Nenhuma violência é mais silenciosa, mais venenosa, que a violência exercida pelo roubo, essa violação que também costuma esconder a máscara, a sedução, o engano. Baseado no filme original de 1955, dirigido por Alexander Mackendrick e estrelado por Alec Guinness e Peter Sellers, os irmãos Coen estão fora do ambiente de Londres e vão instalar os seus personagens no Mississipi, na casa de uma preta idosa com muito caráter. Lá estão eles com seus falsos instrumentos de música e o professor de mentira com seus asseclas, toda uma galeria de personagens típica dos irmãos Coen. Humor e violência, humor e personagens, o humor e a maravilha que causou sensação no Festival de Cannes e acabou dando a eles o Prêmio do Júri: Irma P. Hall pelo seu desempenho e a Palma de Ouro para os irmãos Coen.

Matadores de Velhinha, na terça-feira, 17 de maio na série de filmes premiados em Cannes.

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