Oslo, 31 de Agosto, ou revisitar a cidade e reabilitar o espírito

por max 17. janeiro 2014 06:23

 

A reabilitação não só implica deixar as drogas e o álcool, mas também implica na sobriedade. A sobriedade de um dia de cada vez, essa batalha de se manter com algum resquício da mente em pé nos lugares que antes eram pesadelos. Não se trata só de não beber, não se drogar, é também manter o equilíbrio do espírito, o que significa realmente toda uma odisseia do dia a dia pelos lugares onde alguma vez se escreveram histórias dolorosas. Esse é o caminho que segue, por vinte e quatro horas, o filme Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August, 2011), do cineasta norueguês Joachim Trier.

Baseado no romance Fogo Fátuo (LeFeu Follet, 1931) do escritor francês Pierre Drieu La Rochelle (já existe uma adaptação cinematográfica do mesmo livro feita por Louis Malle, em 1963), o filme de Trier desenvolve o drama em um dia da vida de Anders (Anders Danielsen Lie), um homem de 30 anos que sai de um centro de reabilitação e segue para uma entrevista de trabalho. Mas esta saída de Anders é mais que uma busca por um emprego. Joachim Trier nos leva à intimidade de Anders, mas, como nos romances de Kakfa, por mais próximos que estejamos do personagem, este continua enigmático para nós. Anders acorda ao lado de uma mulher qualquer, depois ele sai, tenta se suicidar, e depois vai para a entrevista de emprego, fica com raiva, visita um amigo dos velhos tempos, vai a uma festa, conhece uma garota que, finalmente, parece estar interessada nele e não em seu passado. No entanto, a cada passo, Anders fica mais perto do risco da queda, e não podemos saber se conseguirá ou não, pois dele não sabemos nada, não o conhecemos. O que Anders quer? Talvez Anders esteja buscando uma forma de unidade. De falsa unidade de si mesmo. Quem era Anders? Talvez ele se pergunte quem ele era nesses lugares e quem é agora nesses mesmos lugares? É como se Anders estivesse atrás de seu rastro, como se estivesse tentando recolher os pedaços espalhados por toda a cidade de Oslo. Precisamos do passado e de seus lugares para nos completar, para nos entender, e Anders, nesse presente devastado da cura, parecia não ter um lugar no mundo. Toda escrita precisa de uma superfície e Anders escreveu sobre essa superfície, a cidade de Oslo, uma história que foi um inferno. Ao sair para explorar a cidade, é como se Anders estivesse pedindo perdão, como se tentasse recomeçar sobre as diferentes superfícies. É como se buscasse reconciliar-se, dialogar, fazer as pazes não só com ele mesmo, mas com a cidade.

Mas, como já dissemos, a escrita permanece sobre os espaços, sobre as diferentes superfícies. Sua folha de vida é uma delas. A entrevista de trabalho demonstra: ele é muito bom no que faz, mas tem um buraco em seu currículo, um período inativo em seu passado, e ele é perguntado sobre isso. Ele diz a verdade, ele lê o que está escrito, ele lê nessa escuridão onde fervem o álcool e as drogas, e se enfurece. Ele se enfurece porque compreende que dia a dia, a cada segundo, a escrita continuará presente. Até mesmo seu passado tentará lê-lo. Quem é este novo homem, que coisas novas está escrevendo? Poderia parecer alguém que continuava livre de seu peso social, um herói que continuou fiel à sua rebeldia, que se livrou das amarras do trabalho, do casamento, dos filhos. Assim ele é lido por algum personagem do passado. Mas Anders é esta leitura de outro? Ou é aquele que, sem o perdão da cidade e de si mesmo, tentou apagar a escrita com o suicídio? Anders está em pedaços, ou é feito dos pedaços de uma escrita que foi dispersada – como um louco, foi deixando rastros de uma escrita desesperada por todas as partes - e isso o enfurece. Cada um desses pedaços é um animal que o morde, que late para ele. A sobriedade, em um só dia, é um desafio cheio de riscos elevados. É possível se reencontrar e começar a escrever algo novo sobre as ruas de Oslo? É possível reescrever uma Oslo mais amável? Porque Oslo continua lá, um lugar cheio de belezas, de memórias. Há um amor nesse olhar para Oslo, amor pela cidade onde se encenaram pesadelos, um amor onde o céu parece se abrir como uma página em branco. Talvez este filme de Joachim Trier não fale de redenção, esse conceito muito religioso para ser verdade e que parecia ser muito tarde na história de Anders. Sem dúvida, a leitura e a reescrita do lugar parece ser uma possibilidade. Mas esse trajeto de um dia é cheio de perigos. Reescrever é perigoso porque reescrever, como sabemos, é revisitar. Oslo revisitada pode acolher ou devorar Anders. Revisitar e reabilitar, neste caso, parecem significar a mesma coisa.

Oslo, 31 de Agosto, sábado, 18 de janeiro, no Max.

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