Agente C - Dupla Identidade, ou os problemas de uma mulher terrorista

por max 23. janeiro 2014 11:55

 

 

O cinema do terrorismo irlandês, ou o cinema da luta armada na Irlanda, é um grande negócio e já tem suas peças fundamentais. Em Nome do Pai (In The Name of The Father, 1993), de Jim Sheridan, é um clássico que de imediato nos vem à cabeça, assim como Traídos Pelo Desejo (The Crying Game, 1992) de Neil Jordan, Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes The Barley, 2006), de Ken Loach, ou o mais recente Fome (Hunger, 2008) de Steve McQueen.

Deste cinema, chama a atenção em particular a ideia da psicologia do terrorista por um lado, e das manipulações do poder por outro. Para a guerra, se vai como um soldado, se vai como representante de um país, faz parte de um coletivo que defende uma nação. No terrorismo, me parece, há algo mais individual. O terrorista – estamos falando do terrorista europeu, não do islâmico – não é propriamente um soldado, e sim um indivíduo, uma pessoa anônima, mas que tem uma decisão pessoal por trás, uma situação limite que o levou a ser um "soldado". O homem na guerra é recrutado, o terrorista entra nas filas do terrorismo por ação voluntária. Por trás desse homem – mais uma vez anônimo – há um drama ou uma tragédia. O filme traz à tona esse indivíduo anônimo e dá nome e sobrenome, porque é interessante, precisamente, o conflito interior que o motivou a se converter em um lutador de uma determinada causa. Por outro lado, os mecanismos do poder também são muito atrativos para mostrar neste tipo de filme. Nesta guerra que não é guerra, quem se move por trás do poder também são seres anônimos que deslizam através das frestas para minar os alicerces de uma organização igualmente anônima e terrível. Há um jogo de obscuridades e tensões. A zona da luta contra o terrorismo é encoberta, e nela a moralidade e a legalidade se movem entre fronteiras. Digamos que é um lugar maquiavélico, onde os fins justificam os meios.

O filme Agente C - Dupla Identidade (Shadow Dancer, 2012), de James Marsh (excelente documentarista britânico que ganhou o Oscar de Melhor Documentário com O Equilibrista (Man On Wire) em 2008), é uma nova exploração da questão do terrorismo, da luta irlandesa com base profundamente feminina – pois sua protagonista é uma mulher – e shakespeariana. E lá está a mulher como o centro da narrativa, a mulher terrorista e suas razões, mas também, de Shakespeare, é o turbilhão da vingança, a traição, o engano, a ambição e o amor materno. Colette (Andrea Riseboroughes), uma jovem mãe solteira que faz parte do Exército Republicano Irlandês (IRA), será o foco deste filme, acompanhada de Clive Owen na oposição masculina, e também na oposição ideológica. Owen é, neste caso, um agente britânico do MI5.

O filme abre com um prólogo em que somos apresentados a Colette quando criança. A menina se nega a sair para fazer uma compra que seu pai ordena, e essa negação trará consequências. Ao invés dela ir, quem vai é seu irmão pequeno, e em seguida este irmão aparece morto, baleado em um combate entre o IRA e o governo. O pai então joga na cara de Colette a culpa pela morte de seu irmão. Ocorre a rejeição e a cena é cortada. Agora estamos em 1993, Colette vai colocar uma bomba em uma estação de metrô. Ela consegue, mas é capturada ao tentar fugir. Depois é levada até Mac (Clive Owen), um agente especial que já tem tudo pronto para estremecer a tranquilidade de Colette ao obrigá-la a trabalhar para eles como informante. Mac sabe do conflito interno de Colette, sabe da ferida aberta por seu irmão morto, e sabe que ela também tem um filho. Ele mostra fotos onde parecia que a bala que matou seu irmão vinha do lado do próprio IRA, e a ameaça com vinte e cinco anos de prisão, o que a impedirá de ficar com seu filho. Colette se vê forçada a dar seu braço a torcer: não pode perder outro menino em sua vida, em sua angústia, irmão e filho se misturam, fazem parte de uma mesma dor. Ela vai sair para espionar seus irmãos, membros do IRA, enquanto que em suas costas, nos meandros do poder, uma mulher (Gillian Anderson), por interesses próprios, muda algumas coisas para dificultar a espionagem. Mac começa a se incomodar com sua chefe e, ao mesmo tempo, algo começa a surgir entre ele e Colette e, claro, isto vai gerando mais conflitos, como já disse, shakespearianos, entre as sombras do tormento, a culpa, o desejo, a ideologia e a luta de poderes em uma mulher que se debate entre suas diferentes condições, mãe, filha, irmã, lutadora, mulher apaixonada...espiã.

Agente C - Dupla Identidade, sábado 25 de janeiro, no Max.

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