O Bom Coração, ou a amizade dos vikings

por max 11. janeiro 2013 11:50

 

A verdade é que não sei nada sobre a Islândia. Dizem que o país tem uma alta taxa de suicidio, mas parece que não é bem assim. Dizem que é um lugar muito frio sobre um fundo vulcânico e isso parece que é mesmo. Também li por aí que, na Islândia, as pessoas se divorciam muito e que as mulheres se viram muito bem sozinhas. Apesar de ter sofrido uma crise financeira em 2008, hoje é um dos países mais prósperos do mundo. E, bem, também compreendo que, com os países escandinavos, ela compartilha histórias de vikings e essas mitologias nórdicas encabeçadas por Odin, Thor e companhia. Mas, além disso, não sei mais nada sobre a Islândia. Mas, talvez, saber estas pequenas coisas sirva para entender um pouco mais o filme O Bom Coração (The Good Heart, 2009), terceiro filme do islandês Dagur Kári Pétursson. Mas vamos lá! Melhor esse pouco que se tem do que não ter nada, porque o filme, na verdade, se desenvolve em um bar de Nova York. Ainda que, não posso deixar de dizer, há algo de viking no tema, algo de mulheres que não existem, da mulher do lado de lá que se distancia do forte viking para estar com seus amigos. Não é? Mas poderia ser: porque no bar deste filme não se aceitam mulheres, nem mesmo novos interlocutores. Os bêbados deste bar são os mesmos doces bêbados de sempre (isto de ser doce não é muito uma coisa viking, mas sim bem cristão, muito de último instante). Jacques, o dono do bar (interpretado por um excelente Brian Cox), é um tipo rabugento e maníaco, e é ele que impõem essa regra: nenhum cliente a mais, e nada de mulheres. Aquele lugar é como, e desculpem que volte a insistir, uma patrulha de vikings. Aquele é um lugar para os amigos, para os amigos mais chegados. E esta história é, exatamente, uma história de amizade, como aquelas mostradas no cinema americano, que funcionaram tão bem no final dos anos 60 e princípio dos 70, tais como Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, 1969) de John Schlesinger, com Jon Voight e Dustin Hoffman; Espantalho (Scarecrow, 1973) de Jerry Schatzberg, com Gene Hackman e Al Pacino, ou Jogando Com a Sorte (California Split, 1974) de Robert Altman. Neste caso, o contraponto de Cox é Lucas (Paul Dano), um jovem vagabundo que deseja suicidar-se, e que Jacques conhece num hospital enquanto se recupera de um infarto. O que acontece depois? Jacques decide protegê-lo e ensinar tudo o que é preciso saber sobre o trabalho de barman e sobre as regras de seu bar particular.

O Bom Coração é um filme no qual se alternam momentos cômicos e de humor negro com o drama e a profundidade humana. Apoia-se no confronto entre os atores, mas sobretudo em Brian Cox, frenético, tonto e atormentado em sua solidão como capitão deste barco ébrio que mergulha nos territórios das segundas chances e da amizade como forma de redenção.

O Bom Coração, neste domingo, 13 de janeiro.

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Al Pacino, entre o olhar cabisbaixo e a violenta explosão

por max 24. novembro 2011 08:48

 

Al Pacino surgiu nos anos 70, junto com um grupo de atores e diretores conhecidos como a marca da Nova Hollywood. Tal como disse Peter Biskind em Moteros tranquilos, toros salvajes, eles eram Jack Nicholson, Robert De Niro, Dustin Hoffman, Gene Hackman, Richard Dreyfuss, James Caan, Robert Duvall, Harvey Keitel e estavam junto a diretores que abandonaram a ideologia do cinema de autor, como Francis Ford Coppola, Woody Allen, Stanley Kubrick, Martin Scorsese e Steven Spielberg, entre outros. O que tinham esses novos atores? Eles não formavam um grupo homogêneo de rostos bonitos. Não eram nem insignificantes, nem metidos, bonecos irreais do mundo das ilusões. Os novos atores pareciam mais com as pessoas que caminhavam nas ruas. Assim como Al Pacino, filho do Actors Studio e Lee Strasberg, eles contribuíram para uma nova maneira de entender a atuação, mais cheia de energia, mais psicológica, complexa e crua. Al Pacino, com seus 1,75m, era um cara raquítico que olhava todo o tempo para o chão. Sua presença não impressionava e, claro, não havia produtor ou diretor da velha Hollywood, que se interessaria nele. Bob Evans, o famoso produtor que deu tantos problemas a Coppola durante a realização de O Poderoso Chefão (The Godfather), se referia a Pacino como "o anão", e havia proposto outros atores para o papel, entre eles Robert Redford e Alain Delon. Foi Coppola quem insistiu em Pacino, um ator totalmente desconhecido, para o papel de Michael Corleone. No princípio dos anos 70, Pacino havia atuado em apenas um filme, Os Viciados (The Panic in the Needle Park, 1971). Ali interpretou Bobby, um dependente de heroína nova-iorquino. Coppola viu o filme e se empenhou em que Pacino fosse seu escolhido. No final conseguiu e o ator acabou sendo este personagem, no princípio humilhado e tímido, absolutamente distante das manobras mafiosas de seu pai Don Vito (claro, Marlon Brandon) e que, por várias razões que se entendem durante o filme, termina transformando-se no chefe absoluto do clã, um ser sem piedade, cerebral e frio. O Poderoso Chefão foi um sucesso de bilheteria e de crítica e Al Pacino se lançaria às nuvens. Contudo, seu perfil como ator estava claro: Pacino pertencia a essa nova camada de atores realistas que podiam oferecer grandes interpretações. Pacino, em especial, era uma marca étnica, um ítalo-americano com seu sotaque particular ao falar inglês. Mas, quando atuava, aquele rapaz tímido, que olhava o tempo todo para o chão, se transformava em uma figura poderosa. Continuava mesmo assim, havendo certa fragilidade nele. Seus personagens eram sempre da periferia: faziam parte deste lugar e ao mesmo tempo não. Eram solitários, por caráter e inclusive por convicção. Assim era Frank Sérpico, seu policial sempre teimoso, sempre movido por uma grande força interior, por sua honestidade e seu sentido de dever; sempre sozinho no meio de sua luta contra a corrupção generalizada. Em Sérpico (Serpico, 1973) fez outra de suas grandes interpretações. Naquele mesmo ano, também ganhou destaque em Cannes com O Espantalho (Scarecow), um filme de Jerry Schatzberg, que já havia dirigido Pacino em O Viciado. Se Schatzberg havia dado sorte no início e o levado a Coppola, porque não tentar de novo com o ator. A escolha foi totalmente acertada. Junto com Gene Hackman, Pacino interpreta o personagem Francis Lionel Delbuchi neste filme, no qual os vagabundos se encontram na estrada e iniciam uma grande amizade. O personagem de Hackman é duro e agressivo, e o de Pacino é mais leve, mais enlouquecido, mais sensível e com uma visão da vida muito mais aberta. Para Francis, os espantalhos não espantam os corvos, mas sim, os espantalhos fascinam os corvos. O filme faturou a Palma de Ouro em Cannes e Al Pacino conquistou o público e uma crítica bem exigente.

Logo depois de O Espantalho e Sérpico, Pacino interpretou outra vez Michael Corleone na segunda parte de O Poderoso Chefão em 1974, e fez o papel de Sonny Wortzik em Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975), de Sidney Lumet. Sonny, o assaltante de banco, era um personagem elétrico, perigoso, carismático e sensível. O ator, uma vez mais, dava o melhor de Pacino ao seu personagem, e conseguia, pelo quarto ano consecutivo, uma indicação ao Oscar como Melhor Ator. A saber: O Poderoso Chefão, Sérpico, O Poderoso Chefão 2 (The Godfather – Part II) e Um Dia de Cão. Depois de um intervalo pouco glorioso, voltaria à telona com outra de suas grandes interpretações. Em 1983, interpretou Tony Montana em Scarface, de Brian De Palma, um de seus personagens mais abjetos. Afundado (ou, melhor dizendo, consumido) na violência e corrupção, Montana, sem dúvida, também dá espaço a Pacino para mostrar seu lado humano, suas fraquezas, seus medos; esse seu olhar cabisbaixo de que já falamos. Porque foi assim: o ator tinha feito de novo: havia interpretado um personagem agressivo, mas ao mesmo tempo humano e, diga-se de passagem, estrangeiro; lembremos que Montana era um cubano.

Com os anos, Pacino foi ocupando cada vez mais seu espaço nas alturas como um dos atores mais importantes do cinema mundial. Apesar disso, só recebeu um Oscar. Os jornalistas estrangeiros, não por acaso, agora o tratam melhor. Al Pacino levou quatro Globos de Ouro mais um prêmio Cecil B. DeMille, outorgado pela imprensa estrangeira nesta cerimônia. Pacino também já assinou filmes como produtor e diretor. Seu mais recente filme, Wilde Salome (2011) recria dentro e fora dos palcos a peça de Oscar Wilde, em um jogo entre teatro, realidade e ficção, que nos lembra seu documentário de 1994, Ricardo III: Um Ensaio (Looking for Richard).

Mas onde Al Pacino fez história e onde, sem dúvida, converteu-se em um ícone do cinema foi no difícil terreno da atuação. Aqui ele apresentou personagens memoráveis, papeis de maestria que serão reverenciados para sempre.

Nesta quinta-feira, 24 de novembro, não deixe de ver Al Pacino em O Espantalho, dentro do ciclo Ícones do Cinema, no Max.

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