Método Para a Loucura de Jerry Lewis, ou a herança do comediante idiota

por max 23. outubro 2012 07:11

 

Na Idade Média, o gestual exagerado era considerado coisa do demônio. O gestual correto do nobre, por exemplo, devia ser rígido, moderado. O corpo era um templo feito por Deus e devia ser respeitado, devia ser como O Criador, longilíneo, estático, hierático. O corpo de movimentos exagerados era o corpo possuído, o corpo em pecado. O carnaval permitia os exageros dos movimentos. O menestrel também podia mover-se além da conta, assim como o bufão. Mas, se para eles era permitido, isso não era visto com bons olhos, o tempo todo.

O corpo e a doença têm uma relação estreita. A semiologia médica estuda os sintomas do corpo para determinar a doença. Hipócrates, em sua teoria dos humores, estabelecia o equilíbrio da bílis em suas diferentes variantes no corpo como causa das doenças, inclusive mentais.

Em Why the French Love Jerry Lewis: From Cabaret to Early Cinema (2001), de Rae Beth Gordon, vimos que começa um interesse por parte do público e da arte em relação à histeria a partir de Jean-Martin Charcot, que fez estudos sobre a histeria no hospital de La Salpétriêre (1862 e 1881), assim como a publicação da iconografia fotográfica da mesma instituição por parte de Régnard, Londe, Bourneville, Gilles de la Tourette e Richer. Nessas fotos, apareciam as pacientes de La Salpétriêre em diferentes posições, bem estranhas e com expressões faciais não menos impressionantes. Os artistas de cabarés começaram a fixar-se em tais expressões, em tais movimentos. Queriam que seus corpos imitassem o histérico, o idiota, o epilético no palco. Charcot havia dividido aquelas posições em três categorias: a epileptoide (movimento convulsivo), a apalhaçada (ou clownismo, entendido a partir da perspectiva do corpo tomando posições, digamos, acrobáticas) e, finalmente, a de atitudes passionais (posições de êxtase). Então, não é de se estranhar que, com a moda, surgiram apresentações relacionadas a estes estudos de Charcot. É preciso dizer, inclusive, que os contorcionistas e os fenômenos de cabarés já ocupavam um lugar importante há algum tempo.

A hipnose, os estudos sobre o sonambulismo, a histeria estavam em toda parte, estavam na moda. Eram os anos também das ideologias políticas, do anarquismo, do comunismo, do socialismo. Estes grandes temas também permeavam as apresentações nos cabarés; como se sabe, arte, ideologia e crítica social sempre andaram de mãos dadas.

Assim, o corpo começa a ser entendido como um objeto desejado por todos os poderes, como um lugar a ser dominado e, portanto, também entrava nesta luta pela liberdade, pela rebelião. As posições do corpo da histeria e da epilepsia utilizadas pelo artista eram, de alguma forma, o modo de falar de um corpo em desobediência que, na verdade, acata outros poderes, o poder supremo do inconsciente. Tais expressões corporais, tais rebeldias serão vistas, mais adiante, no movimento Dadá, naqueles jovens poetas ou artistas que entravam abruptamente nos cafés, recitando seus poemas incompreensíveis.

A tradição dos comediantes de cabaré, de salão, continuou no cinema. No início do cinema e da televisão, muitos comediantes dividiam seu tempo entre teatros, cabarés e as atuações na tela. Chaplin, Stan Laurel, Oliver Hardy, todos vinham do teatro de variedades. Laurel e Hardy mudaram para o vaudeville – essa versão americana do cabaré europeu. Os irmãos Marx tiveram sucesso no vaudeville e na Broadway. Assim, de alguma maneira, essas correntes subterrâneas da histeria, do cômico idiota (o Cômico Idiota era uma categoria de cabaré), vieram à superfície em algum momento da Comédia americana, tanto na televisão, quanto no cinema. Jerry Lewis foi, talvez, a expressão máxima dessa tendência. Lewis levou seus personagens para novos níveis da comicidade, onde a expressão corporal e o gesto eram motivos de exagero dentro do campo do personagem idiota. Seus personagens eram preguiçosos, irritantes, lunáticos como quem não tinha o cérebro funcionando direitinho, e andavam pelo mundo, levando suas ideias e suas bobeiras para quem cruzasse seu caminho.

Como muitos comediantes, ele começou trabalhando em dupla. O dueto de Lewis era particularmente interessante, porque seu companheiro foi Dean Martin, um galã de voz maravilhosa que encantava as mulheres. Lewis, ao seu lado, era o lerdo, o bobo, o idiota. Assim funcionaram muito bem durante muito tempo, mas depois Lewis começou a trabalhar de maneira independente como ator e como cineasta. O comediante escrevia e dirigia seus próprios filmes. Tinha tudo sob controle. Sempre fez o que lhe veio à cabeça, sempre contou as histórias que quis. Paradoxalmente, em alguns de seus filmes, continuou trabalhando como se tivesse uma colaboração, pois Lewis gostava de interpretar vários papéis em seus filmes, sempre a partir de dois personagens extremamente opostos. Como em O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy, 1960), por exemplo, no qual interpreta ele mesmo, ou seja, a estrela Jerry Lewis, mas também um carregador de malas mudo e completamente idiota. O Professor Aloprado (The Nutty Professor, 1963), um de seus trabalhos mais conhecidos, também é exemplar, pois apresenta um professor lerdo e abobado que, para melhorar sua vida social, inventa uma fórmula que o transforma em outro homem, um que não acaba sendo o terrível Mr. Hyde, mas sim um galã de primeira categoria. Lewis, como diretor, conta com mais de 20 filmes e, como ator, com mais de 70. Sua marca está em tudo o que realizou. Ele era esse tipo desagradável, de trejeitos exagerados, abestalhado e desajeitado, que colocava todo mundo em apuros. Seus personagens oscilavam da perfeição ao disparate, da norma social à lerdeza, que faz sentir a "glória repentina" de Thomas Hobbes. Sua herança está em atores como Jim Carrey, Robin Williams, Pe-wee Herman, Chevy Chase, entre outros.

Incompreendido em sua época, amado pelos franceses e reabilitado em nossos dias, Jerry Lewis é visto, atualmente, como um mestre da comédia norte-americana. Um documentário como Método Para a Loucura de Jerry Lewis (Method to the Madness of Jerry Lewis, 2011) faz justiça a ele. Seu diretor, Gregg Barson, certa vez, entrevistou Lewis para outro documentário que estava realizando e então surgiu a ideia. Mas, claro, tinha que fazer um documentário sobre o mestre incompreendido! Logo começaram a trabalhar. Barson não somente teve o consentimento do comediante em questão, mas outros como Quentin Tarantino, Billy Crystal, Jerry Seinfeld, Steven Spielberg, Carol Burnett, Alec Baldwin, Chevy Chase, Eddie Murphy e Carl Reiner também adoraram participar. O documentário, que levou três anos para ser finalizado, não somente foca no legado de Lewis na comédia, mas também no mundo dos negócios e inclusive nas contribuições técnicas (sim, contribuições técnicas) de Lewis para o cinema.

O Marlon Brando da comédia americana - assim o chamam em algum momento do filme. Esse Marlon Brando vagabundo e desajeitado que deixou algo de sua arte – de sua arte boba, com raízes profundas naquelas velhas fotos de La Salpétriêre — em muitos dos comediantes contemporâneos e que marcou maneiras de olhar o mundo e de fazer comédia no cinema, também vagabundo e muitas vezes cruel.

Método Para a Loucura de Jerry Lewis, domingo, 28 de outubro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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