Filme Socialismo, ou a história do mundo, segundo Godard (ou isso é o que pensa este que vos escreve)

por max 24. janeiro 2013 08:13

 

Filme Socialismo (Film Socialism, 2010) é uma colagem sobre a civilização ocidental em vídeo digital de alta definição em três partes, com direção de Jean-Luc Godard. O filme resulta em um retalho alegórico, carregado de imagens aceleradas que remetem ao presente, ao passado e ao futuro de ocidente, com os gregos como vértice cultural, e a ambição humana como geradora, por dupla articulação, de progresso e barbaridade (ou isso é o que pensa este que vos escreve). Mas também o filme resulta em um novo desafio, uma provocação e um atestado de gota d´água do cinema por parte de um dos diretores que, com o passar dos anos, foi se tornando cada vez mais radical, hermético e insuportável (por que não chamá-lo assim?).

A trama: Na primeira parte, um navio, o Costa Concórdia e que até pode ser o barco dos loucos, mas ao mesmo tempo um cruzeiro de muita sofisticação, é o cenário perfeito para a busca do ouro, envolto em lendas e histórias. Junte a isto a interação de personagens que se lançam em um vórtice de intrigas e conversações, discursos e linguagens. Nesse quadro ainda estão incluídos um filósofo francês (Alain Badiou, e sim, tinha que ser francês, claro), uma cantora famosa (americana, claro, tipo Patti Smith), um ex-agente duplo, um embaixador palestino, um ex-criminoso de guerra, um policial de Moscou (os policiais são, por excelência, russos).

Na segunda parte, os filhos dos donos de um posto de gasolina, localizado em algum lugar na França, submetem seus pais a um interrogatório sobre eleições, o que acaba sendo uma espécie de tribunal no qual se questiona a igualdade, a fraternidade e a liberdade. E na terceira parte, Egito, Palestina, Odessa, Hellas, Nápoles e Barcelona são os epígonos geográficos para fundir a realidade com a lenda ou com o mito (o que acaba se unindo, por sua vez, à história do ouro). É como se Godard estivesse dizendo que, desde o início dos tempos, precisamos das histórias para sobreviver, para sermos humanos.

Elocubração e testes em torno da linguagem (a corrupção do mesmo), das ideias e dos direitos autorais dessas ideias, da imagem e do digital, do corpo e do político, da realidade e da mitologia, isto (e quem sabe se mais ou menos) é Filme Socialismo.

Godard, não se pode negar, é um dos últimos dinossauros da modernidade que quer seguir fazendo um cinema filosófico, vanguardista talvez, pausado artisticamente francês e de autor, no qual se conjuga a maravilha da estética com a profundidade do pensamento. Mas também é um autor do nosso tempo, que pensa, com a cabeça nas nuvens, maneiras novas de olhar o mundo, maneiras que surgem a partir das mídias, da tecnologia (o digital, que é, por sua vez, o numérico), do global, do ócio, do capitalismo, do corpo, das minorias, do individualismo e do capital (ou isso é o que supõe este que vos escreve), de toda uma viagem por nosso universo de sinais, na qual o futuro parece ser esta espécie de raro socialismo do capital, do corpo e do prazer, que nos guia para um lugar não muito bem determinado, no qual as imagens (a fotografia, o vídeo, o retrato de cada instante) parecem ser a ordem do dia: a civilização volta como espetáculo, essa espécie de socialismo hiper-real. Socialismo, porque todos participam, todos são bem-vindos; hiper-real porque estão em todas as partes, por cima da realidade, registrando a realidade, substituindo a realidade.

Ou isso é o que o pensa quem vos escreve, porque talvez esta seja uma leitura superficial, uma leitura equivocada. Com Godard, nunca se sabe.

Ah, vale dizer ainda que Costa Concórdia, esse mesmo cruzeiro no qual Godard filmou -e cujo nome, Concórdia, destacava o desejo de continuar a harmonia, a unidade e a paz entre as nações europeias -, afundou em 13 de janeiro de 2012, em frente à ilha italiana de Giglio, no mar Mediterrâneo. Muito além do "Sem Comentários" do final do filme, aparece esta outra imagem, metáfora terrível que resume o que Godard desejou – ou não quis – dizer, perfeita despedida para o que o cineasta com mais de 50 anos de carreira apresenta como seu último trabalho, mas quem sabe dizer se será isso mesmo.

Filme Socialismo, de Jean-Luc Godard, nesta quinta-feira, 24 de janeiro. Cinema de autor, ruptura de fronteiras, imagens em órbita. O que você vê, quando vê o Max?

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Martin Scorsese, ou um cara tímido e inteligente que sabe estourar

por max 25. novembro 2011 11:40

 

"A sua era uma vocação como poucas. Respirava, comia e cagava cinema". Assim Sandy Weintraub chegou a falar de Martin Scorsese, que continua tendo uma vocação como poucos, que segue respirando, comendo e cagando cinema. Costuma-se dizer que Tarantino sabe muito de cinema porque trabalhou em uma videolocadora e tudo o mais, mas quem realmente conhece cinema, quem lembra cada cena, cada tomada de todos os filmes que o fascina é ele, Marty, Martin Scorsese.

Ele era filho de alfaiate e costureira, e sempre andava e continua andando com roupas impecáveis. Viveu a maior parte de sua vida no bairro de Little Italy, em Nova York, e ama Nova York tanto como Woody Allen pode amá-la. Suas origens são humildes, e viu nas ruas de Little Italy, entre outros, aqueles imigrantes italianos, o verdadeiro rosto da violência e da máfia. Costuma-se dizer que ele cresceu entre padres e mafiosos. O jovem Marty tinha visto todas essas coisas e era pequeno, doentinho, sem pescoço, cegueta. Estava nas ruas, mas digamos que não era "feito"/apto para elas. Era testemunha, era um olho observador, mas não protagonista. Foi para um seminário estudar para ser sacerdote. Logo deixou o monástico refúgio e foi buscar outro mais profano e que tivesse mais a ver com seus interesses: começou a estudar cinema na NYU (Universidade de Nova York). Ali, encontrou-se com professores totalmente distanciados das imagens e das ideologias da Hollywood de então. Ali, falavam para ele de contar, fazer cinema com o que conhecia, com a vida da rua. Acreditava-se no realismo, acreditava-se na realidade nua e crua. O jovem Marty havia visto coisas, sabia que o mundo dos italianos não era como o de O Poderoso Chefão, de Mario Puzo. Ele queria contar estas coisas, ele tinha a paixão, o conhecimento vivencial e o intelectual para contá-las. Era uma mente inquieta que falava a toda velocidade. Hoje em dia, continua sendo isso: um homem vestido com elegância, que fala a toda velocidade, que não deixa de falar de cinema e que sabe fazer cinema. Um cinema violento e real.

Então, naqueles primeiros anos, o jovem Marty esteve ali para fazer parte dessa Nova Hollywood junto com Spielberg, Coppola, Beatty, Altman, Kubrick... Coppola, um pouco anterior a ele, introduziu a fascinação italiana nos estúdios e no público. A fascinação italiana podia ser entendida como as histórias dos ítalo-americanos com armas, mas também a fascinação pelo cineasta ítalo-americano, jovem e com pretensões de ser autor, assim como o europeu, como eram Godard e Truffaut, por exemplo. Nasceu ali o filme que tornou Scorsese conhecido e que, claro, lhe causou problemas nos estúdios, como todos os novos filmes estavam dando problemas nos estúdios: estamos falamos de Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973). Era um filme da rua, muito cinema-verdade, que retratava a vida do bairro italiano de Nova York segundo Scorsese. Pequenos negócios sujos, pequenas vidas, muita falta de humanidade, abjeção. A realidade da violência é crua e aquele jovem diretor mostrou-a como era, um lugar sempre a ponto de explodir. A mente do homem também. Com Scorsese, entende-se que dentro do ser humano habitam obscuridades que dão dentadas. Que o homem é um animal estranho e que a realidade também é um animal estranho e violento. Desde aqueles primeiros tempos, Scorsese estava metido ali: rasgando a superfície serena do mundo, fazendo explodir os perigos, as histórias, os personagens. Filmes como Gangues de Nova York (Gangs of New York), Os Bons Companheiros (Goodfellas), Taxi Driver (Taxi Driver), Touro Indomável (Ranging Bull), Cabo do Medo (Cape Dear), Cassino (Casino) ou a Ilha do Medo (Shutter Island) são claras mostras de sua obsessão pelas obscuridades da mente e por mostrar como o mundo é um lugar perigoso, onde nunca estaremos a salvo. O jovenzinho magro, adoentado, com medo de tudo, surge nestes filmes. Um rapaz contido que explode, que também pode gerar violência. Um dos filmes onde se refletem tais traços desta parte da cinematografia de Scorsese é Depois de Horas (Afters Hours, 1985). Trata-se de uma produção classificada como comédia e que, pra mim, é mais um épico, mas um épico noturno e nova-iorquino. Depois de Horas é uma viagem às profundezas da noite, uma viagem de herói que sofre, de herói que não é herói, de guia de si mesmo. Porque é assim, Paul Hackett (Griffin Dunne), o protagonista de Depois de Horas vai chegando, a cegas, a si mesmo através de uma galeria de lugares e de personagens da noite. Mas aqui, a picaretagem fica atenuada, anula-se digamos na alma anglo-saxônica, e melhor ainda, nosso herói sofre, sofre como sofreria um personagem de Kafka através de situações embaladas por uma noite labiríntica. Paul Hackett vai rasgando a superfície da noite, e embaixo vai descobrindo perigo, loucura e morte. Paul Hackett poderia ser uma vítima, mas também poderia reagir e explodir no meio de todo esse turbilhão obscuro. Um filme irreal? A noite tem uma realidade tão irreal, e inclusive uma irrealidade tão real, que não saberia dizer.

Ninguém como Scorsese tinha conseguido fazer das explosões da mente, da violência e da loucura urbana uma forma de arte. Scorsese é o primeiro. Os diretores de hoje em dia, como Tarantino ou Ritchie, não estariam fazendo o cinema que têm feito se não fosse por Scorsese, que abriu essa porta nos anos 70, e deixou passar todo maquinário de sangue, barulho e fúria de seu cinema. O garoto tímido, o garoto bem vestido e inteligente, obcecado com o cinema, lança-se agora à cultura do cinema mundial como aquele que realmente é: um titã da sétima arte.

Delicie-se nesta segunda-feira, 28 de novembro, continuando com o ciclo Ícones do Cinema, com Martin Scorsese e Depois de Horas. Descubra seu ícone do cinema, descubra Max.

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