Contracorrente, o fantasma da homossexualidade na vida rural

por max 26. março 2012 12:51

Contracorrente (2009), de Javier Fuentes-León, aparece na vida do cinema peruano depois de 11 anos da estreia de Não Conte a Ninguém (No se lo diga a nadie, 1998), de Francisco Lombardi, filme baseado no polêmico livro de Jaime Baily. Não se tem falado muito de homossexualidade no cinema peruano e, digamos, também não no latino-americano.

Ao contrário de Não Conte a Ninguém, o filme de Fuentes León não conhece o cenário da cidade, que é nomeada como uma referência longínqua, pois um de seus personagens, Santiago (Manolo Cardona), vem dela. Em Contracorrente, os fatos acontecem em Cabo Blanco, um povoado na costa norte do Peru, onde as mentes são mais fechadas para temas espinhosos (inclusive na cidade), neste caso, o amor entre homens.

Ali, em Cabo Blanco, chega Santiago, com sua condição homossexual, plenamente assumido, em busca de inspiração para sua arte, pois é pintor. Em sua chegada, conhece Miguel (Cristian Mercado), um jovem pescador, casado, com mulher grávida. Entre eles, começa uma relação sexual e amorosa, que termina com a morte de Santiago, perdido, afogado no mar. Neste momento, o filme do principiante Javier Fuentes-León tem uma reviravolta inesperada e ganha aspectos fantásticos, enraizados de certa maneira no realismo mágico latino-americano. No meio de um povoado afastado do Peru, o fantasma de Santiago faz uma aparição para pedir que Miguel busque seu corpo, que lhe dê o devido sepultamento mas, sobretudo, para instigar que ele se atreva, que se encha de coragem e aceite pessoal e publicamente sua condição homossexual. Miguel se envolve, então, em uma luta espiritual, que começa, como já destaquei, pela revelação dos seus segredos, de suas verdades. Miguel, antes de mais nada, deve aceitar sua essência, o que, naturalmente, já é bastante difícil, pois se já em Não Diga a Nnguém a aceitação da homossexualidade significava um enorme problema dentro do cenário das cidades, em Contracorrente, apesar de já ter se passado mais de uma década desde a estreia do filme de Lombardi, a situação relativa à sociedade e à homossexualidade, ainda que mais aberta, não deixa de ser crítica, especialmente porque falamos de um povoado de pescadores. Santiago, como consciência de Miguel, irá instigar o pescador, irá levá-lo até as portas da valentia, da honestidade com ele mesmo. O que torna interessante o filme de Fuentes-León é que ele trabalha este delicado tema não a partir do escândalo, não a partir do mero prazer dos homens no ato sexual, mas trabalha com delicadeza (para alguns críticos, com complacência) o tema dos sentimentos e da condição humana. O que Jaime Baily fez com o romance e Lombardi fez com o filme foi abrir uma porta, dar um duro golpe no escândalo, traduzindo em uma reflexão mais serena, humana, profunda e, por que não dizer, mais estética ao trabalho de Fuentes-León. Não podemos, claro, deixar de lado outras visões, outras opiniões, que destacarão certo titubear e falta de arrojo na proposta. Cada um que julgue por si só, cada qual que mergulhe no mar desta história. Podemos entender que o primeiro trabalho de Fuentes-León, sem cair no desprezível, contou, ao final, uma história de transgressão que, para muitos, pode ser incômoda. Tanto Miguel quanto Santiago são transgressores. Foram além dos tabus e viveram com toda a complexidade e plenitude da alma humana. O pescador não só se atreveu a viver no corpo de outro homem, mas também se atreveu a lançar-se à arte (às vezes, outra forma de pouca vergonha), à beleza e ao desfrute sem limites de seu corpo (posou nu para Santiago) e se colocou, além disso, acima do nível sócio-econômico de seu povoado (haja ousadia!) ao manter uma relação com o artista da cidade, filho acomodado de casta branca, criança burguesa que, por sua vez, também teve a ousadia de desafiar a rígida estrutura social de seu país.

Contracorrente levou o prêmio do público no festival de Sundance. Delicie-se nesta terça-feira, 27 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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