Filhos das Nuvens, A Última Colônia, ou as perguntas incômodas sobre os saarauis

por max 21. outubro 2013 11:40

 

Quem são os saarauis?

Se você for ao Wikipedia encontrará algo mais ou menos assim: São pessoas nativas do Saara Ocidental, cuja maioria habita a parte do Saara que está ocupada pelo Marrocos. Outros vivem exilados nos acampamentos de refugiados e nas areias de Tinduf. O restante está espalhado por todo o mundo, emigraram principalmente para a Espanha, França, Mauritânia e Mali. Seu idioma nativo é um dialeto chamado 'Hassaniya' derivado do árabe clássico, mas também falam espanhol. Falam espanhol porque, a partir do século XIX, se tornaram colônia espanhola. Aquela área rica em fosfatos, sobre tudo as minas de Bu Craa. Além disso, no Saara, mesmo que você não acredite, tem um dos maiores bancos pesqueiros do mundo. Em 1976, a Espanha abandonou o Saara Ocidental, que se proclamou República Árabe Saaraui Democrática. Mas nesse mesmo ano, o Marrocos começou a bombardear com fósforo branco os saarauis. Desde então, a república Saaraui é cada vez menos república independente e, hoje em dia, os saarauis são considerados minoria e tratados de forma discriminatória em sua própria terra. Por quem? Pelo Marrocos. Acontecem desaparecimentos, torturas, protestos, greves de fome. De tudo acontece ali. Mas nada acontece. Ninguém sabe de nada. Eu não sabia, e você? Pois eu não. E graças também ao que li na internet, em 2008 descobriu-se que o governo marroquino organizou redes clandestinas que pagavam cidadãos mauritanos para que imigrassem aos territórios ocupados do Saara Ocidental e se passassem por saarauis. O que aconteceu com essas pessoas? Quem é o culpado por tudo isso e se mantém em silêncio? Javier Bardem fez algo.

 

Quem é Javier Bardem?

Não é necessário responder, correto? No entanto, devemos dizer que o premiado ator, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pela interpretação do sombrio Anton Chigurh em Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men, 2007), dos irmãos Coen, desta vez, não atua... bom, atua um pouco... Sim, ele se faz de apresentador e produtor do documentário Filhos das Nuvens, A Última Colônia (Hijos de Las Nubes, La Última Colonia, 2012), dirigido por Álvaro Longoria, que produziu 7 Dias em Havana (7 Días em la Habana, 2012) e Um Quarto em Roma (Habitación en Roma, 2012), e que agora se atreve fazendo a direção das câmeras para nos mostrar a dura realidade dos saarauis, com Bardem, como já disse, diante da câmera, magoado, indignado e em certas ocasiões confuso (quando pessoas importantes se negam a lhe dar entrevistas) diante da terrível situação em que se encontra o povo em questão.

 

Então o que é o documentário?

Filhos das Nuvens, A Última Colônia é um documentário que busca dar visibilidade aos desprotegidos, àqueles que não têm poder para levantar sua voz e, ao mesmo tempo, é um exercício interessante sobre a ocultação do poder e da política sem ética, sem moral, somente baseada no egoísmo e nos interesses próprios. O lado obscuro de Marrocos, Espanha, Estados Unidos e outros países está sobre a mesa, e Bardem vai passando por cima deles, cheio de espanto, mas com a cabeça erguida de quem busca a verdade e levanta a bandeira da justiça de sua área, onde pode, onde é permitido.

 

Filhos das Nuvens, A Última Colônia, nesta terça, 22 de outubro, no Max. O que você vê quando vê o Max?

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Cinema na Catalúnia, ou os lugares levados para dentro

por max 9. dezembro 2011 07:49

 

Contar sobre um mundo, uma região, um lugar. Porque se nasceu ali, porque se vive ali, porque se sente que o que está ali pode ser de significado universal. Este mês, o Max traz dois filmes que transcorrem e, de alguma forma, falam sobre lugares, sobre a humanidade dos lugares. Porque os lugares têm sua forma particular de ser, temperamento, alma. Sua situação geográfica, seu clima, seu crescimento urbano, sua história o determinam; inclusive determinam o tipo de pessoas que nesse lugar nascem, vivem ou vão viver. Esses lugares, porém, podem ser tão complexos como o olhar que quer entendê-los, opostos, díspares, extremos. O que um vê não é o que o outro vê, a relação desta pessoa com aquele lugar não é idêntica à sua. É assim: um lugar é como uma pessoa. Desfrutamos, sofremos, amamos, odiamos o lugar. O lugar é o outro e é você também. Suas relações com o mundo te definem, te descrevem. Diga-me com quem andas e te direi quem és, diga-me o que comes e te direi quem és, diga-me o que vestes e te direi quem és, diga-me onde vives e te direi quem és.

Este mês, o Max escolheu uma pequena mostra de dois filmes que nos apresentam o cinema feito na Catalúnia. E vale ressaltar: trata-se do cinema na Catalúnia, e não da Catalúnia, porque um dos dois filmes foi dirigido por um mexicano de renome internacional, Alejandro González Iñárritu, e o outro, por Agustí Villaronga, que viveu quase toda sua vida em Barcelona, mas é de Mallorca. Porque é assim, os lugares existem nas almas portáteis. As pessoas levam esses lugares dentro delas e se apropriam desses lugares.

As duas datas e os dois filmes que o Max apresenta, este mês, dentro do especial Cinema na Catalúnia são:

 

 

 

Domingo, dia 11 de novembro, Biutiful (2010): Quarto longa-metragem do mexicano Alejandro González Iñárritu, desta vez sem o diretor Guillermo Arriaga, com quem González Iñárritu teve um conflito já superado, no qual Arriaga argumentava que era tão autor dos filmes como aquele diretor. Mas deixando pra lá esse "diz-que-diz", o certo é que González Iñárritu trabalha aqui com dois roteiristas diferentes e nos apresenta uma obra sem saltos lineares (como costuma fazer Arriaga em seus trabalhos de direção), mas não menos complexa em seus enfoques. O cineasta mexicano volta a trabalhar com um de seus temas prediletos: o mundo contemporâneo e a multipolaridade. Neste caso, estamos em Barcelona, um lugar de encontro de múltiplas raças e culturas. Mas não pelo turismo, não pela fascinação da cidade; o que González Iñárritu faz é centrar-se na vida que está do outro lado da tela, ali no bairro de Santa Coloma, onde, por exemplo, chineses, senegaleses e catalães fazem negócios ilegais e onde a miséria e a ambição unem a todos por igual. No meio disso tudo, aparece Uxbal, interpretado magistralmente por Javier Bardem, que é, sem dúvida, um dos atores mais completos da atualidade. Bardem sabe dar a Uxbal uma humanidade comovente. Não me resta dúvida que nas mãos de outro ator menos dotado, este personagem poderia ficar um fiasco de excepcionais inverossimilhanças: Uxbal tem câncer, lhe deram poucos meses de vida, é amargurado, é cruel e delinquente; mas, ao mesmo tempo, tem dignidade, valor, beleza e, além disso, possui poderes sobrenaturais, porque pode falar com os mortos. Há, sem dúvida, algo de mexicano em Uxbal. Seu nome nos remete, sem quebrar muito a cabeça, ao antigo mundo maia, assim como essa capacidade para falar com os mortos, que também se relaciona ao famoso realismo fantástico latino-americano. Não sei se a direção estava focada originalmente para um ator mexicano. Talvez a história poderia ocorrer em qualquer lugar dos Estados Unidos com forte presença de imigrantes mexicanos. Mas acredito que isto não importa muito: acho que a intenção de González Iñárritu foi precisamente mostrar uma vez mais como o mundo inteiro é uma gigantesca e atroz Babel. A alma de Uxbal é inteiramente uma Babel. Paradoxalmente, o que se apresenta como multipolar acaba sendo absolutamente local. É o mesmo que dizer que os homens são iguais em todas as partes, porque nossa contemporaneidade é uma grande plateia onde todos estão conectados. Os sentimentos universais são sentimentos locais, sentimentos de todos. O drama e a tragédia são iguais para todos. A morte sempre estará ali (o câncer de Uxbal), a morte que nos coloca a todos aos seus pés. Mas a morte também nos tira aquilo que irmana a todos, lá no fundo: a necessidade do bem, a necessidade de transcender, deixando algo de valor.

Biutiful, de Alejandro González Iñárritu, no domingo, 11 de dezembro.

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Segunda-feira, dia 12 de novembro, Pão Preto (2010): Agustí Villaronga constrói uma história baseada em um romance e alguns relatos do escritor Emilli Texidor. Villaronga (Prisão de Cristal, El Niño de la Luna, El Crimen del Cine Oriente, O Mar, Aro Tolbukhin: en la Mente del Asesino) não é um diretor de histórias fáceis, ele sempre exerceu a função de franco-atirador do sistema e se move entre gêneros, usando como uma constante as obscuridades da alma humana. Com Pão Preto, ficamos diante de outro de seus filmes de perfil obscuro, que nos remete à história de crescimento juvenil. A trama do filme gira em torno da iniciação da vida, da perda da inocência, mas a partir de uma perspectiva completamente diferente, o que faz também particular a visão super-explorada no cinema espanhol sobre o tema e o cenário do pós-guerra. Villaronga se aproxima de tudo isto com a visão, com sua visão, onde a mentira e a corrupção dos ideais se convertem no pivô fundamental que determinará a personalidade do jovem Andreu. O contraste de seu mundo mágico e infantil choca-se com uma dura realidade que fica, às vezes, não menos inacreditável que o próprio mundo de Andreu, mas no sentido negativo. O mundo adulto do pós-guerra lembra-me um quadro de Bosco, a face horrorosa de um mundo mágico que, como já assinalei, não é mágico, mas sim horrivelmente verdadeiro. Neste sentido, Pão Negro está na linha de O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro, mas sem o desdobramento dos efeitos especiais. Em Pão Negro não existe um mundo paralelo nem maravilhoso, mas sim uma realidade cheia de mentiras, mortes e dor que vai esmagando a bolha espiritual da inocência. Crescer em meio aos estragos da guerra pode ser terrível.

Pão negro, nesta segunda-feira, 12 de dezembro, no Max.

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