Top of the Lake, nova série no Max

por max 10. setembro 2013 13:42

 

Uma pequena cidade, tranquila, perfeita, uma cidade daquelas para ficar entediado. Essa cidade se chama Twin Peaks e fica a nordeste do estado americano de Washington. David Lynch há tempos desperta esses demônios. Ele fez isso com Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) e depois levou o estilo para a televisão, com a famosa série onde Laura Palmer era o objeto das investigações do detetive particular Dale Cooper. O cineasta introduziu na televisão dois elementos fundamentais de sua cinematografia: a podridão que se esconde atrás do que é aparentemente sereno e o grandioso, o sublime, a paisagem fantástica. Ao contrário das visões New Age de hoje em dia, e daquelas que falam da Mãe Natureza e todo esse monte de coisas cheias de luz, Lynch nos aproxima de uma ideia mais obscura da terra e da paisagem. Digamos que ele nos confronta com a natureza que nos aproxima do dionisíaco, de uma imagem da terra profunda, misteriosa. A natureza como o lugar onde se movem forças desconhecidas que o ser humano nunca compreenderá. Essa obscuridade da terra se equipara à obscuridade desta alma, essa outra floresta desconhecida.

Seguindo com essa herança, surge a série de sete episódios Top Of The Lake (2013) da diretora neozelandesa Jane Campion (O Piano – The Piano; O Brilho de Uma Paixão – Bright Star). Assim como em Twin Peaks, a série começa com uma ruptura no meio de uma paisagem. Enquanto Laura Palmer aparece flutuando em um rio, em Top Of The Lake uma garota de 12 anos chamada Tui (Jacqueline Joe) aparece caminhando perdida pelos arredores de um lago que fica ao redor de uma cidade chamada Paradise. Como se vê, a água, em ambas as séries, é o ponto de partida. A água, o grande olho da natureza, a grande testemunha da atrocidade. O nome do lugar, Paradise (paraíso), também nos faz pensar nesse paraíso natural que era a cidade de Twin Peaks, lugares que aparentemente têm sidos tocados pelo mal. Mas já sabemos o que aconteceu com Adão e Eva, já sabemos da serpente. Mas voltemos à série: Tui tentou se afogar neste lago ao sul da Nova Zelândia; Tui foi estuprada. Assim começa o mistério e então aparece a figura da lei: no caso da série de Jane Campion, é a detetive relativamente inexperiente e novata, Robin Griffin (Elisabeth Moss, de Mad Men). Também há outra personagem que não parece ter grandes funções na trama, mas nem por isso é menor: falamos de GJ, interpretada por Holly Hunter, a atriz com a qual Campion conheceu as alturas da fama em O Piano (The Piano). GJ é uma mulher enigmática que sai por aí dizendo que está morta, fumando sem parar e acompanhada de um grupo de mulheres que afirma estar lá para encontrar a reabilitação após serem abusadas ou abandonadas. GJ e suas mulheres não são fáceis e logo entram em choque com o traficante da região, o terrível Matt Mitcham (Peter Mullan). Claro, não será fácil. A detetive, entretanto, não tem muito futuro. Em uma reviravolta, ela descobre que Tui é filha de Mitcham, o traficante. A droga e seu poder estão em toda parte. A droga como um elemento profano, corruptor. A droga, cabe dizer, em algum momento da cultura foi um elemento sagrado para entrar em contato com os deuses, com os deuses que estavam na floresta, na selva, na natureza. Ainda hoje é assim para algumas tribos do interior da Amazônia. Mas, neste caso, a droga é o contrário, uma perversão. Mitcham é um cara perigoso, um homem que chegou há tempos no paraíso e se dedica a destruí-lo. Não se deixe enganar. A paisagem é serena, mas também fria... como certas versões do inferno. A detetive não só vai encontrar um importante detalhe, como também acontecerá um novo fato: Tui vai fugir das mulheres furiosas e, durante uma manhã, desaparecerá sem deixar vestígios. Em seguida, finalmente, tudo se tornará mais complicado. Ou melhor, tudo irá para o inferno.

Quer saber mais, quer mergulhar na história desta série? Então não perca quarta-feira, 11 de Setembro, a estreia exclusiva de Top Of The Lake. Manias, sem contra-indicações. As melhores séries de todas as partes do mundo estão no Max.

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Beleza Adormecida, ou a sorte de Julia Leigh

por max 15. março 2013 13:17

 

Julia Leigh, diretora de Beleza Adormecida (Sleeping Beauty – 2011), é uma mulher de sorte. Tem 42 anos, é australiana (o que pode não ter a ver com sorte, mas é preciso dizer), uma reconhecida romancista e também diretora de cinema. É jovem, mas antes de ser a jovem que é hoje, antes, quando era ainda mais jovem, ganhou o Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative, uma espécie de bolsa de estudos das letras que é realizada sob a orientação de um escritor renomado; e no caso de Julia, ela teve a assessoria do romancista ganhador do prêmio Nobel, Toni Morrison. Seu primeiro romance, O Caçador (The Hunter), foi traduzido para nove idiomas, e também transformado em filme por Daniel Nettheim (com Willem Dafoe e Sam Neill nos papéis principais).

Julia Leigh contou que a partir do sucesso de O Caçador, começou a sonhar com alguém, uma espécie de demônio, observando-a enquanto dormia. O sonho lembra o filme A Estrada Perdida (Lost Highway) de David Lynch. Em A Estrada Perdida, os personagens protagonistas (Patricia Arquette e Bill Pullman) recebem um vídeo onde descobrem que são gravados enquanto dormem. E também podemos lembrar Caché (2005) de Michael Haneke, onde Juliette Binoche e Daniel Auteuil também recebem um vídeo onde descobrem que a parte de fora de sua casa é constantemente gravada. Ser vigiado, observado dessa maneira nos lembra nossa impotência. Somos vulneráveis diante de olhares espiões. Esses olhares têm poder sobre nós. É um poder, é o poder.

Julia Leigh ficou com a ideia desse sonho-demônio em sua cabeça e, um tempo depois, fez seu primeiro filme: Beleza Adormecida (Sleeping Beauty), título que, sem dúvida, nos remete aos contos de fadas, como A Bela Adormecida, mas também a assuntos muito mais perversos (um conto de fadas já é perverso).

Leigh confessou em uma nota sobre o filme que já conhecia Memória de Minhas Putas Tristes (Memoria de Mis Putas Tristes – 2004), romance de Gabriel García Márquez em que um jornalista decide celebrar seu aniversário de noventa anos dormindo com uma prostituta menor de idade. No romance, a jovem Delgadina dorme para que o idoso possa contemplá-la, só isso. Sem dúvida, existe uma influência direta e confessa.

Pelos lados da prostituição, vemos outras referências. Leigh fala da história de Salomão, que mandava trazer jovens prostitutas para sua cama. No cinema (disso Leigh não falou), contamos com A Bela da Tarde, de Buñuel. Do mesmo modo podemos ir a mundos mais sórdidos, onde a prostituição e a luxúria dos poderosos se misturam. Temos Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream – 2000) de Darren Aronofsky e De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut), último filme do grande Stanley Kubrick.

Julia Leigh apresenta uma combinação de todos estes elementos em Beleza Adormecida, a história de uma linda garota com um lado obscuro que nunca fica claro, porque não importa. Esta linda garota é Emily Browning (Desventuras em Série - Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events), que desde seus primeiros filmes se revelou como um rosto exótico, que no futuro poderia aprofundar essa perfeição em filmes de tom mais sensual. Sua participação em Beleza Adormecida é perfeita. Em seu rosto, em seu olhar, em sua delicadeza selvagem tem algo de obscuro, da noite que cai, da tentação de uma serpente interior. Por isso, não é estranho quando sua personagem Lucy aceita um trabalho particular: em troca de um bom dinheiro, ela se deitará para dormir e enquanto dorme, idosos burgueses, cheios de dinheiro, se deitam com ela e fazem o que quiserem com o seu corpo... tudo, menos penetração. Sua virilha é um templo proibido. O olhar espião está ali presente, aquele olhar que, como já disse, é poderoso.

Mas tem mais. Uma vertente dos significados do poder está relacionada com a velhice. Os idosos acumulam, ao longo do tempo, influências, dinheiro, conhecimento. O diabo sabe mais que o velho diabo. E o idoso com dinheiro é, com certeza, uma metáfora da corrupção da alma humana. Mas a esse idoso que tem tudo, algo lhe foi negado: a juventude, o corpo da juventude. Suas ânsias, nostalgias, seu desejo por aquilo que não poderá ser nunca mais, se traduz em mãos que buscam tocar a suavidade perdida. O corpo tocado se transforma em espelho do desejo. A imagem refletida.

Beleza Adormecida, domingo, 17 de março. Juventude, desejo, velhice, poder. O que você vê quando vê o Max?

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Brilho de uma Paixão, ou o Romantismo segundo Jane Campion

por max 22. novembro 2011 12:46

 

O Romantismo bem entendido foi uma das primeiras crises da modernidade, uma de suas primeiras críticas. O Romantismo ia contra os princípios radicais de seu tempo, pois via a razão (filha do Iluminismo) como um meio para conhecer o mundo e o homem. O Romantismo eleva o poder dos sentimentos, foge do presente, cava o exotismo oriental, nas obscuridades do passado e do espírito, busca, na natureza e nos arroubos da natureza, a identificação da alma humana. O Romantismo é incendiário, um fósforo que arde com tanta força que o sentimento consome a alma.

Podemos dizer que Brilho de uma Paixão (Bright Star, 2009), da diretora Jane Campion, é uma história de amor romântico, onde romântico não é um pleonasmo, mas sim a expressão de um amor levado pelo pensamento do Romantismo literário que é, por sua vez, uma paixão existencial. Para contar esse amor, Campion elege um poeta romântico por excelência: John Keats (Ben Whishaw), um dos maiores representantes do movimento no Reino Unido, um jovem artista incompreendido à sua época, que morreu jovem e teve seu talento somente reconhecido depois de sua morte. A vida de Keats foi marcada pela doença, pelo sacrifício e pela melancolia. A tuberculose de seus familiares e a sua própria deixaram-no cheio de privações. Durante muito tempo, ele se viu obrigado a cuidar de seu irmão. Muito se criticou o que ele escrevia, e somente três anos antes de sua morte conheceu aquele que seria o grande amor de sua vida, Fanny Bawne (Abbie Cornish), um amor que durou pouco, intenso, alimentado por impossibilidades, tristezas, doença, morte e poesia. Jane Campion recria este amor, estes momentos, com uma fotografia delicada, com uma história contemplativa, campestre e silenciosa. Todos os fortes da diretora de O Piano estão aqui: sua força para criar imagens melancólicas e charmosas, o amor e seus tormentos, o drama histórico, a força da mulher.

Brilho de uma Paixão, de Jane Campion, este mês, no Max.

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