A Fada, ou quando éramos tolos e felizes

por max 19. dezembro 2013 03:02

 

Há uma diferencia entre o tolo mau e o tolo inocente. Como tolo mau, que tem uma estranha mistura com o próprio mal, temos Pável Fiódorovich Smerdiakov, em Os Irmãos Karamazov. Pável estava cheio de complexos, era desprezível, rancoroso e sempre andava pelas esquinas, fazendo-se de desentendido, concebendo obscuridades secretas. E também temos Lennie, em Ratos e Homens. Lennie, acidentalmente, acabou matando uma menina. Mas Lennie era muito forte e muito burro, e o assassinato foi acidental. Os personagens dos romances de Jim Thompson também têm algo rompido em sua cabeça. São uns garotões tranquilos, que passam despercebidos e, de repente, explodem. Carregam uma bomba relógio por dentro. De certa forma também são tolos, ou se passam por. Se lembrarmos de Os Idiotas (The Idioterne, 1998) de Lars von Trier, temos uma clara concepção cultural destas pessoas. O tolo, o idiota, primordial, adâmico, é totalmente inocente, como uma criança crescida; tudo é perdoado. Assim, um grupo de brincalhões, ou de anarquistas, ou de guerrilheiros sociais se fazem passar por idiotas para tirar proveito do tipo de imunidade que eles têm. Há uma cena maravilhosa em que um do grupo, em seu papel de idiota, está sentado em um restaurante, no meio de uma terrível gangue motorizada. Os motorizados se comportam como damas com o idiota. Inclusive, o acompanham até o banheiro, e quando ele diz que não pode segurar seu membro, um dos motorizados o ajuda a fazer suas necessidades.

O tolo é inocente, é belo, delicado, tem certa graça embutida. Desse tolo, o tolo bom, alguns personagens parecem vir de cabaré, café-concerto e vaudeville. No final do século XIX era grande o interesse pelos estudos da loucura. Nos jornais se comentava bastante sobre os estudos do Doutor Jean-Martin Charcot, pessoas, totalmente leigas, frequentavam seus cursos, suas conversas. Os artistas da época começaram a se interessar por temas como a histeria. Viram nas gestualidades, nos movimentos dos pacientes mentais um atrativo particular. Sabe-se que alguns pacientes foram às ruas e se dedicaram a fazer apresentações de rua para ganhar a vida. Neste ir e vir, claro, o idiota, o tolo, entrou no olhar dos artistas. A perda do gesto cultural do tolo passaria a fazer parte da expressão de muitos desses interpretes de cabaré.

Lembramos que o humor utiliza como arma de ataque, de pensamento crítico e social, tudo aquilo que a própria sociedade marginaliza, deixa de lado por não ser correto, por estar fora dos cânones. Claro, também se pode tomar essa gestualidade do tolo para gerar ternura, para gerar uma risada leve e agradável.

Este é o caso, possivelmente, de A Fada (The Fairy, 2011), comédia franco-belga dirigida por Dominique Abel, Fiona Gordon e Bruno Romy, trio de comediantes que vem desenvolvendo um cinema (Rumba, 2008, e O Iceberg, 2005) que tem muito a ver com esse retorno da comédia gestual herdada do cabaré, do vaudeville e, claro, de artistas como Chaplin, Buster Keaton ou Jacques Tati. E claro, nos lembramos de O Artista (The Artist), mas O Artista é também de 2011 e, como vemos, Abel, Gordon e Romy trabalham desde 2005 nessa espécie de cinema do novo vaudeville que mistura o som com o cinema mudo.

Em A Fada, temos dois personagens muito próximos do tolo inocente: um recepcionista de um hotel e uma garota misteriosa que chega ao hotel. Abel é Dom, o garoto, e Fiona Gordon é Fiona, a fada. Ele não tem muito o que fazer nem muito que perder na vida, não tem grandes esperanças. Ela, como é rara, uma fada segundo dizem, e como fada proporciona a Dom três pedidos que ela concederá. Tudo é muito estranho. Eles são muito estranhos, são inocentes, são agradáveis, são comoventes, estão à beira do absurdo. Mas não, como já disse, não estão à beira da tolice perversa, ou da tolice agressiva. Não, eles são bons e ternos, e não têm graça porque são como crianças. Dom pede dois desejos, simples e básicos, uma scooter e o serviço de gás para a vida toda; nada mais. Dom não se deixa levar pelo poder, pelas baixas paixões. De fato, nem sequer tem ideia de que outro desejo pedir. Isso dará origem para que ele e Fiona comecem a andar juntos pelo mundo, e que entre eles comece a se estreitar uma relação. Mas nem tudo é idílico, claro, Fiona está em perigo. É procurada, perseguida, como se fosse uma louca, como se devesse voltar ao manicômio, ao psiquiatra, ao lugar que inspiraram esses comediantes de vaudeville.

O filme segue entre pulos, perseguições, silêncios, quedas, gestações mágicas, momentos absurdos, infinidade de graças que nos encantam, porque eles, os personagens, são uns tolos encantadores, crianças inocentes, santos inocentes, e deles não esperamos nada, apenas ternura e inocência que nos lembram do grande tolo inocente que carregamos dentro de nós. Já comentei em algum outro momento: Adão e Eva, que nasceram adultos e que eram inocentes mesmo sendo adultos, são os paradigmas destes tolos. É assim: nossos pais fundadores foram um casal de tolos que não respeitaram o pai maior, fizeram suas travessuras e, por isso, foram castigados, expulsos do paraíso. E, a partir desse dia, viraram adultos, começaram a esconder seus erros, a se preocupar com a alegria dos outros. Agora, cada vez que erramos, cada vez que vemos uma dessas pessoas com certos problemas de aprendizagem, lembramos que, em alguma parte de nós mesmos, em algum momento éramos assim, ríamos do vislumbre súbito da glória antes da queda, da travessura, a glória que foi inocente, felizmente tola.

A Fada, sábado, 21 de dezembro.

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O Mágico, A magia nostálgica de Chomet e Tati

por max 20. abril 2012 10:41

 

Jacques Tati disse certa vez: "Temos o conforto, mas o preço foi altíssimo: acabou-se a fantasia. Somente as crianças conservam a imaginação." Talvez esta frase seja o resumo perfeito da maneira de olhar o mundo de Tati. Olhar esse que, claro, está seus filmes. São filmes cômicos, humanos e que transitam entre dois mundos: Tati é herdeiro do cinema mundo, da gag, da comédia pastelão (foi atleta quando jovem). Ele fez cinema mudo nos tempos do cinema sonoro (Mr. Bean é um de seus herdeiros). Aqueles que adoraram O Artista (The Artist, 2011), deveriam ver os filmes deste magnífico comediante e diretor, com poucos diálogos e com o som e a música predominando na narrativa.

Jacques Tati foi o defensor de um mundo que ele sentia desaparecer, de um mundo pisoteado pela modernidade, pelas máquinas, pela automatização. Um nostálgico em defesa do melhor da vida que ia ficando para trás: o simples, o humano, a harmonia com as coisas.

Claro que Jacques Tati não era perfeito. Entregou-se ao trabalho com absoluta dedicação e descuidou das obrigações paternais, por exemplo. Sabe-se que teve uma filha ilegítima, Helga, fruto de uma relação com a bailarina Herta Schiel que conheceu aos 33 anos, trabalhando no Lido, em Paris, nos anos 40. Filho de família rica cheia de preconceitos – o pai era um nobre russo de sobrenome Tatischeff -, o jovem ator se viu obrigado a não reconhecer a filha e também a abandonar a mãe. Consta que ele nunca conheceu essa filha.

Pouco tempo depois, se casou com Micheline Winter e em 1946 nasceu Sophie-Catherine Tatischeff, a quem, também abandonou. Anos mais tarde, em 1956, Tati escreveu o roteiro de um filme – não se sabe se inspirado em Helga ou Sophie -, que nunca chegou a ser realizado, onde, de alguma maneira, tenta remediar o erro do abandono. É a história de um mágico que conhece uma menina abandonada e começa a dividir, com ela, seus dias, fracassos e pequenas alegrias. Este roteiro ficou décadas à espera de um diretor, até que que entraram em cena Sophie Tatischeff, Jerome Deschamps, Macha Makeieff e Sylvain Chomet. Famoso ator e diretor teatral, Jerome Deschamps é sobrinho de Jacques Tati. Herdeiro cultural do comediante, junto com a esposa Macha, ele assumiu a tarefa de recuperar seus filmes e organizar exposições e palestras para manter vivo o nome de Tati.

Chomet é animador e diretor francês que, em 2003, recebeu duas indicações ao Oscar por As Bicicletas de Belleville, animação passada na França dos anos 30 que tem muito a ver com o humor de Tati, homenageado em vários momentos. Quando realizava As Bicicletas de Belleville, Chomet conheceu Sophie Tatischeff, filha de Tati. Ela lhe deu permissão para usar cenas dos filmes do pai, contou sobre o roteiro inédito e o colocou em contato com o casal de diretores teatrais. Esse encontro não poderia ser mais feliz e dali saiu O Mágico (L'Illusionniste, 2010).

Chomet queria o filme pronto em 2007, mas só conseguiu estreá-lo três anos depois. Animação com orçamento de 17 milhões de dólares é o filme mais caro da Escócia. São mais de 300 mil desenhos, desenvolvidos por uma equipe de cerca de 300 pessoas em dois estúdios na Escócia, um na França e outro na Coreia. É importante falar aqui da Escócia, pois o filme se desenvolve em Edimburgo - e não em Praga, como planejou o autor. A cidade é retratada com tanta ternura que vira praticamente um personagem da história

O Mágico mostra essa preocupação paternal de Tati na história do encontro do mágico com a menina, mas também a ideia que ele tinha do mundo (Chomet respeitou 80% do roteiro original). O mágico acaba sendo uma espécie em extinção, perdido num mundo de novas formas de entretenimento, num mundo que perdeu o romantismo, um mundo automatizado, onde "a fantasia acabou". Tal como expressa o mesmo Tati na frase do começo desse texto, só a alma infantil conserva a imaginação, apenas a menina acredita nos mágicos, no poder deles. É um filme triste, saudosista, mas ao mesmo tempo belíssimo, que presta homenagem ao grande Jacques Tati e mergulha na recordação e no carinho dos tempos mais inocentes e mais simples, tempos que estavam morrendo àquela época e que, nos dias de hoje, desapareceram totalmente. Tempos que só vivem na magia das histórias, dos filmes.

O Mágico, Domingo, 22 de abril. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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