Ferrugem e Osso, ou as forças e as perdas

por max 8. fevereiro 2014 15:55

 

Alain é arrogante, um bruto, um titã, um lutador. Mas lutador de quê? Alain é como um menino, e apesar de sua situação econômica não ser a melhor, e de repente ter que cuidar de seu filho, embora ele tenha visto em Stéphanie o que é realmente sofrer uma tragédia e ainda assim seguir adiante, em Alain sobrevive certa teimosia que se nega a morrer e que o impede de amadurecer. O que o fará crescer? O que necessita perder? Ferrugem e Osso (De rouille et d'os, 2012) é um filme sobre perdas e crescimentos, dirigido por Jacques Audiard, diretor que deixou o público dos festivais e salas de arte encantado com O Profeta (Un Prophète, 2009), filme sobre um jovem garoto que logo no início sofre a perda de não pertencer a lugar nenhum e é preso, e a partir desse vazio, se mostra com uma mente criminosa mais fria que a de um mafioso.

O Profeta é um filme sobre o dilema da vontade e da liberdade no contexto escravizador da prisão; um filme de crescimento dentro de uma das mais difíceis situações. Em Ferrugem e Osso nos deparamos com uma situação similar. Audiard tem um talento especial para cercar-se de atores jovens e poderosos, e se em O Profeta transformou Tahar Rahim, em Ferrugem e Osso, coloca no elenco principal Matthias Schoenaerts, um jovem artista muito confiável que já havia deixado muito claro que pode ir além em Bullhead (Rundskop, 2011) de Michaël R. Roskam. Em Ferrugem e Osso, Schoenaerts volta a demonstrar essa sua capacidade para interpretar um tipo bruto, físico, prepotente, mas cheio de obscuridade e com certa sensibilidade enigmática a ponto de quebrar. Seu personagem, Alain, não tem trabalho, mas também, de dia e de noite cuida de seu filho de cinco anos, e começa a treinar uns golpes. Alain gosta de dar golpes, ele gosta de lutas de rua, como o kick boxing. É do tipo difícil, orgulhoso, que acredita que o mundo pode ir contra ele, e que, em alguns aspectos, pensa melhor que os outros. Certo dia, trabalhando como segurança em uma boate, ele conhece e resgata de uma situação perigosa Stéphanie, interpretada por Marion Cotillard, talvez, na melhor atuação de sua carreira até o momento (embora esteja muito decadente na interpretação do terceiro filme da trilogia de Batman de Nolan). Stéphanie é uma treinadora de baleias que trabalha em um parque de atrações local. Em alguns momentos, a câmera fica com ela, com sua vida, e somos testemunhas de um grave acidente. O ocorrido na boate foi apenas uma premonição: agora, em pleno espetáculo, ocorrerá o que realmente estava marcado em seu destino. Ela acordará em uma cama de hospital e descobrirá que suas pernas foram amputadas. Talvez se lembrando da pessoa que a protegeu, talvez se vendo como alguém que precisa ser resgatada novamente, Stéphanie se atreve a entrar em contato com Alain. Começam a sair e entre eles surge uma relação, digamos, livre. Eles vão para cama, mas ele sai com outras mulheres e ela sabe. Ela, por outro lado, o acompanha nos treinos de Kick boxing. Algo começa a prender uma ao outro, talvez nela se perceba mais esse crescimento, essa nova forma de olhar o mundo. Alain, ao que parece, continua sendo Alain. Cheio de força, mas essa força talvez seja mal aproveitada. Receberá a lição necessária em algum momento? Sofrerá uma perda como a que Stéphanie sofreu? Através dessa perda terá uma lição definitiva? Isso está por vir. Mas como sabemos, ninguém aprende livre de algo, e só na perda está o crescimento. A tragédia sempre aguarda ao virar a esquina.

Ferrugem e Osso, domingo 9 de fevereiro, no Max.

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A Rainha do Castelo de Ar, ou as leis do poder aplicadas por Lisbeth Salander

por max 3. fevereiro 2012 03:07

 

Vendo o último episódio da trilogia Millenium, pensei em O Profeta, de Jacques Audiard. Pensei em Malik El Djebena, pensei em Lisbeth Salander e pensei que eles têm semelhanças. Malik e Lisbeth são duas pessoas periféricas da sociedade, apartados, reclusos. Malik foi para a prisão, Lisbeth a uma instituição psiquiátrica. Nenhum dos dois é louco perigoso ou psicopata assassino. Estão mais para pessoas indefesas que acabam esmagadas uma vez ou outra, pessoas que são anuladas, que são mantidas no vazio absoluto: não são nada, são brinquedos velhos, são coisas. O que os agressores não sabem é que a coisa que eles pretendem anular, na verdade, volta-se contra eles, defendendo-se agressivamente, quando sua vida é ameaçada. A coisa, desgastada, mínima, deixada de lado, acumula obscuridade e cresce e devolve o mesmo que foi ensinado a ela. Malik e Lisbeth transformam-se em figuras cerebrais e silenciosas, que mantêm seu aspecto frágil, inocente. Eles descobriram o mundo dos que gritam, sobreviver é uma questão de silêncios. De fato, além do tema do gênero, de violência contra a mulher e todo aquele assunto absolutamente importante e sério, o que me impressiona nestes filmes é a capacidade de ambos os personagens para, com o uso supremo da inteligência e das mesmas armas do poder, conseguir o que pretendem, que é exatamente derrotar aqueles que detêm o domínio do mundo. De As 48 Leis do Poder, de Robert Greene, extraio três elementos utilizados magistralmente por Lisbeth Salander, personagem ao qual me limitarei neste texto.

A lei número 4 do livro de Greene nos diz: "Diga sempre menos do que o necessário". Em A Rainha do Castelo de Ar (The Girl Who Kicked the Hornet´s Nest / Luftslottet Som Sprängdes, 2009), Lisbeth Salander fala o estritamente necessário e, às vezes, menos. Quando o fiscal pergunta, não responde, de fato, quase como se tratasse de um processo kafkiano, e lhe acusa de silêncio. Mas Lisbeth Salander somente espera para responder no momento adequado, obedecendo assim à lei do poder que, ao seu tempo, como já disse, é uma lei de sobrevivência. Disse Greene no critério da lei 4, que é uma espécie de resumo: "Leve em conta que, quanto mais você diz, mais vulnerável estará e menor controle da situação terá." Salander, uma vez mais, parece saber isto e, por causa disso, guarda um silêncio prudente, que somente dura até o momento que as suas palavras realmente são necessárias. Claro, Lisbeth Salander esconde suas intenções e, enquanto todos trabalham contra, ela trabalha em silêncio. Oculte suas intenções, que é a terceira lei de Greene. Mas, além disso, espione seus inimigos, e faça isso através da tecnologia, de seus amigos hackers. Tal como Sun Tzu explica, Maquiavel e o próprio Greene, na lei 14: "Mostre-se como um amigo, mas atue como um espião." Lisbeth Salander, em contrapartida, não age precisamente de forma amável, mas espiona, sim, a seus inimigos, a fundo. Greene diz: "É de fundamental importância saber tudo sobre seu rival. Utilize espiões para reunir informações valiosas que lhe permitam manter sempre uma vantagem sobre ele. "Nossa heroína, claro, faz isso. Graças aos seus conhecimentos da internet, chega às mais profundas sujeiras, baixarias dos seus inimigos, daqueles que pretendem voltar e trancá-la, para sempre, em uma clínica psiquiátrica. Mas Lisbeth Salander, além disso, faz algo maravilhoso: utiliza de forma perfeita o papel que lhe foi designado: a da louca, da boba. A lei número 21 de Greene é específica: "Finja inocência para armar contra os ingênuos: mostre-se mais bobo que sua vítima." E sigo citando Greene para que fique ainda mais claro: "O truque consiste em fazer as vítimas se sentirem sagazes e inteligentes e, sobretudo, mais sagazes e inteligentes que você mesmo. Uma vez que as tenha convencido disto, nunca suspeitarão que você tem motivações ocultas contra elas (as vítimas)." Isso é o que faz Lisbeth Salander, ela se mantém no quadro que pintaram para ela, se mantém como esse ser estranho que parece não pensar muito, não entender o mundo, não ser profundo. Esta maneira de ser de Lisbeth Salander conhecemos desde os primeiros filmes mas, neste último, ganha maior importância, pois nesta parte final estão em jogo a liberdade e sua própria vida.

Para resumir, A Rainha do Castelo de Ar é, sob essa visão, uma demonstração de estratégias e táticas das lutas de poder. Lisbeth Salander esmagou, anulou, estragou para sempre o Estado e seus negócios sujos, o Estado e seus interesses, seu poder. Ela, por sua vez, entende que, para sobreviver, deve usar armas parecidas, não as mesmas, não tão baixas, mas similares, retiradas da mesma entranha, do monstro, onde se move a obscuridade do poder.

A Rainha do Castelo de Ar, última produção da série Millenium de Steig Larsson, neste domingo, 5 de fevereiro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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O Profeta, os sacrifícios da “liberdade”

por max 2. fevereiro 2012 03:01

 

A partir desta quinta-feira, em todas as quintas deste mês e por causa da chegada da entrega do Oscar, o Max apresenta o ciclo Oscar sem Fronteiras, uma seleção de cinco magníficas produções que foram indicadas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Da França, O Profeta (Un Prophète), de Jacques Audiard, e A Noite Americana (La Nuit Américane), dirigido por François Truffaut; de Israel, Valsa com Bashir (Waltz with Bashir); da Espanha, Pão Preto (Pan Negro) e, para encerrar, Amarcord (Amarcord), dirigido pelo grande Federico Fellini, serão os filmes internacionais que representaram seus países em diferentes edições da cerimônia do Oscar.

Começamos nesta quinta-feira, 2 de fevereiro, com O Profeta (A Prophet, 2009), do experiente cineasta francês Jacques Audiard. Um filme de sobrevivência, ou supervivência, como queiram, que, no final das contas, acaba falando sobre liberdade humana. O interessante é que o filme acontece em uma prisão, onde o espírito humano se rebaixa às categorias do escravismo mais baixas e perde qualquer indício de emancipação, de libertação. Sobrevive à prisão aquele que fica de joelhos ou aquele que se lança para cima dos outros.

Malik, surpreendentemente bem interpretado por Tahar Rahim, é um jovem sem passado, medroso e frágil. De origem árabe, Malik convive com a comunidade carcerária de corsos. Árabes e corsos são os dois grandes epicentros do poder daquele reduto e, no início, Malik está lá, trabalhando para os corsos, hostilizado pelos muçulmanos. O filme foi idealizado para mostrar as distintas formas de humilhação e servilismo dentro de uma prisão, o que acaba sendo a verdadeira perda da liberdade humana. Mas, sobretudo, Audiard nos leva às profundezas da história para assistir ao nascimento do homem mais cerebral e sem piedade: aquele que passará por cima de todos e terá o controle absoluto do crime organizado. Ele não é propriamente um psicopata, mas alguém que precisa ter "êxito" em sobreviver. Malik é um novo tipo de criminoso, um profeta dos novos tempos. Sim, nos lembra Michael Corleone em O Poderoso Chefão, mas o caso de Malik é diferente: o jovem aprendiz está na prisão, em uma terrível prisão, e sua alma, de alguma forma, é produto do mundo globalizado, das migrações e da desapropriação de raça e cultura, que lhe são arrancados. Malik não é daqui nem de lá, é um pária que, com o objetivo de cuidar de sua vida, se colocará em um lugar onde nada irá atingi-lo. Cria-se uma empatia com Malik, porque entendemos que o que ele busca é sua liberdade dentro de suas limitações. Se ficou vazio quando chegou, se estava destinado a não ser nada fora da prisão, atrás das grades Malik se revela contra a condição mais baixa a que um homem pode chegar, a de escravo. Sua ascensão às altas esferas do crime é, paradoxalmente, uma ascensão ao despertar da consciência, à sua liberdade.

Assistimos a um filme montado sobre um roteiro simples, sem altos nem baixos, fechado e complexo, trabalhado pelo mesmo realizador durante três anos junto com Thomas Bidegain (baseados em um texto original de Abdel Raoufi Dafri e Nicolas Peufaillit). Thriller intenso, carregado de realismo (tanto que a prisão inteira foi construída exclusivamente para o filme), um realismo tão extremo que não deixa dúvidas ao jogar com cenas oníricas e fantásticas, o que nos leva à poesia, mistério e profundidade de espírito. Incômodo, sem dúvida, pois não faz concessões, não permite e não advoga salvações, nem finais complacentes; Jacques Audiard não se limitou, não coibiu-se ao mostrar o mundo criminoso tal como ele é.

O Profeta conquistou o Grande Prêmio do Júri em Cannes em 2009 e foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. Assista no dia 2 de fevereiro. Invente de novo, imagine de novo... Descubra o Max.

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A Profeta ou o lugar daqueles que não pertencem

por max 16. abril 2011 22:04

 

 

A Profeta (2009), do cineasta francês Jacques Audiard, é um filme de sobrevivência. Tudo acontece numa prisão, o pior lugar do mundo em muitas sociedades. Lá, onde não há espaço para a correção (pelo que sempre foi inútil para chamar esses lugares instituições correcionais) e onde o espírito criminoso se torna um monstro. A prisão, como uma utopia, parece ser um lugar que não está em lado nenhum. É um navio sem leme, um navio da morte. Quem sobrevive a ela, é aquele que não pertence, que está vazio de amor, aquele que não tem vínculos com qualquer coisa. Malik, interpretado com grande talento por Tahar Rahim, é um ser sem passado, de quem não sabemos grande coisa e que, sendo um árabe, convive com a comunidade corsa na prisão. Estes são os dois principais epicentros desse lugar e Malik está lá no começo trabalhando para os corsos, desprezado pelos muçulmanos, fazendo o papel de um pequeno empregado. No entanto, o filme destina-se a assistir ao nascimento do homem mais cerebral e cruel: aquele que vai subir acima de todos e terá controle total do crime organizado. Esse é o destino de Malik. Nunca foi daqui nem de lá. Nunca pertenceu a lugar nenhum e para sobreviver, vai se fazer um lugar no mundo onde nada pode alcançá-lo, onde a sua vingança contra tudo será hiper-realista, desconfortável para muitos. Jacques Audiard não ficou limitado, não teve vergonha de mostrar o mundo do crime como ele é. A verdade está lá fora, e quem tem olhos pode vê-la.

A Profeta ganhou o Prêmio do Júri em Cannes em 2009. Assista no domingo, 22 de maio, o último filme da série dedicada ao Festival de Cannes.

Descubra Max.

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