When You’re Strange: Um Filme sobre o The Doors, ou Morrison, o esquisito

por max 18. outubro 2012 02:27

 

Jim Morrison não acreditava que uma parede era uma parede. Não acreditava na dureza dessa parede. Jim Morrison acreditava que uma parede era uma porta, e que essa porta podia ser aberta. Para tanto, somente era preciso ter a chave. Essa chave era a arte, especificamente a música. Morrison leu Nietzsche, aquela parte que falava sobre arte, estética como uma verdadeira metafísica do homem, daquele wagneriano que alucinava com o mundo grego e que argumentava que, entre Dionísio e Apolo, preferia Dionísio, que deu origem à tragédia grega. Se bem que, para Nietzsche, a arte era constituída pela ordem e harmonia de Apolo e também por esse fundo obscuro, caótico e mais ancestral, composto por Dionísio. O filósofo ficava com esta segunda parte, em um gesto, sem dúvida, ousado e desafiador para sua época. Morrison havia lido Nietzsche "musical", que chegou a perguntar-se em Gaya scienza o que seu corpo poderia querer com a música, e a resposta teria sido o alívio. "Como se todas as funções animais devessem ser aceleradas mediante ritmos leves, audazes, turbulentos; como se o bronze e o chumbo da vida devessem esquecer seu peso graças ao ouro, à ternura e ao jeito "escorregadio" das melodias. Minha melancolia quer descansar nos esconderijos e abismos de perfeição: é por isso que preciso da música". Nietzsche imaginava essa parede mole, leve, que tanto Morrison almejava do mundo. O filósofo deu ao poeta essa concepção existencial, onde a vida somente é possível na arte, na estética, no ideal dionisíaco. Evidentemente, Morrison é produto de seu tempo. Nele estava a rebeldia contra os poderes, a alma da juventude emancipada dos julgamentos mentais, a juventude que não queria guerras, que não queria que lhe dissessem que o que tinham que fazer, que acreditava que o ser humano era mais, que a realidade era mais. A juventude de Timothy Leary, de Carlos Castaneda, de Aldoux Huxley. A juventude da psicodelia, das drogas que mudam a percepção do mundo para vislumbrar o que há por trás de tudo. Morrison era parte desse conglomerado, e havia lido Neitzsche, e havia lido o gênio precoce de Rimbaud (talvez se visse refletido nele) e a caótica e demolidora religiosidade de William Blake. Claro, ele havia lido Ferlinghetti, Ginsberg, Kerouac. Tudo isso estava em Morrison, e tudo isso não somente era sua cultura literária, mas sim também sua vida. Disse uma vez: "acredito que um longo, prolongado e ordenado transtorno dos sentidos leva ao desconhecido." Morrison queria fazer de sua vida uma arte. Desde jovem, escrevia poesia e, um dia, cantou, e descobriu que sabia cantar. E outros também descobriram que ele sabia cantar. Ele tinha tudo. Atitude, talento, voz. Morrison estava destinado a ser o mensageiro, o anjo dos novos tempos. E então veio a fama. E, então, o caos o tomou de uma vez, e entre a fama e o caos, foi uma chama que se extinguiu.

Não dá pra saber quem podia mais, se os ideais ou a doença do vício. Bebia, drogava-se por ser rebelde e para buscar os mundos de onde surge a arte? Ou dizia que era rebelde e que buscava os mistérios da arte para drogar-se e beber? Cada um terá sua própria opinião. Em 1969, falou de sua relação com o álcool para a revista Rolling Stone e disse o seguinte: "Você tem o controle até certo ponto. É sua escolha cada vez que toma um trago. Tem um montão de pequenas escolhas. Suponho que é a diferença entre o suicídio e uma rendição lenta." Morrison, no fim, não foi um deus, não foi um anjo, foi um ser humano que morreu jovem. A verdade é complexa e estranha. Os seres humanos são todos esquisitos.

Este mês, o Max traz When You're Strange: Um Filme sobre o The Doors (The Doors: When You're Strange, 2010), documentário dirigido por Tom DiCillo, um diretor que havia trabalhado na televisão, mas que, nos anos 90, dirigiu vários filmes de ficção. Desde seu primeiro trabalho, vemos em DiCillo um notável interesse pelos indivíduos periféricos e atormentados. Johnny Suede (1991), protagonizado por um Brad Pitt muito jovem e desconhecido (não demoraria muito para que o público o visse em Thelma & Louise), apresenta um garoto hipster, desses que procuram afastar-se da cultura dominante e buscar um estilo de vida alternativo. Como sabemos, o hipster é produto de uma mistura pós-moderna do hippie, do grunge, do punk e do beat, entre outros movimentos alternativos. Seu segundo filme, Vivendo no Abandono (Living in Oblivion, 1995), não se afasta do alternativo, e também toma o caminho do "por trás da câmera", ao aprofundar-se nos altos e baixos de um dia em um set de um filme de baixo orçamento. Em Box of Moon Light Poster (1996), mostra um homem de classe média, John Turturro, rebelando-se, "saindo da caixa". E em Um Loira de Verdade (The Real Blonde, 1997) volta a interessar-se pelos bastidores do mundo do entretenimento. Não é de estranhar, então, que DiCillo se entregasse ao gênero documentário e que, além disso, fizesse isso com a vida de um dos grandes ícones da anti-cultura contemporânea, Jim Morrison. Porque, ainda que o documentário pretenda centrar-se no The Doors como uma banda, a presença de Morrison é tão forte que acaba engolindo o documentário.

 When You're Strange: Um Filme sobre o The Doors acaba sendo o registro da trajetória cronológica do grupo, mas focado em Morrison para ir tecendo essa rede, que demonstra que o cantor que lidera a banda e o grupo eram as duas faces inseparáveis da moeda, de um momento histórico e de uma concepção do mundo que sempre lançará um olhar estranho.

When You're Strange: Um Filme sobre o The Doors, nesta quinta, 18 de outubro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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As Acácias, ou crescer na estrada

por max 13. julho 2012 14:13

 

A estrada é, na verdade, uma metáfora de experiência de vida. Aquela que, certa vez, foi o mar de Ulisses, o caminho dos peregrinos, do Quixote de la Mancha, ou a falta de rumo do Louco do Tarô, é hoje uma estrada asfaltada. Jack Kerouac fez da estrada uma experiência existencial e literária. O cinema de Hollywood desenhou o roadmovie e Dennis Hopper, Jack Nicholson e Peter Fonda foram lançados em uma viagem de loucura juvenil. Também aconteceu com Warren Beatty e Fay Dunnaway interpretando Bonnie e Clyde, e Susan Sarandon e Geena Davis em seus papeis em Thelma e Louise, duas garotas que, literalmente, se jogaram na estrada em um filme de Ridley Scott. Uma das histórias de estrada mais comoventes e assustadoras dos últimos anos é, exatamente, La Carretera, de Cormac McCarthy, romance com o qual o autor obteve o prêmio Pulitzer. No mundo de McCarthy não há carros, ou se há, estão estacionados na grande rodovia do mundo. Pai e filho percorrem a estrada, fugindo da desolação e dos humanos que, mortos de fome no pós-apocalipse, comem-se uns aos outros. Um romance sobre o fim do mundo, uma obra de crescimento ou bildungsroman, como dizem os alemães. E é bem isso, na estrada crescemos, na estrada somos nós, nos descobrimos. A estrada nos desnuda e nos confronta com quem somos.

As Acácias (Las Acacias, 2011), primeiro longa-metragem de Pablo Giorgelli, também utiliza a estrada para contar uma história de crescimento interior. Sem estridência, sem grandes movimentos de câmera, com silêncios, gestos e expressões de rosto, Giorgelli apresenta um calado motorista de caminhão (Germán de Silva), que saiu do Paraguai e chegou à Argentina, levando uma mulher e sua filha (Hebe Duarte e o bebê Nayra Calle Mamani). Neste pequeno cenário centra-se Giorgelli para confrontar, sem pirotecnias, os mundos de seus personagens. A mulher que abre o homem, o homem que se abre diante da mulher, a estrada como balão de ensaio, o por do sol, a paisagem, o caminho sem fim. Giorgelli conta que trabalhou no roteiro por mais de dois anos e na montagem por sete meses. Foi um trabalho de depuração, um trabalho de essências. O personagem cresce e se desfaz de preconceitos, de rudezas, de crostas, o personagem feminino também mostra seu lado escondido, e o diretor faz tudo com respeito, com tamanha delicadeza, que o resultado final é a pura alma, sem sentimentalismo.

As Acácias recebeu o prêmio Camera D´Or em Cannes. Domingo, 15 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Uivo, ou dez beats em torno de Allen Ginsberg

por max 13. julho 2012 14:06

 

Beat 1. Um dia, meados de 1955. Um homem caminha pelas ruas de São Francisco, cidade que, uma vez, foi lugar de perdição, onde os "caçadores" de ouro iam procurar mulheres e bebida. São Francisco, muito tempo depois, continua sendo assim: ouro e perdição, ouro e vícios, ouro e a liberdade de ser você mesmo. Quem você é, na verdade.

 

Beat 2: Um incenso, um cântico, um homem muito magro sentado sobre um pano em um parque qualquer (também poderia ser um apartamento). Depois da Segunda Guerra Mundial, depois dos grandes argumentos da razão, da luz da razão, da perfeição pura da razão, depois que toda essa maravilha não curou os males do homem, depois que o futuro deixou de ser futuro, depois que os jovens deixaram de acreditar, começou-se a buscar novos caminhos. A razão rejeitou a religião. Devemos voltar ao espiritual, dizem as novas vozes. Ah, mas não necessariamente à religião que tem mais de 10 mil anos a nos apezinhar. Não voltaremos à religião da cruz. Devemos lançar nossos olhares para a mística oriental. Ali, na ioga, nos gurus, no budismo, deve haver respostas para tanta loucura. Algo novo de tão antigo.

 

Beat 3. Uma boca se abre, um papel pequeno na ponta da língua. A expansão da consciência. Bater nas portas, passar para o outro lado. O surrealista André Breton falou de ir fundo na alma criativa, ir através dos sonhos, ir escrevendo sem pensar. Jung falou da imaginação ativa. Podemos tirar lá do fundo para fora, podemos inclusive colocar a mão na realidade e transformá-la, vê-la como realmente é. A realidade é suave, e as palavras da poesia nesta realidade suave são mais suaves ainda. Que viva a palavra suave!

 

Beat 4. Dois homens se beijam. Allen e seu amor se beijam. O amor não tem sexo, o amor não deve afundar-se em medos. O amor é o amor, e é puro desta forma. Está além daqueles que não entendem. O amor na poesia deve ser cantado, assim seja o amor entre os homens. Allen e amor, seu homem, voltam a se beijar.

 

Beat 5. Uma estrada. Uma estrada longa. A poesia está em uma estrada. A alma está na estrada. Não veem Jack lá longe? Jack, sim, seu sobrenome é Kerouac.

 

Beat 6. Lawrence Ferlinghetti lê, como uma performance artística, o poema «Uivo» (Howl), de Allen Ginsberg, em sua livraria, a célebre City Lights. Dias depois, Ferlinghetti é preso. Acusação: propagar, difundir, recitar literatura obscena. Todos acusam os poetas.

 

Beat 7. Um julgamento. Rostos indignados. O poema como uma arma, o poema como um insulto, o poema que vai a julgamento, como se fosse um delinquente. Allen Ginsberg e seu poema «Uivo» estão no tribunal. Acusados de serem indecentes, de serem imprudentes, de bombardear a moral. No país da liberdade, pretendem aprisionar um poema. Tudo fica nas mãos do juiz. Tudo fica nas mãos da consciência redentora.

 

Beat 8. Início de «Howl», ou «Uivo»: «Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura.... »

 

Beat 9. Uivo (Howl, 2010), de Rob Epstein (diretor premiado três vezes no festival de Berlim e ganhador de dois Oscars de Melhor Documentário) e Jeffrey Friedman (ganhador de três prêmios em Berlim, junto com Epstein), é um drama que mescla animação e um certo tom documental para retratar a vida de um dos maiores poetas da geração Beat. Os dois diretores, Epstein e Friedman, vêm desenvolvendo há anos um trabalho sério, sólido, duradouro, sobre a vida em São Francisco e os direitos da comunidade homossexual. James Franco interpreta Gingsberg. Franco, sem dúvida, tem rosto de rebelde. James Dean também foi. Por que não Allen Ginsberg? Há rostos rebeldes por excelência. Olhares rebeldes por excelência.

 

Beat 10. Uivo, neste sábado, 14 de julho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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