A Guerra Acabou, ou a complexidade das verdades

por max 25. novembro 2011 11:34

 

Na África, as guerras civis têm sido completas atrocidades. A de Serra Leoa, como muitas outras, caracterizou-se pela excessiva fúria contra a população. Amputações, estupros, torturas, assassinatos sem piedade, meninos soldados, prostituição forçada, inclusive canibalismo. Que horror imaginar um grupo de homens entrando em seu povoado com facões nas mãos, cortando sem piedade todo mundo que atravessasse seu caminho. Que horror imaginar uma criança com um rifle nas mãos, matando sem piedade, drogada, enlouquecida pelos próprios pais.

War Don-Don quer dizer "a guerra terminou", o horror terminou. Mas em Serra Leoa deixou um país destroçado, um país que esteve em guerra contra si próprio. Não é o mesmo que um país lutar contra outro país, vendo os inimigos baterem em retirada ou, no pior dos casos, a submissão final, à qual um país se vê no final da guerra, e que aqueles que foram inimigos saiam dali. Como pode se reconstruir um país assim? Como estabelecer justiça entre irmãos, entre compatriotas?

O documentário que leva como título a significativa frase que indiquei acima, A Guerra Acabou (War Don-Don, 2010), dirigido por Rebecca Richman Cohen e produzido pela HBO, centra-se em um dos líderes da guerra civil, Issa Sesay, líder da RUF (Revolutionary United Front), acusado de ter ordenado os massacres, os estupros, as mutilações, e de permitir a formação dos batalhões de crianças soldados. Um grande tribunal internacional, a um alto custo, se instaurou no país, buscando, precisamente, deixar um precedente, deixar claro que se ansiava pela paz nacional através do estabelecimento da justiça. Sesay foi um dos peixes grandes daquele propósito político. Um homem de origem humilde, de pouca educação que, segundo sua defesa, foi inclusive vítima de manipulações políticas. O documentário de Rebecca Richman Cohen reúne as complexidades do julgamento ao longo de três anos, com testemunhos de pessoas dos vilarejos (pessoas amputadas, muitas delas com medo de falar), e com acesso inclusive ao próprio Sesay. Fúria, alegria, tristeza, tudo ali, registrado pela diretora em seu primeiro documentário, depois de ter passado pela escola de Michael Moore. Um trabalho consciencioso, sério, que tomou um tempo para chegar ao fundo não sei se para chegar ao fundo das verdades, mas sim para chegar ao fundo de onde nascem as perguntas verdadeiras, as perguntas que nos levam a questionarmos a respeito da natureza humana, da natureza da verdade.

A Guerra Acabou, neste domingo, 27 de novembro, no Max.

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