Homens Livres, ou o mapa para nos entendermos

por max 23. agosto 2013 05:03

 

O espírito humano parece precisar de um mapa das fatalidades, dos momentos históricos cheios de dor, pena e vergonha, desses períodos de caos que ficam fragmentados na memória, imprecisos, obscuros.

Uma nova peça para este mapa é Homens Livres (Les Hommes Libres, 2011) do marroquino Ismaël Ferroukhi, um filme inspirado em fatos da vida real que explora a participação dos imigrantes islâmicos na resistência francesa durante a ocupação nazista, um aspecto desta grande história dividida e distorcida que até agora não havia sido contada.

Ferroukhi se vale de Tahar Rahim, um ator que deixou uma ótima impressão entre o público e a crítica com O Profeta (Un Prophète, 2009), e o transforma em Younes, um imigrante argelino que transita entre as aberturas do mercado negro de Paris e quem, como muitos argelinos, não tem o mínimo interesse pela situação da França durante o conflito; só quer saber de ganhar um bom dinheiro em Paris para retornar à sua terra assim que possível. Mas Younes é preso pelos nazistas e obrigado a trabalhar para eles como espião. Ele vai para a mesquita vigiar o diretor, Si Kaddour Ben Ghabrit, interpretado por Michael Lonsdale, que também atuou em Homens e Deuses (Des hommes et des dieux, 2010). Si Kaddour Ben Ghabrit é suspeito de fornecer documentos falsos aos judeus norte-africanos para se converterem a religião islâmica; assim Younes deve estar ali, abrir bem os olhos e pegar o diretor com a mão na massa. Ao mesmo tempo, ele conhece e faz amizade com Salim Halali (Mahmoud Shalaby), um cantor que aprecia bons momentos na cidade graças a sua arte. Porém, Salim guarda um duplo segredo: sua verdadeira religião e sua identidade sexual.

Os personagens inspirados na vida real são Si Kaddour e Salim. Younes, produto da ficção, é o pouquinho de transformação necessária. Na chave do suspense, Ferroukhi nos mostra a mudança que Younes experimenta, o passo de sua visão pragmática e sem maiores preocupações humanitárias, a ação cautelosa, mas não isenta de perigo, que espera depois do universo da resistência.

Portanto, este é o mapa de Ismaël Ferroukhi, um mapa histórico, mas que também é contemporâneo, que delimita as diferenças religiosas e políticas do Oriente Médio, os massacres, as guerras dos tempos atuais. Islâmicos e judeus estiveram, nesta pequena história, alguma vez unidos por uma causa maior, unidos sob o jugo de um inimigo superior. E isso, sem dúvida, desperta o interesse de Ferroukhi e nos mostra através de Younes, um homem do Islã que, liderado por sua condição humana universal, acaba se unindo aos filhos da religião hebraica, com a finalidade de salvar almas, almas também hebraicas.

Homens Livres, domingo, 25 de agosto. História, compaixão, irmandade universal, cinema de primeira. O que você vê quando vê o Max?

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