Mais dois filmes no ciclo dedicado a Hayao Miyazaki

por max 20. outubro 2011 10:46

 

O Serviço de Entregas de Kiki (Majo no Takkyübin, 1996). Trata-se de um filme que mostra duas peculiaridades da personalidade de Hayao Miyazaki. Em primeiro lugar, nos apresenta a sua paixão pelo voo, diversão que possivelmente descobriu por causa do seu pai, antigo diretor de uma companhia que fabricava partes dos famosos aviões de guerra japoneses chamada Zero. É conhecido o fato de Miyazaki, desde moço, ter utilizado máquinas voadoras em suas ilustrações. Nos anos setenta, já sentia uma idolatria particular pelos aviões antigos e, com o passar dos tempo, esse amor foi se mantendo.

Em O Serviço de Entregas de Kiki, o cineasta se deixa levar pela maravilha do ar e nos oferece momentos fascinantes, cheios de beleza. Miyazaki teve o melhor pretexto de todos: Kiki é uma bruxinha que usa uma vassoura voadora, por aí afora. É possível que o amor do cineasta pelo voo tenha levado-o a se entregar profundamente ao projeto de Kiki porque, no começo, Miyazaki não ia participar do filme, mas acabou sendo o roteirista, produtor e diretor. Em 1987, a editora da escritora Eiko Kadono licenciou a história para que o Studio Ghibli levasse ao cinema seu romance para meninos e jovens: O Serviço de Entregas de Kiki.

Naquele momento, Miyazaki estava completamente dedicado ao filme de Totoro e, o seu primeiro parceiro –Takahata– também se encontrava ocupado com Grave of the Fireflies. Então, começaram a procurar possíveis candidatos para o roteiro e a direção. Porém, quando aparece o primeiro roteiro, escrito por Nobuyuki Isshiki, ele acaba rejeitado por Miyazaki que considera que o texto não era compatível com sua visão. Depois de ter recusado outras opções em roteiro, Miyazaki acabou escrevendo o texto e entregou-se à produção e aos desenhos dos primeiros esboços. Tanto se envolveu no projeto que o diretor contratado originalmente, Sunao Katabuchi, pediu demissão, completamente intimidade pela intervenção do mestre. Foi assim que um filme, que ia ser originalmente de 60 minutos, acabou se prolongando e ficando em 102, tudo isso graças à intervenção apaixonada de Hayao. Isto nos diz muito, sem dúvida, sobre sua personalidade. Aquele que é admirado por ser um mestre em alguma arte – e que ele realmente é – não sai por aí, com um sorriso de orelha a orelha, enchendo os demais de amabilidades e condescendências.

Miyazaki é um autor obsessivo, muito exigente no trabalho. Ele exige de si mesmo e da sua equipe, faz tudo para que a obra fique impecável. Muito bonitinho o vovô sim, mas, sem dúvida, ele está totalmente apaixonado pela sua arte. Sabe-se, por exemplo, que para fazer A Princesa Mononoke, Miyazaki passou intensas horas sem fim, desenvolvendo esboços e desenhos e acabou por lesionar a mão. Outro exemplo? Como a história original de Kadono acontece em um povoado europeu, Miyazaki enviou seus desenhistas para várias cidades da Europa, para que realizassem uma pesquisa exaustiva. Na sua impressionante mania de perfeição, o cineasta foi modificando a história, na medida em que ia aprendendo mais sobre as diferentes cidades do Velho Continente. Finalmente, Koriko ou Coriko (nunca se diz o seu nome no filme, embora Ghibli falasse dela em várias notas de imprensa) acabaria sendo uma cidade imaginária, traçada à perfeição, com evidentes alusões a Estocolmo, Munique e principalmente Visby, na Suécia.

O Serviço de Entregas de Kiki, nesta quinta-feira, 20 de outubro.


 

 

Porco Rosso (Kurenai no buta, 1992). E, ao citarmos o amor de Miyazaki pelo voo, temos que citar este filme, que gira em torno dos temas ar e aviões antigos. No período entre as duas guerras mundiais, especificamente em 1929, esta produção é protagonizada por um porco. Sim, um porco (essa figura é outra das fascinações de Miyazaki). De fato, Porco Rosso é um dos poucos filmes do diretor, no qual a protagonista não é uma garota; desta vez, trata-se de um homem... bem, de um porco, na verdade. Um porque que, deve-se ressaltar, antes foi humano e se chamada Marco Pagot. Pagot, aliás, é o sobrenome dos famosos ilustradores italianos que criaram o pintinho Calimero.

Embora, para que seja feita justiça e voltando ao tema do protagonismo feminino, o filme tem uma mecânica de aviões, chamada Fio, como importante personagem. Porco Rosso, o porco (na dublagem brasileira é conhecido como Marco Porcelino ou Marco Porquinho), é um caçador de recompensas, sempre pronto a evitar que os piratas do ar se deem bem; estes, já fartos do herói, contratam outro piloto – o norte-americano Donald Curtis - para acabar com o protagonista.

Trata-se de uma aventura que, usando como pano de fundo os assuntos da aviação, lança uma mensagem antibelicista mais do que óbvia. Originalmente, Porco Rosso nasceu como curta-metragem, para ser exibido nos aviões da Japan Airlines, mas, claro, nas mãos do obsessivo Miyazaki, tornou-se um projeto maior. O tema dos aviões era muito tentador para deixá-lo em um curta. Além disso, justamente na época de sua produção, estava acontecendo a guerra da Iugoslávia. A Croácia lutava pela sua independência e Miyzaki sentiu que não podia fazer do assunto bélico uma diversão para entreter passageiros. Embora o projeto saísse do que estava acordado em contrato, a Japan Airlines confiou na fama e na genialidade do mestre e acabou financiando o filme. Mais uma vez, aviões e obsessões acabam transformando um filme de Miyazaki em uma verdadeira obra-prima.

Porco Rosso, nesta sexta-feira, 21 de outubro, no Max.

Três filmes de Miyazaki que assistirás em breve

por max 6. outubro 2011 16:03

 

A Princesa Mononoke (Mononokehime, 1997): Já em 1997 Hayao Miyazaki tinha demonstrado que os seus filmes eram de uma qualidade altíssima e que conseguiam competir nos mercados ocidentais. Não é por acaso que em 1996, um ano antes do estreio da A Princesa Mononoke, os estúdios Disney assinaram um contrato de distribuição com Takuma Shoten Publishing, a companhia encarregada de comercializar os filmes do Studio Ghibli, que pertencia, obviamente, ao Miyazaki. Foi assim que A Princesa Mononoke fez a sua première internacional com o selo Disney, e demonstrou, mais uma vez, a capacidade imaginativa, as preocupações ambientas, e, claro, a mestria de Miyazaki. O filme acontece num bosque cheio de espíritos da natureza, deuses bestiais, desconhecidos animais mágicos e guerreiros com um toque medieval.

Na A Princesa Mononoke, como em outros trabalhos de Miyazaki, o homem e a natureza se confrontam e batalham até o fim, com dor, assediados além do mais por uma doença letal parecida à gangrena. O interessante do filme nesse sentido é o nível de complexidade que é apresentado pelo Miyazaki ao tratar esse tema. Não existem os maus nem os bons, tudo parece apontar em direção ao equilíbrio, na procura da expansão da consciência e do compromisso profundo pela preservação do meio ambiente, que é, ao mesmo tempo, a preservação do homem em si mesmo.

A Princesa Mononoke, desfruta dela na segunda-feira 17 de outubro.


 

 

Nausicaa – A Princesa do Vale dos Ventos (Kaze no Tani Nausicaä, 1984): Estamos falando do filme que acabou por fazer de Hayao Miyazaki o estandarte da animação japonesa, e que conseguiu levá-lo ao reconhecimento internacional. Trata-se de uma fábula protagonizada por uma menina que tenta sobreviver num mundo devastado, envenenado e, para rematar, habitado por mortíferos insetos gigantes. Baseado num mangá de 51 episódios desenhado pelo próprio Miyazaki em 1981, o filme teve a Isao Takahata (parceiro do mestre no Studio Ghibli) como produtor e foi o mesmo Miyazaki quem a dirigiu.

Com este filme o cineasta aventura-se por primeira vez nos que depois serão os seus mundos já clássicos: lugares altamente complexos criados por uma imaginação sem limites, sem que esse "afastamento" da realidade separe a história dos temas ecológicos, filosóficos, e até sociais pelos que acostuma a se preocupar. Mundos onde a cobiça torna-se o principal inimigo do homem e da natureza. Internacionalmente, Nausicaa – A Princesa do Vale dos Ventos, conseguiria que o público ocidental entendesse que a animação japonesa tinha outras possibilidades além da inocência com que eram mostrados até então os bonequinhos de grandes olhos. Akira de Katsuhiro Otomo viria quatro anos depois, e ambos filmes, Nausicaä e Akira, ajudariam a estabelecer o começo da moda e o grande prestígio do anime japonês.

Nausicaa – A Princesa do Vale dos Ventos, terça-feira 18 de outubro.


 

 

Pompoko – A Guerra dos Guaxinins (Hesei Tanuki Gassen Pompoko, 1994): Temos um filme dirigido pelo sócio do Miyazaki, o também diretor e animador Isao Takahata. É um filme onde os protagonistas são os tanuki, criaturas do bosque, nascidos do folclore japonês, comparados de modo superficial com guaxinins, mesmo que na realidade sejam mais do que isso, pois os tanuki tem o poder de se transformar em qualquer coisa que desejarem, inclusive em seres humanos.

A ideia é original do Miyazaki, quem a propôs ao diretor Takahata e depois se uniu na realização como produtor. O tema, e tal vez por ter surgido do primeiro, está muito próximo às suas preocupações habituais: a ecologia e a ambição do homem. Dessa vez os tanuki terão que lutar com tudo o que puderem em contra do ser humano, ao descobrirem que o seu hábitat está sendo ameaçado pela pretensão indiscriminada de destruir a natureza para construir estruturas de concreto.

Pompoko – A Guerra dos Guaxinins competiu no mercado internacional com The Lion King da Disney, ficando muito perto nos números da bilheteria. Por causa disso, um par de anos depois, a Disney fará a negociação da que já falamos.

Não percas Pompoko – A Guerra dos Guaxinins, na quarta-feira 19 de outubro, pelo Max.

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