O Homem que Nunca Esteve lá , ou o crime e o chamado anti-heroi

por max 6. fevereiro 2013 12:08

 

Os irmãos Coen se dão bem com o crime. Ficaram mais conhecidos do grande público em 1987, com Arizona Nunca Mais (Raising Arizona). Nesta comédia de relativo sucesso comercial, um iniciante Nicolas Cage (depois de Asas da Liberdade/ Birdy, antes de Coração Selvagem/ Wild at Heart), interpreta um bobalhão descabelado que, junto com sua esposa policial, decide roubar um dos quíntuplos do milionário Nathan Arizona. Eles não agiam por razões comerciais e sim porque não podiam ter filhos e consideram que o figurão já tem muitos. Nestes personagens, um suposto ato de justiça avaliza um crime, o que será uma constante na cinematografia dos Coen.

Bom ir um pouco mais para trás. Três anos antes, eles haviam produzido o primeiro filme, Gosto de Sangue (Blood Simple, 1984), onde o crime já era o senhor absoluto. A história começa quando o marido ciumento Julian Marty (Dan Hedaya) manda matar a mulher e a amante, crente que tal ação não lhe vai trazer nenhuma consequência. Nesta trama cheia de confusões, a esposa Abby (Frances McDormand) acaba sendo a protagonista, uma jovem que quis dar um pouco de ação e de sentido a sua vida, atrevendo-se a ser infiel, que acreditou merecer algo melhor tendo um amante que lhe desse o que o marido chato não lhe dava.

Depois de Arizona Nunca Mais, os Coen voltaram em cheio ao film noir, desta vez com uma história de quadrilhas: o inteligente e exagerado Ajuste Final (Miller´s Crossing, 1990). Ambientado nos tempos da proibição do álcool, o filme tem o brilho, o encanto e o horror daqueles anos mafiosos de gabardine, cabarés clandestinos e metralhadora. Gabriel Byrne é Tom, um conselheiro da máfia que, por azar, se apaixona pela mesma mulher que seu chefe Leo (Albert Finney) deseja. Tom é uma versão do cara durão dos filmes bogartianos, mas nele já começa a ver-se a variante Coen, desenhada nos personagens de Gosto de Sangue e Arizona Nunca Mais. Tom é um duro anti-heroi, porém há nele algo de vida monótona. Mas também o caracteriza — e nos atrai — certa agudeza, certa vontade inclusive de acordar do nada, de montar sua própria história e de fazer justiça. Neste caso, a centelha que o desperta é o amor. Tom sente que o merece, e voltar-se contra seu perigoso chefe é um ato de justiça em prol de seu direito a esse amor.

Barton Fink – Delírios de Hollywood (Barton Fink, 1991) retoma igualmente o tema do crime e da morte por meio de Charlie Meadows (John Goodman), um vendedor ambulante que acaba sendo um serial killer. O filme mescla o tema do crime com uma trama de fortes marcas kafkianas, onde Barton Fink (John Turturro) representa essa tendência do absurdo e a impotência diante dos poderes (neste caso, os estúdios Capitol). O hotel delirante e infinito também nos leva até os terrenos kafkianos e igualmente surrealistas, um cenário elástico, maleável, especular, onde cabem o criminal e o pequeno oprimido de Kafka. Aqui se vê como os Coen, por meio do insosso e oprimido Barton Fink, vão moldando o personagem totalmente bom de suas histórias, que depois se concretizaria dentro do aspecto em Marge Gunderson de Fargo e em Ed Tom Bell de Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men).

Em 1996, os Coen apresentam Fargo, que lhes daria o Oscar de Roteiro Original e a Frances McDormand o de Atriz. Marge, a heroína de Fargo, é policial de cidade pequena, grávida (com uma barriguinha), que, com toda sua calma e tranquilidade, vai atrás da pista de criminosos de pouca importância, mas criminosos — e perigosos — ao fim e ao cabo. Nada de mafioso durão (hardboiled), nem de um melancólico kafkiano, estamos, o personagem aqui se parece mais aos Coen, ao que os Coen vão desenhando.

O próximo é O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998), com Jeff Bridges num dos melhores papéis de sua carreira como um dude Lebowski, um pobre coitado que, da noite noite para o dia, é confundido com um milionário (por causa do sobrenome), e que, ainda por cima, acaba metido em uma complicada trama de rolos, pornografia e más companhias. A imagen do dude já é plenamente Coen. O dude é um anti-heroi que rompe a monotonia de sua vida para começar uma aventura que não lhe trará senão problemas.

Em E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou, 2000), seus protagonistas são presos fugitivos que vão atrás de um tesouro. São prisioneiros cômicos dos anos 30 qu, com George Clooney à frente, empreendem sua própria viagem heróica. São quase caricaturas de um mundo absurdo e violento, banhados com a luz de sua própria inércia, de seu própria insignificância santificada. É interessante considerar que este filme é inspirado em A Odisséia, poema épico por excelência. O roteiro da viagem do heroi está presente e se vai adaptando a suas necessidades.

Claro, muitos filmes contemporâneos usam este esquema e o variam de acordo com os tempos; o que pretendemos decifrar é a variação dos Coen.

Na sequência, três das suas fitas mais recordistas de público: The Ladykillers (2004), Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) e Queime Antes de Ler (Burn After Reading, 2008). Em todos eles se repetem as constantes aqui relatadas.

Em The Ladykillers (2004) é um esquisito G.H. Dorr, ladrão de bancos (Tom Hanks) acompanhado de uma quadrilha desastrada. G.H. Dorr não é personagem insosso que pensa poder fazer justiça fazendo o mal, mas sim que pode fazer o mal a um custo mínimo, ou seja, acreditando que nem ele nem ninguém saírá ferido ou morto (a menos que haja alguém a quem matar).

Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) levou Oscar de Filme e Direção e tem uma dupla partilha dos personagens à la Coen. Um é Llewelyn Moss (Josh Brolin), um caçador de antílopes que esbarra com um dinheiro mal ganho e se deixa tentar e o outro é o policial Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um velho acomodado, tranquilo, que leva a investigação criminal em seu próprio ritmo, tal como a policial grávida de Fargo. São dois personagens muito Coen, sem dúvida, e não é de estranhar que por isso quiseram levar ao cinema o magnífico romance de Cormac McCarthy.

Em Onde os Fracos Não Têm Vez se apresenta outro caso de infidelidade que vai gerar conflitos. É a história de Katie Cox (Tilda Swinton), casada com Ozzie Cox (John Malkovich), um ex-agente da CIA que está escrevendo suas memórias. Ela é amante de Harry (George Clooney), um funcionário do Departamento do Tesouro. Katie quer se divorciar de seu marido, mas antes busca averiguar em seu computador seus saldos bancários, o que a leva a descobrir acidentalmente o CD com as memórias. Este CD, por azar, acaba nas mãos dos empregados da academia aonde Kati vai. Chad (Brad Pitt) e Linda (Frances McDormand) acham que o que diz o CD pode interessar aos russos (nesses tempos, cabe destacar), interesse que pode ser convertido em muito dinheiro.

Dentro da macroestrutura épica ou viagem do heroi que nos vem de Joseph Campbell e que foi adaptada para roteiros por Christopher Vogler, a ambição e a oportunidade se transformam em elementos perversos ou negativos, variantes à la Coen do que se conhece no primeiro ato como o «chamado à aventura» — tal como o conceitual Vogler —, ligação e detonador que abre espaço para o segundo ato. A oportunidade de crime, essa imensa tentação que se poderia ver como algo fácil de executar é, no cinema dos Coen, esse chamado à aventura. Em seu mundo, o chamado à aventura pode ser o chamado a deixar-se tentar pelo mal.

Neste sentido, O Homem que Nunca Esteve lá (The Man Who Wasn't There, 2001) é uma das mais claras demonstrações. Ali está Billy Bob Thornton, no papel de um muito lacônico, simples, insosso e inexpressivo barbeiro que um dia decide fazer chantagem para obter algum dinheiro para investir em um negócio. Como em Gosto de Sangue, há uma infidelidade que se transforma em motivo de chantagem. Ed Crane, o barbeiro, faz algumas chamadas anônimas ao chefe de sua esposa, Big Dave Brewster (James Gandolfini), e pede dez mil dólares em troca de silêncio, Mas, é claro, as coisas se complicam.

Da inércia, passamos à tentação e da tentação ao crime menor, e do crime menor ao crime maior: o assassinato. Esse assassinato pareceria ser a primeira casualidade de uma larga cadeia de infortúnios. Mas são casualidades? Os Coen introduzem seu espectador em um outro mundo, em um mundo especial e terrível. Vogler chama o segundo ato de «mundo especial», e nesse mundo especial há outras leis, nas quais o azar e o insólito são a regra, a constante. Não são fundamentais, por assim dizer, o enfrentamento aos golpes do inimigo e ao próprio grande inimigo; o que importa aos Coen é a cadeia de eventos inesperados, os azares, os golpes de surpresa. Ali, certamente, é aonde vai parar Ed Crane. A partir da primeira morte, se sucedem outras mortes e outros acontecimentos insólitos, que nos fazem pensar que talvez Ed Crane seja um tipo com sorte. Mas a sorte, nos Coen, é um recurso que se esgota, e que não é renovável. A sorte em realidade não existe, tão-somente é um passo prévio a outra torcida do parafuso, e isso o descobrirá Crane até o final da fita.

Assim, na obra dos Coen, o crime liberta forças e dá espaço a outros mundos dentro deste mundo. Em O Homem que Nunca Esteve lá é o próprio protagonista quem abre essa porta, cansado já de ser o mesmo, cansado da monotonia. De algum modo, Ed Crane busca dar sentido a sua vida, ingressando em um mundo onde sucedam coisas, onde se movam os estímulos, onde se mova sua sorte, boa ou má, tanto faz. Ed Crane, como muitos, esteve morto em vida durante anos, paralisado, invisível, de algum modo até impedido de atuar e de ter mais do que a vida lhe deu. De repente, um dia, viu a oportunidade de fazer justiça, de presentear-se com o que merece, o que durante tanto tempo lhe foi vedado. Já o dissemos, o que, na estrutura da viagem do heroi, equivale à chamada para fazer o bem se converte aqui na chamada para a ambição, para a tentação, para a oportunidade que o levará, sem se importar com os resultados, a uma aventura que o faça sentir-se vivo, justiceiro, merecedor do que nunca lhe foi dado. E, isso é o importante, o (anti) heroi dos Coen da mesma forma considera que está fazendo o correto, que se lhe fará justiça. Paradoxal, mas assim é.

O Homem que Nunca Esteve lá, dos irmãos Coen, nesta quinta-feira, 7 de fevereiro. Anti-herois, tentação, crime, mundo frustrado. O que você vê quando vê Max?

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