Knuckle, ou de mãos limpas

por max 22. junho 2012 14:23

 

Sim, esse cara andou uns doze anos por aqui. Ele ia e vinha, e nós o deixávamos por aí. Era um cara legal, que se mantinha à distância. Entendia a gente e se limitava a fazer seu filme, seu documentário. E, além disso, quem não quer aparecer nos filmes? Um tal de Brad Pitt até já fez o nosso papel. Sim, esse ator que também fez a Morte em um filme e, em outro, viveu um treinador de basquete, mas também fez um lutador brutal em um filme muito estranho, com clubes de luta ou algo assim, e tem aquele outro, onde ele faz um viajante, um cara igual a nós, um viajante irlandês sem casa. Viajar e lutar é o que conta, não é?! Bom, beber a noite toda, lutar durante o dia, depois viajar, chegar novamente a um lugar, voltar a beber durante a noite, voltar a lutar de dia. Lutar com os inimigos, claro. Com os Joyce. Nós, os Quinn McDonagh, sempre seremos o alvo e o motivo do ódio dos Joyce; eles que nos ofenderam, que acreditam ser melhores que nós. Porque é assim, você sabe, irmão. É preciso bater forte naqueles que pensam ser melhores do que nós. Bater com punhos limpos. Com estes punhos que já beberam sangue. Eu me chamo James Quinn McDonagh, tenho todas estas tatuagens para me entregar e me comunicar com nosso Deus católico e justiceiro. Os Joyce, malditos Joyce, que um dia foram nossa família e agora não são, apesar do sangue... Certamente, alguém me disse uma vez que um tal Joyce foi um grande escritor da Irlanda. Também dizem que um tal de Oscar Wilde era irlandês. Que era bom no que fazia, muito bom, mas que... Você já sabe, não gosto de falar disso. Meu papo com homens são as lutas de punhos limpos. Nosso Código proíbe isso. Mulheres e mais nada. Casar-se cedo, ter muitos filhos, bater nas mulheres, nunca divorciar-se. Nada de andar de carinhos com homens. Nada disso.

No final, esse Ian, Ian Palmer, ficou doze anos me seguindo. Aproveito e volto a dizer o que disse antes, meu irmão, é um prazer te ver depois de tanto tempo. Vamos comemorar! Sim, cerveja, mais cerveja...! Bom, o fato é que Palmer andou cheirando meu traseiro durante todo esse tempo, e eu o que fazia era viajar, beber e dar uns socos por aí, sempre cheio desse ódio glorioso que nos faz ser os Quinn McDonagh, inimigos da tribo Joyce. Doze anos, e o maldito cara lá. Uma vez, Palmer me disse: "Conhece Yeats?" Eu lhe respondi: "Luta bem?" "Não, é um poeta, mas os poetas também lutam bem", falou Palmer. Gostei disso: os poetas também lutam. Gosto de me sentir um poeta. Ah, não gosta de poeta? Viva a poesia! Mais cerveja, sim! O quê? Não quer mais falar de poesia. A poesia não é proibida pelo Código. Posso te dar umas porradas na cara. De punhos limpos, como sempre. Sim, sim, estou calmo, tudo bem. Mas deixe eu terminar a história, idiota. Eu disse para Palmer: "E o que acontece com o poeta Yeats?". E Palmer: "Há muitos anos, ele escreveu sobre sua gente." "Ah é?", eu disse, já não estava gostando dessa coisa toda. "Sim, em uma peça de teatro, ele disse que vocês são o povo dos caminhos, o povo sem casa". Não achei mal. Tá certo, somos mesmo o povo do caminho, não temos casa e, além disso, digo mesmo que somos como poetas. Os poetas são de todas as partes e, ao mesmo tempo, não pertencem a lugar algum. O que eu sei? Alguma coisa sei sobre poetas, idiota. Para eles e para nós, uma casa é uma prisão. Lembra? Dizemos isso sempre, que uma casa é uma prisão. Está olhando feio pra mim outra vez. Mas se você se esqueceu, nós nos chamamos Lucht Siúil, gente que caminha. Gente que caminha é um pouco poeta. E, claro, somos brutos e vamos de lugar em lugar, de vingança em vingança. Agora estamos nos filmes, o tal do Brad Pitt interpreta a gente, o tal Yeats falou de nós, tem filmes que mostram a gente. Não passamos despercebidos, meu irmão. Não passamos. Você acha que sou um romântico? Estou falando mais do que o normal? Isso sobre os poetas parece meio estranho? Isso te cheira mal? O que quer dizer com isso? Está duvidando da minha macheza, é?! Venha cá, desgraçado, venha conhecer meus punhos... Venha, quero beber seu sangue... Venha, desgraçado, que vou te deixar como um Joyce... Vem cá, maldito...

Knuckle (2011), neste domingo, 24 de junho. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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