Boneca Inflável, ou ar, amor e vida

por max 13. agosto 2011 05:24

 

Já escrevemos neste espaço sobre Boneca Inflável de Hirozaku Koreeda. Desta vez eu vou adicionar algumas coisas sobre o fôlego da vida e o amor. Em Boneca Inflável (Air Doll), Nozomi, a boneca de ar feita para o sexo, vive através de um sopro de ar único, que vem talvez do cuidado e carinho de seu dono, que não só a usa para satisfazer o seu desejo sexual, mas que a trata como um ser humano. Essa sensibilidade, esse amor, é a fonte da vida. Mas vamos fazer uma pausa por um momento nesse sopro de ar, e por isso vamos falar de Barry Sanders e seu livro Sudden Glory. Sanders disse: "A respiração é o milagre básico da vida. Circulando por todo o corpo, tem sido chamado de muitas maneiras -prhana, spiritus, afflatus, pneuma, anima- mas seja o que for, o nome sempre foi relacionado com algo sagrado. Toda a civilização é montada no ar, toda a criação foi possível graças ao elemento insubstancial." Sanders lembra que na tradição judaica e cristã, o sopro de Deus é santo. No cristianismo, Deus castigou Adão e Eva e a humanidade reduzindo o fôlego da vida. Uma vez que o fôlego deixa o corpo, o homem morre. A respiração, que era apenas emprestada, eleva-se a sua localização original, ao lado de Deus. A respiração é a alma. Como você vê, a respiração, não é qualquer coisa, o ar não é qualquer coisa. Em algum ponto da história, com o Novo Testamento, o sopro da vida (alma) se junta à profunda convicção do amor cristão. O amor como elemento salvador, e, portanto, também de vida. Amor e ar estão inevitavelmente ligados.

O Amor, entretanto, é a afirmação da vida. O buraco da vida, todos os dias, a constante repetição, a falta de sentido cotidiana, está cheia de amor. O amor afirma a existência própria e a do outro, o amor faz você sair da massa e ser único. Diz Fernando Savater no seu livro Convite à ética: "Não existe amor universal, não pode haver nada genérico no amor." Assim, o sopro do amor dá vida, como acontece com a boneca Nozomi (interpretado pela atriz Bae Doona) e com o filme de Hirokazu Koreeda. A boneca, destaca do resto dos bonecos ganha vida e começa a sentir-se curiosa sobre o mundo. Mas o mundo está vazio, as pessoas estão vazias. Tudo é massa, falta amor, falta amor pelo outro. A singularização não está completa. Assim, Nozomi sai para viajar pelo mundo e, finalmente, se reconhece e reconhece alguém. A Nozomi começa a se sentir realmente viva. O amor torna-se então uma força. Cito Savater citando Goethe: "Sentir-se amado dá mais força do que se sentir forte." Essa é a força da vida, é o que faz a boneca se tornar cada vez mais humana. Este filme de Koreeda nos leva a fazer perguntas, sobre os motivos da vida e as razões do amor. Para encerrar, deixo esta frase de Stendhal, perfeita para Nozomi: "Sentir o prazer de ver, tocar, conhecer com todos os sentidos, o mais perto possível, um objeto amável, que seja amável para nós." Nozomi certamente é um objeto agradável que toca e é tocado, que vê e é olhado. E como diz Savater, "objeto amável" só pode ser propriamente uma pessoa. Nozomi, ao invés de um objeto é uma pessoa.

Boneca Inflável, domingo 14 de agosto. Descubra Max.

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Still Walking, ou a caminhata do silêncio

por max 11. julho 2011 15:25

 

Um filme que conta a partir do silêncio, porque o silêncio, para quem sabe, para quem compreende a arte, o silêncio sempre fala. O silêncio torna-se arte, torna-se poesia. Diz Octavio Paz, em O Arco e a Lira, falando de poesia e claro, de silêncio: "Súplica ao vazio, diálogo com a ausência". Cada coisa vivida é uma ausência, é um fantasma que vive dentro de nós. A arte tenta recuperar esses fantasmas, encher essas ausências, falando do silêncio. A linguagem é uma estrutura porosa. As palavras não são suficientes para explicar o mundo. A imagem também não. Uma única imagem pode ter um monte de significados. Assim como um momento vivido. O presente combina o passado e o passado a partir do presente vivido, tem várias leituras em várias pessoas. E assim, não apenas o passado é só um, porém o presente muda também. Nada é estável na vida ou na arte. O que aconteceu pode ter acontecido de maneiras diferentes da pluralidade dos olhos. Lembre-se, por exemplo, a história "Na floresta", de Ryonosuke Akutagawa onde o assassinato é visto a partir de diferentes perspectivas por vários testemunhas. Deixe-me trazer aqui outra asiática, Chuang Tzu e seu "Sonho de Borboleta". O texto diz: "Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Quando acordou não sabia se era Tzu que sonhou que era uma borboleta ou era uma borboleta sonhando que era Tzu." Não só a realidade é percebida a partir de perspectivas diferentes, podemos até duvidar da realidade. Diante de tal perplexidade, fala-se pouco (como faz Chuang Tzu) ou ficamos em silêncio. Alguns dizem que os sábios escolhem o silêncio. E que de alguma forma isso faz Hirokazu Koreeda em Still Walking (Aruitemo Aruitemo, 2008), um filme, que como o próprio título diz, caminha sem muitas palavras, através de uma reunião de família. Como quando se fala de caminhar, de andar, de atravessar a vida, este filme vai encontrando os diferentes momentos desta reunião de família, como por acaso, e os pega, sem julgamentos, sem padrões. Estão, os vivos, os sonhados, sem interpretações, mostrando suas diferentes camadas, seus vários significados. Neles são encontrados o silêncio, a negligência, o carinho e o ressentimento, a tristeza e o amor. Está tudo lá no magnífico filme feito pelo cineasta japonês de renome, sua versão da família, com base em suas experiências pessoais. Uma homenagem às crianças do passado, ao presente, aos filhos, mas especialmente aos pais que ainda estão entre nós, vivendo em seu silêncio que fala.

Still Walking, terça-feira 12 de julho, na Max.

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