O que eu mais desejo, ou o mundo recém-fundado

por max 16. agosto 2013 12:15

 

O início desta história é bem ao estilo de Hirokazu Koreeda: um casal se separa e também separa seus filhos. Ou seja, um filho fica com o pai e o outro com a mãe. O maior, Koichi (Koki Maeda) vive com sua mãe em uma cidade da Ilha de Kyushu. Lá tem um vulcão e as pessoas falam constantemente de uma possível erupção. Koichi deseja que isso aconteça. Se esse vulcão entrar em erupção, haveria a possibilidade de ele voltar a se encontrar com seu irmão Ryunosuke (Oshiro Maeda, irmão de Koki na vida real), que vive com seu pai aspirante a roqueiro, perto de uma linha ferroviária distante. Os irmãos sempre conversam por telefone e um dia Koichi conta a Ryunosuke algo especial: diz ter encontrado uma maneira de fazer seus pais viverem juntos novamente. Um amigo de classe lhe disse que quando dois trens-bala se cruzam, forma um campo magnético entre eles que é capaz de realizar o desejo de uma pessoa que está fazendo o pedido naquele exato momento. Então, os irmãos e um grupo de amigos decidem fugir e procurar um ponto onde os trens-bala se cruzarão. Mas esse é apenas um momento de O Que Eu Mais Desejo (Kiseki, 2011), um momento importante, mas sim, o filme tem um enredo maior. Porque Koreeda nos dá muito mais. Ele nos dá um mundo infantil, um mundo visto pelas crianças, onde as pequenas coisas cotidianas tornam-se novas, enormes e se misturam com seus próprios sonhos de criança. E é isso que interessa ao cineasta japonês, entrar nesse mundo tão fechado e distante do adulto. Com ternura, graça, elegância e, claro, naturalidade, Koreeda consegue oferecer com esse filme essa sensação de mundo recém-fundado, recém-inventado, recém-descoberto.

O Que Eu Mais Desejo, domingo 18 de agosto, no Max. Arte, ternura, beleza, magia. O que você vê quando vê o Max?

Para reapresentações, clique aqui.

Etiquetas:

Geral

Boneca Inflável ou o ar que preenche a existência

por max 29. março 2011 08:46

 

Um homem solitário tem uma boneca inflável em casa. É carinhoso, fala com ela, lhe dá banho, fazem amor. Um dia, a boneca ganha vida e sai para o mundo. O que aconteceu? O homem contagiou algum tipo de "doença" para a boneca? Ele lhe deu o ar da vida? Ou talvez adoeceu pelo ar da solidão? Sair para o mundo, andar por ele, pode não significar estar vivo. Ou talvez devemos compreender que o ar da solidão não é inteiramente indesejável quando se olha para o mundo cheio de ternura ou inocência. Lá vai a boneca humana, vestida com saias curtinhas de empregada, perseguindo as criancinhas japonesas (porque esta história acontece no Japão). Crianças com capacetes amarelos andando sobre uma ponte. Existe alguma beleza ali, uma certa beleza triste nos olhos da boneca que olha essas crianças com capacetes. Afinal de contas, talvez a piedade, os olhos inocentes, definem essas belezas. O cineasta Hirokazu Koreeda apresenta Boneca Inflável (Air Doll, 2009), um filme que investiga a condição humana. Porque é assim, essa parece ser a questão fundamental do filme. O que é ser humano? Quem caminha pela rua, é um ser humano? A solidão nos rouba a humanidade? A solidão é um caminho para chegar ao ser humano? E finalmente, o amor e a sua inocência é a única coisa que nos dá alma? Questões complexas, e talvez respostas simples não tão simples. Koreeda, já tinha trabalhado sobre a questão da inocência e a sua perda em Ninguém sabe (2004), filme onde um grupo de crianças tem de enfrentar a destruição das suas pequenas dimensões, a Terra do Nunca, por causa do abandono da mãe. Com Boneca Inflável temos algo de Pinóquio no fundo, mas este Pinóquio é do sexo feminino, o que permite Koreeda explorar a imagem da mulher na sociedade do Japão com uma originalidade nada comum.

Por outro lado, também é interessante abordar Boneca Inflável à luz dos acontecimentos recentes. Já escritores como Ryu Murakami apontavam para uma queda no vazio da sociedade japonesa. O Japão estava perdendo força, segundo alguns críticos. O ideal nacional de reconstrução que surgiu a partir da Segunda Guerra Mundial, começou a minguar. O Japão, de acordo com os analistas, tinha afundado na apatia daqueles que tinham atingido os seus objetivos. Por isso filmes como Boneca Inflável, retratam a crise profunda da alma japonesa do início do século XXI. Agora, após as tragédias recentes, novas questões sobre aqueles olhares. O Japão irá mergulhar numa completa derrota ou pelo contrário, vai encontrar nisso um dos principais motivos para abraçar o futuro? O futuro como forma de vida, o futuro como motor da alma. O futuro como meta comum. Boneca Inflável, anterior à tragédia, é um filme de dispersão, de vazios, de respostas que acordam a imaginação, o amor, a ternura e a inocência. Quantos podem compreender a salvação implícita nessa mensagem? Quantos podem realizar tal ato de heroísmo? Koreeda apresenta esses atos principais, mas também no final, os esvazia. Hoje, teríamos que perguntar para o cineasta, se o novo ar do mundo está repleto de atos de força de vontade que surgem a partir da tragédia.

Boneca Inflável, na sexta-feira 01 de abril. Descubra Max.

Para retransmissões, clique aqui.

Etiquetas:

Geral

arquivos
 

nuvem