Sonhos, de Akira Kurosawa, ou o homem contra a natureza

por max 16. março 2012 07:33

 

Este mês, o Max orgulhosamente apresenta Sonhos (Akira Kurosawa´s Dreams, 1990), um dos últimos longas-metragens de um dos grandes mestres do cinema japonês, talvez o mais internacional de todos.

Kurosawa já estava com 80 anos (morreria em 1998, aos 88 anos de idade), quando nos deu de presente esta obra-prima constituída por oito curtas-metragens inspirados em sonhos que teve durante sua vida. Estas oito peças refletem uma preocupação muito própria, particular da sensibilidade artística japonesa. Se nos remetemos, por exemplo, a Hayao Miyasaki, um dos diretores contemporâneos mais importantes do Japão, encontramos temáticas similares: a tecnologia, o abuso da energia e a guerra em contraposição às forças da natureza e, no caso de Kurosawa, também encontraremos a força da arte em união com o mundo.

Nestes curtas-metragens há uma variedade de argumentos, que vão desde a atração pelo mundo através do pensamento mágico próprio do universo do sagrado, até a atração pelo espaço e tempo profanos, onde o medo e o respeito pelos mistérios foram substituídos pela loucura racional do homem, levando à destruição da natureza e do próprio homem. A visão inicial do tempo sagrado se dá através dos olhos das crianças nos curtas "A luz do sol através da chuva" e "A horta de pêssego e a festa da estopa". Ali, a natureza é percebida como um lugar fascinante, muito próximo dos deuses e que se apresenta estranho, terrível e ao mesmo tempo belo. A natureza e o tempo interior da natureza pertencem ao medo primitivo, mas também à convivência, ao respeito, à reverência, ao ritual que nos aproxima, por momentos, dos deuses já perdidos. Assim, da visão infantil, Kurosawa dá um salto ao mundo adulto, mas também para uma maneira de relacionar-se com a natureza que, contudo, não é totalmente profana, que continua com alguma religiosidade. Trata-se do curta "A tempestade de neve". Diante do desafio da montanha, o homem percebe o natural de maneira dupla: é um esportista, um vencedor, um desafiante daquilo que temeu durante séculos. Mas, apesar de seu ego, ainda não se transforma em um destruidor. Há algo místico e religioso no montanhismo, um cara a cara ainda cheio de amor. Tanto é assim que a morte, nesta disputa de altura, espreita mais o homem que a natureza.

A morte também está na guerra, na solidão do soldado em "O túnel". Aqui, a guerra (ausente mas com uma presença inegável) mostra-se como a mais clara imagem da ânsia do homem por controlar e ser o senhor supremo do mundo. A guerra, paradoxalmente, é a máxima expressão da razão que somente na razão se recria. A razão que se livra de todo o pensamento mágico, sagrado, que se livra do medo e até do respeito à natureza. Mas a guerra, o pensamento da guerra, a possibilidade da guerra, mata o homem muito antes que ele esteja morto de verdade. Entre a morte, a vida e a guerra, não parece existir diferença. Neste ponto, Kurosawa sai em defesa da arte, e na metade do longa-metragem coloca "Corvos", onde Van Gogh (interpretado por Martin Scorsese), tem um significado fundamental. A arte em fusão com a natureza. Van Gogh recebeu um tiro, sim, certamente, seu contato com a arte e os campos não foi suficiente para evitar a morte. Mas também é verdade que somente nessa relação arte-natureza, ele encontrava seu refúgio, o pouco que podia ter. Depois, Kurosawa também oferece algo mais: ainda que o final de Van Gogh tenha sido trágico, sua obra, baseada em sua visão dos campos, das plantas, dos céus e das plantações, inspira a muitos outros; dá paz e beleza a eles. Ali, dentro dessa visão, parecia haver um ponto de equilíbrio entre o homem e a natureza. A arte como uma forma de religião conciliadora.

Nos curtas-metragens seguintes: "O monte Fuji Vermelho" e "O demônio lastimoso", Kurosawa nos mostra as consequências da soberba da razão: destruição da natureza, morte do homem, caos. A razão como máxima destruidora, a razão como loucura. E, finalmente, o último curta-metragem, "O povo dos moinhos de água", que nos apresenta uma imagem poética desta relação entre o homem e a natureza, um estado ideal, um equilíbrio, uma utopia ecológica, uma ecologia onde a saúde espiritual é a ordem. Não é fácil falar destas ideias e não fazer propaganda exagerada. Kurosawa, um mestre por inteiro, consegue, no entanto, tratar destas complexas relações e fazer arte. Um de seus últimos legados é um chamado à humanidade, a seu desespero pelo poder, é uma mensagem de sabedoria e, ao mesmo tempo, uma expressão de arte magnífica. Do temor do tempo primitivo, passando pelo desafio espiritual e os batismos da arte, a ilógica guerra e a contaminação dos tempos profanos, e daqui à sabedoria ecológica final, Sonhos é um passeio pela mente do homem e sua relação com sua morada, com este mundo onde sonha, mas também, onde constrói pesadelos.

Sonhos, nesta sexta-feira, 16 de março. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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