THX 1138 e as tecnologias cristãs do eu

por max 5. novembro 2012 13:06

 

Do filme THX 1138 (1971), hoje me interessa um símbolo: o confessionário com sua imagem de Cristo na tela. A sociedade na qual o personagem THX se encontra submerso, claramente, o controla por inteiro: o homem é uma máquina que produz, seu corpo foi reduzido à condição de máquina e sua mente está em constante vigilância. O eu de THX, e de todos os que vivem nesse mundo subterrâneo, existe em função do que dizem a ele que deve ser feito. É uma tecnologia do eu, profundamente cristã, se nos baseamos em Michel Foucault. OMM, o Cristo de Hans Memling, dá a pista, ou melhor, confirma a própria pista. Cabe dizer que o tema cristão é uma particularidade – ou originalidade – do filme de George Lucas. Embora suas referências ou influências apresentem uma descarada semelhança com George Orwell e com Aldous Huxley, ao contrário, no lugar do confessionário fica clara uma distância singular. Neste primeiro longa-metragem de Lucas, a vigilância e o controle do eu se revelam com uma forte carga cristã, onde o confessionário é o espaço no qual o homem precisa ir para revelar suas obscuridades mais profundas, aquilo que segundo a opinião geral, é maléfico e deve ser rejeitado com a finalidade de levar a pessoa a aderir aos desígnios exteriores do poder. Ou seja, o indivíduo, sob as tecnologias do eu do cristianismo, deve anular sua individualidade, deve rejeitar ao eu em prol de algo maior. Para Michel Foucault, a confissão é uma forma de revelação de si que está fundamentada na autodestruição. Essa obscuridade que se manifesta na confissão deve ser aniquilada para dar lugar ao bom, à lei da benfeitoria, a essa luz exterior que deve conformar e fazer o indivíduo feliz. O bem, a moral, a ética não estão no homem. O conhecimento de si mesmo não é, nesse sentido, helênico. No confessionário cristão, é a voz de OMM, esse Cristo de Memling, cristão e exterior, que diz como você deve agir e pensar para ser perfeito. Ali, supõe-se, está a luz. Precisamente, é contra este controle, contra essa supressão da liberdade, que o personagem de Robert Duvall se rebela no amor e na fuga. E é assim que começa uma cruzada por sua individualização, uma cruzada onde seu eu mais íntimo tem valor, é luz e pode decidir e pensar, não sei se felicidade, mas, sim, seu destino.

THX 1138, nesta quarta, 7 de novembro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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