Sunset Strip, divertido, detalhado e duro documentário sobre o Boulevard Sunset Strip

por max 23. maio 2014 10:09

 

O Sunset Strip de Los Angeles se encontrava, no início, nas fronteiras da cidade, não estava incorporado a jurisdição do condado de Los Angeles. Mas ao longo do tempo foi se transformando em uma área mais ou menos estranha à lei, de regras relaxadas. Nos anos 20, 30 e 40 o Strip foi um lugar de portas abertas ao contrabando. Durante este período surgiram restaurantes e clubes de luxo que convocavam o melhor e o pior da sociedade daqueles anos. Ciro´s, Trocadero, Mocambo eram lugares sofisticados onde se apresentavam artistas de primeira linha. Nestes lugares circulavam pessoas da lei e de classe alta, mas a relação com a máfia também estava presente. Então, nos anos 60, o Strip mudou de público e de donos. Foi o centro da contracultura hippie em Los Angeles. Em novembro de 66 tentou impor um toque de recolher, o que afetaria os negócios noturnos da região, e isso gerou protestos e confrontos entre jovens hippies e a polícia. Nos anos 80, o Boulevard deu outro salto e passou para a música disco e glam metal. Sem dúvida, sempre foi um lugar vital, que sofre mutações.

E é sobre isso que fala o documentário Sunset Strip (2012), dirigido por Hans Fjellestad. Um trabalho que explora a história e a vida deste famoso Boulevard, com entrevistas com personalidades, como Johnny Deep, Ozzy e Sharon Osborne, Tom Arnold, Dan Aykroyd, Alice Cooper, Sofia Coppola e Peter Fonda. Sunset Strip faz uma viagem profunda pelo lado iluminado e divertido do Strip, mas também por seu lado secreto e obscuro, pois entra nos detalhes sobre a morte do jovem ator River Phoenix (irmão de Joaquín Phoenix) e também de John Belushi, que morreram no Boulevard (por excesso de drogas); um em plena rua, e o outro, em um dos hotéis mais chiques da região.

Sunset Strip, terça 27 de maio, no Max.

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Sunset Strip, ou o lugar de paradoxos

por max 24. setembro 2013 11:56

 

Boulevard vem do holandês, bolwerk, que significa fortaleza, uma palavra antiga que junto com uma leva de outras palavras, sofreu uma série de modificações em seus significados.

Mas vejamos: ao final da Idade Média e da queda simbólica, mas também real, de um de seus maiores signos, o castelo, toda a periferia, o fosso, as ruas próximas ao muro, tanto fora como dentro, tudo aquilo que cercava o burgo fortificado (burgo era entendido como a cidade fortificada) se transformou, se abriu, quebrou, virou estrada, ruas. Estas estradas que rodeavam o castelo e que marcavam a distância para o próprio castelo, tornaram-se parte da cidade e serviram para conectá-la a suas áreas mais distantes.

O burgo fortificado passa a ser o burgo aberto, o burgo do burguês, daquele que, apesar de vir do bairro fortificado, já não vivia em confinamento criado pela nobreza. O burguês se separava assim de uma história que não era sua e o burgo agora era uma cidade, um espaço aberto. Já não pertencia à era medieval. O burguês era um homem novo que produzia coisas novas para ele mesmo, para a cidade e para outras cidades. Do que mais precisavam? Se comunicar, se mover, precisavam de ruas. No entanto, as cidades permaneceram medievais durante muito tempo.

Em meados do século XIX, com Napoleão III e o barão Haussmann, a Paris Medieval se transformou e abriu espaço para a grande cidade dos jardins e boulevares. A burguesia aumentava seu poder e se deliciava com uma cidade mais limpa, mais cuidada, de estética triunfal. Novos esgotos, novas avenidas, novos prédios, ruas mais amplas e largas.

O labirinto de ruas medievais desaparece, mas também desaparece – ou se reduz – a possibilidade de protesto e rebelião. As ruas medievais eram ideais para as barricadas, para as fugas no labirinto. O boulevard não permite isso. Assim, a nova cidade se transforma em uma nova cidade de muralhas, não físicas, mas estratégicas. A possibilidade de revolta se reduz e as classes trabalhadoras são relegadas à periferia.

No centro tudo é belo, o centro da resistência, o centro fortalecido de si mesmo graças à inteligência do novo desenho que entende o espaço que envolve os cidadãos como uma nova forma de domínio. Os espaços, as distâncias podem levantar muralhas. Poderíamos pensar a partir da perspectiva de Michel Focault no panóptico, ou seja, o poder exercido através da vigilância institucionalizada, neste caso, a urbana. A cidade é um espaço de amplitude visual, não tem onde se esconder.

O boulevard é um espaço para observar, ser observado e ser vigiado. Por trás da amplitude e liberdade do boulevard está a vigilância, a disciplina. O burguês faz parte de um grupo – é seu dever fazer parte – é alguém que não é visto ou singularizado dentro do grande boulevard, alguém que passa despercebido. O boulevard cumpre assim sua função normativa, reguladora, "panóptica".

Mas agora vamos a outro paradoxo. E é o mesmo que observa Foucault: o padrão individualizado. Nesse lugar onde todos são observados, controlados, disciplinados, a falta cometida é individualizada. A lei o observa e indica seu nome para castigo e exemplo. Esse processo de individualização acaba escapando – com certo prazer – destas observações panópticas e acaba ocorrendo por fora dela, tendo vida própria dentro de suas dobras ou bolhas ou esconderijos particulares.

Aquele que se percebe vigiado levanta-se, torna-se rebelde, entende a si mesmo como indivíduo e se faz ver entre os outros que também se individualizaram na rebeldia. Estes personagens normalmente não vão se movimentar dentro do grande boulevard iluminado. Ou sim, mas em outro que não seja iluminado pela lei. Este é o caso do Boulevard Sunset Strip, em Los Angeles.

O Sunset Strip, apesar de ser um boulevard, estava na periferia da cidade. Por estar localizado além das fronteiras da cidade, não estava incorporado à jurisdição do condado de Los Angeles. Quer dizer, o Sunset Strip era uma área fora dos olhos vigilantes, uma área de regras relaxadas.

O paradoxo: aquela ampliação, mas, sobretudo, aquele alargamento que fez do boulevard um panóptico, também contribuiu para que o Sunset Strip, desde sua criação, fosse um lugar das exceções, dos indivíduos rebeldes, da ilegalidade e, claro, das artes. Nos anos 20, 30 e 40, o Sunset Strip foi um lugar de contrabando. O lugar da máfia e seus negócios. Durante este período construíram restaurantes e clubes de luxo que atraíam o melhor e o pior da sociedade daqueles anos; os chamados ricos e famosos.

Ciro´s, Trocadero, Mocambo eram clubes sofisticados onde se apresentavam artistas de primeira linha (a arte e o ilícito, a arte e o prazer). Embora estes negócios fossem legalizados e de classe alta, a relação com o submundo e o pensamento divergente, ou simplesmente fora do comum, estavam lá presentes. Nos anos 60, o Strip mudou de público e de donos, mas não mudou sua relação com o poder.

Nos anos 60, o Strip foi o epicentro da contracultura em Los Angeles. Flower Power, Paz e Amor. Sem guerra. Drogas. A rebelião dentro do panóptico. Também podemos lembrar dos distúrbios de novembro de 66, quando a área teve um toque de recolher que afetaria os negócios da noite, gerando protestos e enfrentamentos entre a massa de jovens hippies e a polícia. Nos anos 80, o Strip deu lugar à música disco e ao glam metal.

É preciso dizer, então, que a ideia de fortaleza ou da preservação dela nunca desapareceu. Mas, sim, estava lá, mas ao contrário: o Strip foi o reduto espiritual murado daqueles que se concentravam na periferia, daqueles que estavam individualizados e, de certa forma, rejeitados pela grande máquina da normalidade. Nesta fortificação, sem dúvida, era possível ser individual sem penalização, era possível deixar-se ver sem medo de ser apontado pelos vigilantes.

O Strip funcionou como um panóptico no negativo, ou um panóptico cujos vigilantes acusariam a diferença da igualdade exterior. O estranho no panóptico Strip seria a normalidade, porque essa normalidade não produz o desejo, o prazer e a arte que a própria regra do lugar impôs. O filósofo francês Gilles Deleuze falou do desejo como um produtor de sementes. Segundo Deleuze, toda sociedade normalmente vem do desejo.

Neste caso em particular, o desejo é uma força artística e marginalizada para fora e volta a se marginalizar deliberadamente depois de ser expulsa do centro. Sua condução, sua felicidade, é o marginal. Mas o marginal criativo, o marginal consciente de si mesmo. Deste modo, o boulevard volta a ser uma fortaleza e um lugar de liberdades, um lugar de vigilâncias. Um lugar de paradoxos.

Terça, 24 de setembro, confira dentro do ciclo de documentários dedicados às artes, Sunset Strip (2012), dirigido por Hans Fjellestad. Um trabalho que explora a história e a vida deste famoso boulevard de Los Angeles, cheio de rebeldias, transgressões e paradoxos. O que você vê quando vê o Max?

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Documentários sobre arte, começando em setembro com El Gusto

por max 2. setembro 2013 04:47

 

 

Em setembro, o Max continua com sua promessa de um documentário toda terça-feira. Como estreia especial, teremos À Procura de Sugar Man (Searching For Sugar Man, 2012), de Malik Bendjelloul, filme ganhador do Oscar de Melhor Documentário. Este será exibido na terça dia 17. Mas também, tudo será dedicado às artes. Assim, teremos os documentários El Gusto (2011), de Safinez Bousbia, magnífica peça que reúne muçulmanos e judeus pela música; Pina (2011), de Wim Wenders, um passeio, ou melhor, um bailado através da dança contemporânea da figura de Pina Bausch; e Sunset Strip (2012) de Hans Fjellestad, um olhar para a famosa avenida de Los Angeles. As datas, 03, 10 e 24 de setembro respectivamente (lembrando que à Procura de Sugar Man será dia 17).

 

Mas, vamos falar um pouco de El Gusto.

 

El Gusto (2011), com direção de Safinez Bousbia, apresenta um grupo de músicos, muçulmanos e judeus, juntos, tocando um estilo musical muito particular. Esse estilo se chama Chaabi, um gênero popular da Argélia e que teve grande desenvolvimento durante os anos 50, ocorrido por causa da mistura de música berber, canções religiosas e cânticos andaluzes. Mas o ponto é que este grupo de músicos se reúne neste documentário porque a guerra os separou ao longo dos anos. Bousbia, que é argelina de nascimento, segue o caminho que marcou Wim Wenders e Nick Gould com Buena Vista Social Club em 1990, e reúne estes antigos músicos de ambas as religiões em um documentário emotivo e profundo, que estava na mente da diretora desde o ano de 2004. Um documentário que combina música chaabi, as histórias dos intérpretes, sua imigração, seu sofrimento ou sorte em outro país e, em geral, a história de casbah, ou o lendário bairro popular argelino daqueles anos em que eles eram jovens.

Não esqueça, El Gusto, terça, 3 de setembro. Arte, música, documentários, humanidade. O que você vê quando vê o Max?

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