A Ovelha Negra, ou o louco e a disciplina

por max 15. dezembro 2012 03:53

 

O italiano Ascanio Celestini é ator, dramaturgo e diretor teatral muito conhecido por lá. É representante também do teatro da narrativa oral, vinda dos contadores de histórias, com uma forte carga social. Ascanio Celestini ouve seus personagens, pessoas oprimidas, das periferias, vítimas, e logo destaca a voz deles em monólogos carregados de oralidade. É um teatro de escuta, digamos assim. Celestini passará três anos visitando, escutando as histórias da loucura, dos internos do sanatório. Com sua arte de escutar de vento em popa, foi acumulando e, finalmente, produziu uma peça de teatro, depois um livro e, então, seu primeiro filme.

A Ovelha Negra (La pecora negra, en el caso del film: 2010) é uma comédia dramática protagonizada pelo próprio Ascanio Celestini. Conta a história do personagem chamado Ascanio, que esteve internado durante toda a sua vida em uma clínica psiquiátrica. Está ali desde criança e já é adulto no final dos anos 60, a época do filme. Só sai de vez em quando para ir ao supermercado. Assim se alterna sua vida, do supermercado para a instituição.

O supermercado não está ali de graça. O mercado é um símbolo da mercadoria, do consumismo, daquilo que afasta o homem de si mesmo porque o mantém ocupado com coisas pequenas em série, segundo as ideias de Krishnamurti. Do outro lado do supermercado estão outros sinais de alienação, para seguir com a palavra de legado Guy Debord. Tais sinais são instituições da sociedade disciplinaria, para nos remetermos agora para Foucault. A disciplina, como forma de poder sobre o indivíduo, está refletida no manicômio (que, por sua vez, foi a escola de Ascanio… e a escola é, de fato, outra instituição disciplinar) e na religião. E digo religião como aquele lugar onde Ascanio está parcialmente recluso, se encontra dominado por religiosas. A religião, como uma das principais ferramentas do poder, está também representada sob o olhar do humor. Porque Celestini usa o humor, disso não cabe dúvida, e a partir do humor, questiona essas instituições. Esse questionamento não está isento de compaixão, mas se não houvesse a instituição (obviamente), não haveria o indivíduo que padece da dominação. Esse olhar compassivo consiste inclusive em uma reversão dos padrões. O louco é apresentado, em certos momentos, como um ser feliz, como um ser perfeito, que ao estar na instituição, transforma-se em um homem livre, despreocupado e em paz com respeito a todas preocupações do mundo exterior, com respeito inclusive àqueles que detêm o poder da disciplina, como por exemplo, as freiras, que, em seu fanatismo, parecem estar mais loucas do que Ascanio. Os loucos são os que estão "lá fora", os alienados dos mecanismos de disciplina, das freiras, dos cérebros do mecanismo. Apesar disso, também ali, nessa felicidade do louco, no olhar compassivo descobre outra articulação: a da tristeza. Aquele ser enclausurado, livre como uma criança, na realidade não é uma criança. É um adulto reduzido à criança e isso, não resta dúvida, é profundamente triste, para não dizer patético e perverso. A instituição maternal é, por sua vez, um monstro, um monstro que te reduz, que deixa de ser, lá no fundo, uma ferramenta do poder que anula a ovelha negra, a pobre da ovelha negra, que não é negra nada, que nem sequer sabe brincar, muito menor rebelar-se. Essa lamentável ovelha negra, que ficam repetindo pra ele desde pequeno para que acredite nisso, para que se transforme nisso. Esse é o grande engodo do poder.

A Ovelha Negra, neste domingo, 16 de dezembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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