Apenas os Jovens, ou os deuses perdidos contra o esquecimento

por max 4. fevereiro 2014 08:28

 

Elizabeth Mims e Jason Tippet são jovens e admiram diretores amados pelos jovens que amam cinema. Não é de estranhar que eles gostam de filmes de Gus Van Sant, ou de Larry Clark, e que, ao dirigir, realizem trabalhos estéticos parecidos aos destes diretores. Ser jovem é estar próximo dessas idolatrias, não é mal, é parte do processo de aprendizagem. No entanto, Mims e Tippet conseguiram dar um salto acima do que poderíamos chamar de admiração ou também homenagem, a partir da influência da imitação, e fizeram um primeiro filme que encontra seus próprios caminhos. Estamos falando de Apenas Os Jovens (Only The Young, 2012), um documentário que pega a delicada estética que vimos em Gus Van Sant em filmes como Elefante (Elephant, 2003), mas fica longe das obscuridades da alma juvenil que tanto atraem o mestre Van Sant. O tema de Mims e Tipper é, de fato, a juventude. Eles exploram o tema, mas sem o véu do medo, da preocupação ou do delírio de Van Sant ou Clark. Mims e Tippet vão até três skatistas e começam a segui-los, a registrar suas vidas além do óbvio, do que os adultos, por exemplo, conhecem. Eu sempre me perguntei o que faz um gato quando você não o vê, aonde vai, com quem se relaciona. Assim, do mesmo modo que a ausência dos gatos – essa espécie de mini deuses – é um mistério, a vida de um adolescente também pode ser. O que fazem esses garotos quando não estão em casa, o que conversam quando não tem adultos por perto, o que os inspira fora da escola? Apenas Os Jovens segue os rastros destes garotos e os encontra em seus prédios, numa casa abandonada, nas ruas, nas pistas de skate, em terrenos baldios, em uma cidade, em uma pequena cidade (Santa Clarita, Califórnia) mergulhada na depressão econômica. O ponto é que, ao irmos atrás destes gatos, atrás destes mini deuses, nós não encontramos uma vida sórdida, como poderíamos esperar de filmes produzidos sob o olhar ficcional de diretores como Van Sant ou Clark. Dentro daquela casa abandonada não tem drogas, nem nos quartos desta casa, nem nas casas deles mesmos existe sexo. Existem sim, hormônios fervendo, amor, ciúme, tem também confusões da vida (vamos, eles têm apenas quinze anos), mas não há degradação. Estes garotos que se vestem como skatistas, que de fato são skatistas, também são cristãos, e também acreditam no amor, e também são donos de certa mediocridade correta que, é claro, também poderia ser uma luz interior. Estamos diante de um documentário, nada é falso: assim eles são, garotos que circulam através da decadência de sua cidade e seu tempo. Não tem um monte de obscuridades, nem de loucuras com armas nas escolas, nem no abismo da droga; são garotos com sentimentos, com seus pensamentos estranhos, intensos, mas com tudo isso, a destruição não os ocupa. Eles são reais em um filme muito estilizado, maravilhosamente dirigido, que parece ficção, mas não é. Vamos vê-los andando em uma cidade cheia de espaços vazios ou abandonada, vagando como almas penadas, ocupando esses lugares que ninguém quer. São, voltando aos gatos, como deuses esquecidos em um mundo que já não precisa de deles. De fato, um dos garotos diz que eles são os deuses da cidade. O estranho é que estes deuses são jovens e não sabem bem como abraçar o mundo. Eles se preocupam com o momento, eles se preocupam com o pouco dinheiro que têm, se preocupam também com o futuro em um lugar sem futuro, e o domínio deles, desses deuses, é o abandono. Os meninos da América, que são temidos nos filmes onde a violência é um refúgio da loucura do país, neste filme são diferentes na necessidade de expressão, um silêncio que vagueia e que faz questionar suas próprias vidas. São garotos que estão aprendendo a crescer no meio de uma época cheia de dificuldades, de crises, de conflitos. São deuses deles mesmos no pequeno espaço que ocupam, e se encarregam de viver o momento. Este documentário é o momento, ele aproveita o momento. Além disso, no próprio documentário, em todos os documentários, são adolescentes que vivem para o momento e vivem também a insatisfação do que veem. Nem todo mundo acredita neste documentário, não agrada a todo mundo, é como um garoto que segue buscando suas verdades. Assim é o documentário como estrutura genérica, assim é o ensaio (tão próximo ao documentário), assim são estes garotos de Santa Clarita, Califórnia. São eles, estes jovens, os vagabundos e os deuses do esquecimento (nada mais impossível que um deus do esquecimento). E lá vivem, num mundo que não é deles, sendo que estão buscando a si mesmos. São como viajantes que chegaram a uma cidade abandonada e que começam a reconstruir o mundo sobre essas ruinas. O que vai sair de lá, o que é a alma desses novos habitantes? Temos aqui a pergunta para a qual buscamos respostas neles. O documentário não nos conta, deixa para nós mesmos, ali, no meio dessa estética que – fora do esquecimento – faz homenagem a grandes diretores independentes, mas que, ao mesmo tempo, se distancia de suas visões, para entrar, com calma e inteligência, em terras cheias de intimidade, de compaixão, de simpatia. Vagar é também uma forma de viajar. Talvez melhor, quando se é jovem.

Apenas Os Jovens, terça, 4 de fevereiro, no Max.

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Inquietos, ou paixões juvenis de Gus Van Sant

por max 8. março 2013 11:57

 

Gus Van Sant ficou por mais de três décadas explorando a inquieta alma juvenil e seus extremos. O mundo das drogas em Drugstore Cowboy (1989), a prostituição em Garotos de Programa (My Own Private Idaho - 1991), a loucura e o horror dos assassinatos nas escolas em Elefante (Elephant - 2003), a decadência, a pressão da fama e o suicídio de um jovem astro do rock em Últimos Dias (Last Days - 2005), a culpa de um skatista e o assassinato em Paranoid Park (2007).

Depois de flertar com grandes estúdios e dar um tapa na mesa do Oscar com Milk – A Voz da Igualdade (Milk) em 2008, o cineasta está de volta com as velhas obsessões em Inquietos (Restless – 2011), o drama de um jovem casal que vive rodeado pela presença da morte. Ela, Annabel (Mia Wasikowska), sofre de um câncer fatal (tumor cerebral), uma garota bela e doce, obcecada por Darwim e pássaros aquáticos. Ele é Enoc (Henry Hopper), um rapaz que tem o hábito de visitar funerais de pessoas desconhecidas e que também conversa com o fantasma (supõe-se que é um fantasma) de um kamikaze japonês. Ambos personagens esboçam uma maturidade resolvida apesar de tão jovens (idade que pressupõe inquietude do espírito), dada pela relação estreita com a morte, que os faz sentir finitos, e sua admiração pela existência. A maturidade alinhava todo o filme, mas também vem acompanhada dos conceitos do horror e da nobreza (daí o kamikaze), elementos que ajudam a enfrentar e assumir a morte. Assim, com esse retorno a um estilo muito indie, orçamento muito baixo, filme pequeno e delicado, Van Sant nos leva através do labirinto da morte e do amor; o amor como forma de combater a morte, e não morrer na vida exaltada pela paixão. A inquietude juvenil dos filmes de Van Sant continua aqui presente (restless, inquietude, por isso minha insistência com a palavra em todo texto), mas agora colorida por esse destino implacável – essa grande presença – que é o fim da vida. Inquietos é uma fábula romântica, mas ao mesmo tempo gótica, uma fábula mórbida, ao estilo de Gus Van Sant, ainda mais delicada do que muitas vezes o autor realizou.

Inquietos, domingo, 10 de março. Amor, morte, juventude. O que você vê quando vê o Max?

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Toda quinta de dezembro: música, cinema e alma

por max 6. dezembro 2012 04:48

 

 

A música está sempre presente. Os pitagóricos a incluíram entre as sete artes liberais. Para eles, era um conhecimento das Exatas, ao lado da geometria, astronomia e aaritmética. Em sua doutrina, a matemática e a música se uniam no conceito de harmonia, que significa proporção das partes em um todo. Assim, se estabelecia um paralelo entre os intervalos acústicos, base da música, e as distâncias que separavam os planetas. Universo, música e matemática estavam fortemente unidos neste pensamento filosófico nascido de Pitágoras. Havia, pois, uma música em silêncio nas esferas celestes, uma música que unia o Cosmos. A harmonia também estava na alma. No microcosmos e no macrocosmos, existia a música como elemento de apoio, como elemento gerador. Sob esta visão, a música é criadora, por assim dizer.

Se bem me lembro, e desculpem o salto, em O Silmarillion, de Tolkien, o canto dos ainur e de Ilúvatar cria o mundo. Diz-se que esta ideia de Tolkien foi inspirada em fontes ancestrais. Uma antiga lenda persa diz que Deus fez uma estátua de barro para inserir alma nela, mas a alma não ficava quieta. Assim sendo, para acalmá-la, Deus pediu para os seres celestiais cantarem uma canção. Essa canção fez a alma ficar tranquila dentro do corpo de barro. Os sufis, por outro lado, sustentam que Deus criou o mundo a partir do som. Nas religiões africanas, a música e os deuses estão estreitamente unidos. Hoje em dia, os deuses seguem soando na África e no Caribe.

 

 

 

No Japão, há outra lenda de criação e música, que vou relatar rapidamente. A história fala de Amaterasu, a deusa do sol. Ela vivia fechada numa caverna, enquanto que o mundo lá fora era frio e sem vida. Cansada do silêncio, a deusa pegou seis arcos e fez a primeira harpa. A deusa tocava aquele instrumento e, certo dia, outra deusa, Ame-no-Uzume, atraída por aquela música, começou a dançar e cantar. O canto chamou a atenção da deusa Amaterasu. Sua curiosidade foi tamanha que decidiu sair da caverna. Ao fazê-lo, sua luz encheu o exterior e então o mundo se fez, o mundo foi criado, com suas plantas e seus animais e seus homens. O crítico de Jazz e estudioso da música Joachim-Ernst Berendt's fala melhor que eu disto em The World Is Sound: Nada Brahma.

Mas continuemos. Nietzsche escreve, em seus primeiros trabalhos, O nascimento da tragédia. Este livro poderoso fala sobre as forças dionisíacas e as apolíneas, e sobre Wagner. A música, para aquele Nietzsche, era o que salvava o homem no mundo. Santo Agostinho também falou da música. Viu a música, primeiro, a partir do ponto de vista filosófico, de forma muito próxima dos pitagóricos e da sua perfeição harmônica. Logo, com o passar dos anos, volta a meditar sobre o tema, e, desta vez, o faz a partir de sua visão religiosa, contemplativa. Então, a música para Santo Agostinho converte-se em um caminho para alegrar a Deus, para estar com Deus.

 

 

A música como ente sagrado, a música como elemento para o sagrado está ali presente, em todos estes pensadores, em todas estas histórias. Assim a seguimos entendendo hoje em dia. A música tem algo que nos leva além. Não é somente entretenimento. Mas também a música, despojada dessa sacralidade, a música em nosso mundo profano ou laico, mesclada com rituais não sacros e drogas, se converte em um elemento destruidor de todas as luzes. Com o poder, com o maior, não se pode jogar, porque ele te destrói. Rudolf Otto falava do iluminado, uma energia poderosa que repele e, ao mesmo tempo, fascina, que inspira e, ao mesmo tempo, pode destruir.

Assim, pois, quem enfrenta o iluminado sem estar devidamente preparado pode ser destruído. Lembremos de Rilke quando falava dos anjos. Dizia: "Todo anjo é terrível". Dar para ele a cara de sagrado pode ser terrível, pode acabar contigo. Ainda que também pode ser que essa acareação com o sagrado, e que esse deixar-se destruir possa ser consciente. Possa ser inclusive uma forma de purificação profana.

 

 

Contudo, a música sempre terá esse poder. Ela levou mais de um para o abismo e para a morte. Os senhores do rock padeceram de tais enfrentamentos. Jogaram-se nos abismos da música com os olhos fechados, e alguns não voltaram. Nunca souberam? Ninguém os avisou? Ninguém sabe. Alguns ignoraram. Outros, mais inteligentes e mais trágicos, talvez sem saber o que os esperava, e ainda assim se atreveram. São os temerários da música, os filhos da música. E já disse isso acima: talvez neles, o sacrifício profano seja uma forma de purificação profana. Quem sabe. A música levou-os, isso sem dúvida.

Este mês, o Max apresenta, nas quatro quintas-feiras de dezembro, a experiência da música como ente sagrado e ente destruidor, como fonte de luz e fonte de obscuridade luminosa.

Quinta, dia 6, os últimos acordes de um vazio ídolo do rock em Últimos Dias, de Gus Van Sant. Na quinta seguinte, dia 13, os redobres e o som das botas militares em Pink Floyd The Wall, e dia 20, o melhor guitarrista de todos os tempos no documentário Jimi Hendrix. Na última quinta do mês, dia 27, um piano branco, um tema imortal de um músico igualmente imortal: Imagine: John Lennon.

São quatro filmes, quatro visões dessa relação entre o homem e a música, tão próxima, tão terrível, tão violenta, tão bela. Somente em dezembro.

Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

Politécnica, A loucura surda

por max 25. abril 2012 05:37

 

Seguindo o rastro e as preocupações marcadas em produções como Tiros em Columbine (Blowling for Columbine, 2002), de Michael Moore, e Elefante (Elephant, 2003), de Gus Van Sant, o diretor canadense Denis Villeneuve (Redemoinho e Incêndios) lançou, em 2009, Politécnica (Polytechnique). O filme é inspirado no massacre que ocorreu na Escola Politécnica de Montreal, em 6 de dezembro de 1989, quando um homem chamado Marc Lépine entrou e assassinou 14 mulheres, alegando que o feminismo havia desgraçado sua vida.

Em branco e preto, com música minimalista e poucos diálogos, Denis Villeneuve apresenta os fatos, sem julgar, sem intervir, sem explicar nem sequer os motivos do assassino. Por que ele fez isto? Vive-se, sem dúvida, em tempos de múltiplas vozes, de múltiplos discursos: feminismo, ecologia, pacifismo, etc. O feminismo se elevou com força e pôs a mulher em outro patamar. A razão, a justiça, o direito, a igualdade já ganharam seu espaço. Mas também, parece dizer o diretor, vive-se tempos da loucura absoluta - dos sem sentido, dos sem razão. Às vezes, nos momentos menos esperados da existência, parece explodir a loucura assassina que tira a vida sem explicações. Algo está mal. Alguma coisa, em alguma parte, está mal. O que se esconde, não atrás da solidão, mas atrás da alienação do homem? Parece que é cada vez maior a distância entre as pessoas. Cada vez, o mundo pisa mais e mais, afunda, separa. A expatriação da alma é, sem dúvida, uma terrível forma de ofensa, de humilhação. O que se acumula nesse lugar, nesse tempo de alienação, explode. Explode sem explicações. Explode e se equivoca, mas explode, gera violência, morte, loucura, dor.

Em Tiros em Columbine perguntam a Marilyn Manson o que ele diria aos rapazes que perpetuaram o massacre. Manson responde que não diria nada, que os escutaria. Talvez isso faça falta ao mundo, mais ouvidos que escutem.

Politécnica, nesta quinta-feira, 26 de abril. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Últimos Dias, ou o fracasso da contracultura

por max 4. abril 2012 10:12

 

Grunge comercial-contracultural

Never Mind, do Nirvana, Ten, do Pearl Jam. Estes são os dois álbuns, estas são as duas bandas que deram vida ao grunge. E o grunge, sim, é um estilo musical: é indie rock, com heavy, com punk. É rock alternativo, é a paz e é o grito, é o vazio e é a explosão no vazio. Porque o grunge é também uma atitude de vida: contracultura sim, mas contracultura que, apesar de tudo, torna-se comércio, sucesso social. Enquanto isso, a alma punk estava cheia de raiva, mas entendia que essa raiva era uma maneira de mudar o mundo, o grunge explodia a partir do silêncio, do vazio de uma alma que não acredita em nada e se reconhece vencida desde o início. O grunge explode a partir da descrença do mundo. Não pode ser mudado, nada serve, mas aqui estou eu, gritando o meu nada ao nada. O grunge, já se disse, é a contracultura derrotada, a contracultura que aceita sua derrota e que, sabendo-se derrotada, se deixa arrastar pelo mar dos dólares, das multidões, do capitalismo, para terminar crucificada em seu próprio vazio, vazio enojado do mundo. Não acreditam em mim? Falemos então da grande estrela contracultural morta.

 

A grande estrela contracultural morta

Vem aí a grande estrela contracultural morta, aqui vem vestido de mulher, com a cabeça baixa, chorando pelas esquinas, sem lágrimas para derramar. Vem aí a grande estrela contracultural morta; sabe, desde o princípio, que fracassou. Mas se deixa levar, se deixa levar, porque a gravidade pertence a ela. A gravidade e a grande estrela contracultural morta. A gravidade, a queda, a silenciosa queda, que termina em estrondoso cheiro de pólvora. Ao final, o que sobra é causar danos. Ferir-se é o prazer máximo, o prazer máximo é matar-se. Nihilismo, estoicismo, a grande estrela contracultural morta sabe disso, ou sabia. A grande estrela contracultural morreu em 8 de abril de 1994. Quem a encontrou foi um eletricista que chegou para instalar um novo sistema de segurança em seu chalé com vista para o lago Washington, ao norte da cidade de Seattle. Nem a vida do lago salva, porque a grande estrela contracultural morta estava morta, rodeada de uma enorme poça de sangue. Havia tomado uma overdose de heroína e depois explodido a parte esquerda da cabeça com uma espingarda Remington de calibre 20. Isto é o que contam as notícias, e assim repetem Joseph Heath e Andrew Potter em Lucro Sujo (Taurus, 2005). Os autores também falam sobre este assunto da estrela contracultural morta:

 

"Kurt Cobain matou Kurt Cobain. Mas o cantor do Nirvana também foi vítima de uma ideia falsa: a teoria da contracultura. Ainda que se considerasse um músico punk, um roqueiro dedicado a fazer música 'alternativa', havia vendido milhões de discos. Em grande parte foi quem propiciou que a música, antes denominada 'hard rock', fosse rebatizada como 'grunge', um rótulo muito mais comercial. Mas, ao invés de sentir-se orgulhoso, esta popularidade sempre o envergonhou. Tinha a consciência pesada por 'ter se vendido às multinacionais'."

 

O leitor-diretor grunge

Gus Van Sant é um mito do cinema independente. Tem esse talento para abordar temas espinhosos contemporâneos e, ao mesmo tempo, tem também isso que o faz estranhamente comercial. Isso como se fora um diretor grunge. Gus Van Sant sabe ler no nihilismo, no estoicismo ou no vazio da contemporaneidade. Sobretudo, na alma desses jovens vazios, encurralados, perdidos nestes tempos inexplicáveis, onde até a contracultura é parte do sistema. O sistema perfeito, a máquina perfeita. A exceção será tragada, absorvida, e a exceção não se "sente" cômoda com o lugar que lhe foi designado, que se exploda e seja eliminada. Que se acabe (e aos quantos mais que se apresentem), entre vícios, paixões desenfreadas e armas. No final, a exceção, esse brinquedo quebrado, desaparecerá, e o sistema seguirá funcionando. Gus Van Sant, incrível clarividente, deixa ver isto em seus filmes. Lembremos de Drugstore Cowboy (1989), Garotos de Programa (My Own Private Idaho, 1991), Elefante (Elephant, 2003), Paranoid Park (2007) e, claro, Últimos Dias (Last Days, 2005).

 

Os últimos dias

Em abril, o Max nos traz, de Gus Van Sant, Últimos Dias, uma recriação dos momentos derradeiros do vocalista do grupo Nirvana, Kurt Cobain. Nesta quinta-feira, 5 de abril, reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Estrada de Rei, ou as rotas de Valdís

por max 1. novembro 2011 07:38

 

Quando digo Valdís, você não lembra de nada, não é?! Se digo que Valdís é um nome, então não sabemos se trata-se de homem ou mulher. Se digo Valdís Óskardóttir, esse Óskar nos faz pensar em homem. Mas não, Valdís é nome de mulher. É um nome islandês e, para aprofundarmos o tema, Valdís remete a nomes como Thomas Vitenberg, Gus van Sant e Michel Gondry. Por quê? Porque Valdís é montadora. E uma montadora das boas, das melhores, porque para trabalhar com estes nomes tão importantes, teria mesmo que ser. Nada mais, nada menos que com um adepto do Dogma (foi a montadora de Festa de Família / The Celebration, de 1998, primeiro filme realizado pelo grupo Dogma 95, encabeçado por Thomas Vitenberg e Lars Von Trier), com um louco norte-americano, que nada nas águas do cinema independente e no cinema comercial com filmes como Drugstore Cowboy, Garotos de Programa (My Own Private Idaho), Elefante (Elephant) e Procurando Forrester (no qual Valdís trabalha) e com um diretor francês de comerciais, vídeos e filmes tão alucinantes como A Natureza Quase Humana (Human Nature) e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind). Mas Valdís também é diretora. Em julho, vimos no Max seu trabalho O Grande Dia (Country Wedding, 2008), a história de um casal de Reykjavik, que decide se casar no campo, e acaba enfrentando uma série de conflitos, segredos e alegrias familiares no ônibus onde estes noivos viajam com todos os convidados da festa. Um filme fatal e ao mesmo tempo divertido, com muito da herança de câmera na mão deixada pelo Dogma.

Este mês, voltaremos a ver o trabalho de Valdís Óskarsdóttir, graças ao filme Estrada de Rei (Kóngavegur, 2010), uma comédia (esse humor da diretora, triste, humor negro sempre está ali no fundo) com profundas marcas de drama, que nos mostra a face mais patética e empobrecida de um país como a Islândia. Na história de um retorno, um filho que volta para buscar ajuda do pai de quem se lembra como um banqueiro bem sucedido, mas que o acaba encontrando em um parque de trailers, totalmente arruinado, casado com uma deprimente ex-rainha de concurso de beleza, cercado por um bando de idiotas e pela decadência. São os personagens da periferia, os abortados da sociedade. Ali, a diretora foca, ali ela se aprofunda, ali também se diverte com seu particular senso de humor, para mostrar esse mundo, para falar de um país tão longínquo e desconhecido por nós. Ao conhecer estas pequenas histórias, entendemos que a Islândia é como qualquer parte do mundo, que seus sonhos e seus pesadelos são os de todos, de todos os seres humanos.

Estrada de Rei, quinta-feira, 2 de novembro, no Max.

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