Conflito das Águas, ou os paralelos da história

por max 9. novembro 2012 14:08

 

O homem moderno entende que a história não é cíclica, que não há elementos do pensamento sagrado que nos façam voltar às origens nem repetir certos acontecimentos por predestinação ou nada parecido. Contudo, a história moderna aceita, sim, que há certas constantes que se repetem em determinados momentos históricos e em lugares diferentes. Há certos padrões que obedecem causas muito complexas e que, claro, têm a ver com a essência do homem, com o uso excessivo do poder, com o abuso da liberdade. Para a ficção, tais repetições ou paralelos são muito atraentes, inclusive sob uma perspectiva quase mágica. Parece que a ficção, sim, se permite usar desse pensamento sagrado, dessa concepção cíclica. Há algo na literatura que abraça a magia com imprudência. O filme Conflito das Águas (También la lluvia, 2010), da diretora, roteirista e atriz espanhola Icíar Bollaín (Pelos Meus Olhos/Te doy mis ojos, Mataharis), assume a chamada narração no abismo, a de uma história dentro de outra história, para nos mostrar a crua realidade de um paralelo histórico que nos leva a uma compreensão do abuso do poder.

As filmagens de um épico sobre um Cristóvão Colombo cruel com os índios e faminto por ouro se desenvolve ao lado da chamada Guerra da Água, que aconteceu na Bolívia no ano 2000, guerra que não foi literalmente uma guerra, mas sim um grande protesto em Cochabamba contra a privatização do serviço de água por parte de uma companhia multinacional. As semelhanças ficam mais que claras. O poderoso, em seu abuso de liberdade, sempre desejará tudo para ele e sempre cometerá seus piores abusos exatamente onde a inocência das pessoas é maior. Porém, dentro dessa compreensão da história moderna, Bollaín honra a carga mágica da ficção e não fica apenas no simples paralelismo. Entende que os tempos mudam, e também os homens, os povos, e relata a luta daqueles cidadãos que combateram a privatização da água, daqueles que lutaram, que sofreram, que padeceram, mas também triunfaram.

Protagonizada por um grande ator espanhol como Luis Tosar, e pelo astro mexicano Gael García Bernal, Conflito das Águas transita sob as diretrizes do roteiro do veterano Paul Laverty, roteirista próximo de Ken Loach, um dos cineastas mais representativos do realismo social britânico. Não é de se estranhar, então, a forte corrente social que atravessa o trabalho de Bollaín. Nem é razoável, partindo de García Bernal, protagonista de Amores Brutos (Amores Perros), filme de relatos entrelaçados, pensar em uma certa influência de Alejandro González Iñárritu e seu roteirista Guillermo Arriaga.

Conflito das Águas teve justificado sucesso nos festivais de cinema internacionais como drama forte que é, preocupado com os temas sociais dentro do tema dos abusos de poder contra os mais desprotegidos. Assista a sua estreia exclusiva neste domingo, 11 de novembro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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Cinema na Catalúnia, ou os lugares levados para dentro

por max 9. dezembro 2011 07:49

 

Contar sobre um mundo, uma região, um lugar. Porque se nasceu ali, porque se vive ali, porque se sente que o que está ali pode ser de significado universal. Este mês, o Max traz dois filmes que transcorrem e, de alguma forma, falam sobre lugares, sobre a humanidade dos lugares. Porque os lugares têm sua forma particular de ser, temperamento, alma. Sua situação geográfica, seu clima, seu crescimento urbano, sua história o determinam; inclusive determinam o tipo de pessoas que nesse lugar nascem, vivem ou vão viver. Esses lugares, porém, podem ser tão complexos como o olhar que quer entendê-los, opostos, díspares, extremos. O que um vê não é o que o outro vê, a relação desta pessoa com aquele lugar não é idêntica à sua. É assim: um lugar é como uma pessoa. Desfrutamos, sofremos, amamos, odiamos o lugar. O lugar é o outro e é você também. Suas relações com o mundo te definem, te descrevem. Diga-me com quem andas e te direi quem és, diga-me o que comes e te direi quem és, diga-me o que vestes e te direi quem és, diga-me onde vives e te direi quem és.

Este mês, o Max escolheu uma pequena mostra de dois filmes que nos apresentam o cinema feito na Catalúnia. E vale ressaltar: trata-se do cinema na Catalúnia, e não da Catalúnia, porque um dos dois filmes foi dirigido por um mexicano de renome internacional, Alejandro González Iñárritu, e o outro, por Agustí Villaronga, que viveu quase toda sua vida em Barcelona, mas é de Mallorca. Porque é assim, os lugares existem nas almas portáteis. As pessoas levam esses lugares dentro delas e se apropriam desses lugares.

As duas datas e os dois filmes que o Max apresenta, este mês, dentro do especial Cinema na Catalúnia são:

 

 

 

Domingo, dia 11 de novembro, Biutiful (2010): Quarto longa-metragem do mexicano Alejandro González Iñárritu, desta vez sem o diretor Guillermo Arriaga, com quem González Iñárritu teve um conflito já superado, no qual Arriaga argumentava que era tão autor dos filmes como aquele diretor. Mas deixando pra lá esse "diz-que-diz", o certo é que González Iñárritu trabalha aqui com dois roteiristas diferentes e nos apresenta uma obra sem saltos lineares (como costuma fazer Arriaga em seus trabalhos de direção), mas não menos complexa em seus enfoques. O cineasta mexicano volta a trabalhar com um de seus temas prediletos: o mundo contemporâneo e a multipolaridade. Neste caso, estamos em Barcelona, um lugar de encontro de múltiplas raças e culturas. Mas não pelo turismo, não pela fascinação da cidade; o que González Iñárritu faz é centrar-se na vida que está do outro lado da tela, ali no bairro de Santa Coloma, onde, por exemplo, chineses, senegaleses e catalães fazem negócios ilegais e onde a miséria e a ambição unem a todos por igual. No meio disso tudo, aparece Uxbal, interpretado magistralmente por Javier Bardem, que é, sem dúvida, um dos atores mais completos da atualidade. Bardem sabe dar a Uxbal uma humanidade comovente. Não me resta dúvida que nas mãos de outro ator menos dotado, este personagem poderia ficar um fiasco de excepcionais inverossimilhanças: Uxbal tem câncer, lhe deram poucos meses de vida, é amargurado, é cruel e delinquente; mas, ao mesmo tempo, tem dignidade, valor, beleza e, além disso, possui poderes sobrenaturais, porque pode falar com os mortos. Há, sem dúvida, algo de mexicano em Uxbal. Seu nome nos remete, sem quebrar muito a cabeça, ao antigo mundo maia, assim como essa capacidade para falar com os mortos, que também se relaciona ao famoso realismo fantástico latino-americano. Não sei se a direção estava focada originalmente para um ator mexicano. Talvez a história poderia ocorrer em qualquer lugar dos Estados Unidos com forte presença de imigrantes mexicanos. Mas acredito que isto não importa muito: acho que a intenção de González Iñárritu foi precisamente mostrar uma vez mais como o mundo inteiro é uma gigantesca e atroz Babel. A alma de Uxbal é inteiramente uma Babel. Paradoxalmente, o que se apresenta como multipolar acaba sendo absolutamente local. É o mesmo que dizer que os homens são iguais em todas as partes, porque nossa contemporaneidade é uma grande plateia onde todos estão conectados. Os sentimentos universais são sentimentos locais, sentimentos de todos. O drama e a tragédia são iguais para todos. A morte sempre estará ali (o câncer de Uxbal), a morte que nos coloca a todos aos seus pés. Mas a morte também nos tira aquilo que irmana a todos, lá no fundo: a necessidade do bem, a necessidade de transcender, deixando algo de valor.

Biutiful, de Alejandro González Iñárritu, no domingo, 11 de dezembro.

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Segunda-feira, dia 12 de novembro, Pão Preto (2010): Agustí Villaronga constrói uma história baseada em um romance e alguns relatos do escritor Emilli Texidor. Villaronga (Prisão de Cristal, El Niño de la Luna, El Crimen del Cine Oriente, O Mar, Aro Tolbukhin: en la Mente del Asesino) não é um diretor de histórias fáceis, ele sempre exerceu a função de franco-atirador do sistema e se move entre gêneros, usando como uma constante as obscuridades da alma humana. Com Pão Preto, ficamos diante de outro de seus filmes de perfil obscuro, que nos remete à história de crescimento juvenil. A trama do filme gira em torno da iniciação da vida, da perda da inocência, mas a partir de uma perspectiva completamente diferente, o que faz também particular a visão super-explorada no cinema espanhol sobre o tema e o cenário do pós-guerra. Villaronga se aproxima de tudo isto com a visão, com sua visão, onde a mentira e a corrupção dos ideais se convertem no pivô fundamental que determinará a personalidade do jovem Andreu. O contraste de seu mundo mágico e infantil choca-se com uma dura realidade que fica, às vezes, não menos inacreditável que o próprio mundo de Andreu, mas no sentido negativo. O mundo adulto do pós-guerra lembra-me um quadro de Bosco, a face horrorosa de um mundo mágico que, como já assinalei, não é mágico, mas sim horrivelmente verdadeiro. Neste sentido, Pão Negro está na linha de O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro, mas sem o desdobramento dos efeitos especiais. Em Pão Negro não existe um mundo paralelo nem maravilhoso, mas sim uma realidade cheia de mentiras, mortes e dor que vai esmagando a bolha espiritual da inocência. Crescer em meio aos estragos da guerra pode ser terrível.

Pão negro, nesta segunda-feira, 12 de dezembro, no Max.

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