Woody Allen, ou Nova York, a comédia e o amor como ícones do cinema

por max 18. novembro 2011 12:29

 

Um cara atrapalhado que faz um filme por ano

Woody Allen está há 44 anos fazendo cinema e, desde 1984, vem realizando um filme por ano, sem faltar um só ano. Começou com essa sequência em 1977, mas não lançou nada no mercado em 1980. Não resta dúvida que, desde 1984, tem feito um filme por ano. Ou seja, Allen conta com mais de 40 filmes! Bastante, muitíssimo para aquele gazeteiro que não passou em nenhuma das matérias de cinema em sua distante juventude, e cujos professores inclusive duvidaram de sua sanidade mental. De fato, um deles recomendou a ele ir ao psiquiatra, único assunto ao qual Allen obedeceu. Desde aqueles dias, o diretor não falta às consultas com o médico que cuida de sua mente. Claro, alguém pode dizer que isso de fazer um filme por ano é coisa de louco. E também alguém dirá que a quantidade não se sobrepõe à qualidade, mas ninguém, absolutamente ninguém, pode negar a transcendência do cineasta e a importância de filmes como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall), Manhattan (Manhattan), Zelig (Zelig), Broadway Danny Rose (Broadway Danny Rose), A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo), entre outros tantos.

 

O camaleão Zelig

Uma das coisas que mais impressionam em Allen é sua capacidade para movimentar-se, para saltar de um gênero para outro, sem deixar de ser ele mesmo. Da leveza da comédia ao peso dramático, deixando sempre sua marca. Ele é, como Zelig, seu próprio personagem desde 1983, um camaleão, um cineasta multifacetado que, sem dúvida, nunca deixa de ser ele mesmo. Admirador de Groucho Marx e fã de Ingmar Bergman e de Federico Fellini, a alma de Allen é uma fusão de ideias, temas e estilos, onde poucas vezes falta a visão do humor. Claro, aqui poderíamos cair na suprema bobagem de achar que a comédia é um gênero menor, que não reflete profundidades. Mas Allen sempre nos fala da alma humana e é um notável admirador dos gregos, de sua mitologia e dos arquétipos. O mais fantástico nele é que, mesmo na comédia, a tragédia faz seu caminho. Allen entende que o humor é uma maneira de afrontar o mundo. Mas também é capaz, como já dissemos, de deixar o humor de lado e realizar uma história carregada de drama. O amor, as relações dos casais, com frequência configuram-se nas obsessões de suas histórias. Poderia parecer que Allen não entende de amor, que busca e pensa nisso tanto que chegou a ser, paradoxalmente, um especialista no tema. E se falamos do amor como culpa, muito mais. A culpa e o amor são dois grandes temas humanos, muito judaico-cristãos, e que, sem dúvida, apaixonam Allen, tanto que ele os tem explorado em todas suas etapas e em todas suas variantes. O amor e a culpa, o amor e o crime passional, o amor e a separação. O amor como fracasso, o amor como mistério, como impossibilidade, como perdição, mas, ao mesmo tempo, como beleza suprema e única razão da vida. Allen é um diretor complexo, não tende ao maniqueísmo, e isso o faz grande. Seus personagens, até o mais caricato deles, têm profundidade. E esse é, talvez, um dos seus maiores êxitos: fazer com que a caricatura tenha alma. E quando se trata da comédia, a caricatura instala-se na luta contra o clichê que está no amor e na mesquinhez da alma humana. Nada mais clichê nem mais difícil que contar histórias de amor, nada mais vulgar que a mesquinhez do homem. Mas é por trás disso tudo que Allen caminha, que se debate para combater o mau gosto, para nos presentear com a arte.

 

O começo foi o humor, mas depois também foi Manhattan

Aquele rapaz que estava mais preocupado em escrever boas piadas, citando suas próprias palavras, para zombar dos judeus e dele mesmo com o mais típico do humor judaico, começou escrevendo, precisamente, comédia com o filme O que é que há, Gatinha? (What´s New Pussycat?) em 1965, e em 1966 estava dirigindo O que é que há tigresa? (What´s Up, Tigger Lily?), um filme delirante, onde Allen realmente dirige somente os diálogos, pois o filme já existia; trata-se de uma produção japonesa de ação que Allen deixa igualzinha, apenas substituindo as falas. Depois continuou fazendo filmes carregados de comédia ácida e surrealista, e esta parecia ser sua marca e seu caminho, já que em 1977 começa a trabalhar com histórias que acontecem na cidade de Manhattan. Estamos falando de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1978), Interiores (Interiors, 1978) e Manhattan (Manhattan, 1979). Aqui, Allen encontra um novo nicho, separado da comédia: encontra sua cidade, e sua cidade começa a converter-se em tema. Ao mesmo tempo, com estes filmes, Allen fica mais introspectivo e aborda de maneira mais séria o tema amoroso. Desde então, e como já assinalei, Allen alternará e mesclará drama e comédia, sempre com uma delicadeza e um ritmo muito seu, muito fluido, que sempre deixa um grato sabor de vida vivida, de alegria recuperada.

 

Da Europa para casa

Nova York, personagens neuróticos, humor, sexo, relações de casais, um filme de Allen é facilmente reconhecível diante dos filmes de qualquer outro diretor. Até os mais recentes, menos famosos em sua filmografia e mais insistentes com o continente europeu, são filmes de Woody Allen.

Deste seu período de voltas pelo Velho Mundo, temos, sem dúvida, um que nos leva de volta à Nova York. Falamos de Tudo pode dar certo (Whatever Works), de 2009. Um velho roteiro que, como já dissemos em outro texto, ficou parado nos anos 70 e que Allen retomou nos últimos anos. Trata-se de uma história vivida por um triste Larry David, gênio cínico e amargurado que apaixona-se por uma garota e que, através dela, vai ao mundo material das relações familiares e de casais. Um filme de Allen que redescobre recantos de Nova York, que procura, que penetra nas verdades do amor (o amor homossexual, o amor de trios, o amor do homem maduro por uma mulher mais jovem) e, em geral, nos caminhos da honestidade e da felicidade. Toda uma peça que resgata o velho sabor de Manhattan e o velho sabor de um terreno conhecido e amado.

Não me resta nada a não ser convidar você a deliciar-se com a arte de Woody Allen nesta sexta-feira, 18 de novembro, com a comédia Tudo Pode Dar Certo como parte do ciclo Ícones do Cinema, no Max.

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