Jack Nicholson, ou um cara diabólico

por max 10. novembro 2011 05:03

 

Se fizéssemos cartas de Tarô com atores de Hollywood, certamente Jack Nicholson seria O Diabo. Mas claro, seria um diabo com sorriso dissimulado, brincalhão, simpático, sedutor, herdeiro desse Satanás que começou a configurar-se, pode-se dizer, desde o Renascimento, quando o homem começa a tomar consciência de si mesmo, de sua individualidade, pelo menos no que refere-se à arte. Tal como disse Rüdiger Safranski em Le Mal, o homem do Renascimento continua sua reflexão sobre Deus, que agora se acentua com orgulho consciente na "criação e liberdade que gritam nele". Safranski disse que era esse criacionismo, essa necessidade de criar mundos do nada, do sem forma, esse colocar-se à altura de Deus, "não podia ser considerada menos do que uma suspeita de heresia." O homem, necessitado de liberdade e criação, resultava maligno. Não é de se estranhar, então, que começara a configurar-se uma ideia distinta do mal, e por isso mesmo, do demônio. Os românticos também acreditam no descenso e vivem com o olhar vidrado no mistério. Esse caminho, obviamente, é obscuro. Por volta de 1800, as visões do mal já são outras. A visão do diabo também. No entanto, tal como disse Umberto Eco em A História da Beleza, já em 1667 John Milton redime Satanás, identificando-o como um modelo de rebelião contra o poder. Percy Bysshe Shelley, em 1882, por sua vez, diz em seu Defesa da Poesia que o demônio de Milton é superior ao Deus que ele enfrenta. Escreve Eco: "Satanás não se arrepende no sentido da honra, não aceita submeter-se a quem ele tenha vencido, e se nega a pedir perdão: "Melhor reinar no inferno do que servir nos céus". Estamos falando de um ser que nega entregar-se à escravidão, da energia de rebelião, um ser livre, um ser profundamente humano. Como não identificar-se com o anjo caído, com o libertário? Não esqueçamos que a mesma ideia do Iluminismo trai a semente da obscuridade. Ali está o homem culto, que enaltece sua inteligência, sua razão, ele que vai contra os poderes estabelecidos, do Estado monárquico. O demônio simpático se esgueira por baixo da porta. Com Jacques Cazotte e O Diabo Enamorado, a criatura do mal é uma mulher sedutora, apaixonada. Em Goethe, tal como apresentava Eco, mostra-se como um homem corretamente vestido, clérigo errante, intelectual. É um diabo dialético e convincente que atua sobre Fausto "como o gato com o rato". No século XX, Eco continua, esse diabo será completamente "laico". Em Os Irmãos Karamazov, é um gentleman russo. Para Giovanni Papini, é alto e magro, para Anthony Mann veste um boné inglês e parece um vagabundo com a voz e a dicção de um ator... Percebeu? Mann nos fala de um ator.

Nicholson, sem dúvida, acabou sendo o herdeiro, esse magnífico ator diabo. Com mais ou menos poder, com mais ou menos véus, Nicholson sempre interpretará, dará à luz aquele demônio que também grita na escuridão, com seus olhos. Inclusive, ele foi o diabo em pessoa em As Bruxas de Eastwick (1987), encantador, orgíaco, mas também um demônio cheio de maldade. No entanto, sua obscuridade mais demoníaca ele deixa brotar em O Iluminado (1980). O demônio da abstinência e o demônio da loucura possuem-no nesse filme de Kubrick, e levam-no a circular pelos salões do hotel Overlook com abertas conversas com seres condenados, malditos, diabólicos. Mesmo quando fez o astronauta aposentado em um drama, ele tinha algo de demoníaco. Sem falar de seu Coringa em Batman, de Tim Burton. Esse Coringa é um diabo que ri, e o riso, já havia dito Baudelaire, sempre teve algo de demoníaco, de espírito livre. A maldade de Nicholson fascina. É uma maldade que estava nele e que ele aprendeu a explorar desde seus primeiros filmes B com Roger Corman. Ali esteve durante quase uma década fazendo filmes de baixo orçamento. No momento em que começa a pensar em Sem Destino (Easy Rider), Jack não tinha grandes esperanças de sair daquele buraco existencial. Muito menos se esperava que Sem Destino se convertesse em um enorme sucesso de bilheteria. Era um filme de contracultura, concebido por um dos loucos cabeludos, com barbas e roupas encardidas, que bebiam sem parar, que fumavam maconha de montão e que usavam todo o tipo de droga. Para Peter Fonda nada importava, além de estar sobre sua nuvem de psicotrópicos, e Dennis Hopper estava "muito chapado", andava com duas armas e achando-se o diretor mais talentoso do universo. Conta-se que as filmagens durante o Mardi Gras foram um desastre. Toda a equipe abandonou Fonda e Hopper, e no final, totalmente drogados, ambos acabaram brigando no cemitério. Aquela desavença duraria somente até que as filmagens terminassem. Nicholson, por sua vez, conta que passou todo o filme fumando maconha. Na famosa cena do fogaréu, garante que estava absolutamente drogado.

A montagem não foi menos desastrosa. Hopper pensava que havia feito uma obra magnânima, queria uma edição de quatro horas. Fonda se queixava dos montadores também. Mas, no final, as coisas se encaixaram e o filme deles tinha feito história. Estava nascendo a nova Hollywood, a contracultura atacava, as pessoas queriam uma nova arte. Sem Destino foi um grande sucesso comercial e cultural. Havia custado 500 mil dólares e terminou faturando 19 milhões de dólares, mais o prêmio de Melhor Filme de Diretor Estreante em Cannes. Cada um teve seu quinhão: Hopper transformou-se em grande diretor, Fonda no ator roteirista, e Nicholson, que no filme aparecia em um primeiro momento como um homem diminuído, nada interessante, demonstrou do que era capaz quando explodiu, com toda sua obscuridade demoníaca. Desde então, continuou surpreendendo como em Chinatown, Cada Um Vive Como Quer (Five Easy Pieces), Um Estranho no Ninho, entre outros tantos que fizeram dele um dos atores mais importantes do cinema norte-americano. Como bom filho do Actors Studio, Jack Nicholson soube tirar proveito de suas obscuridades e de seus medos, mas sempre mostrando, no rosto, esse ar mefistofélico muito particular e, com isso, tem nos mantido hipnotizados, até hoje.

Não precisamos dizer mais nada; nesta quinta-feira, 10 de novembro, dentro do ciclo Ícones do Cinema, teremos, claro, Jack Nicholson em... Sem Destino. Não perca.

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