Bela do Senhor, ou o mundo contra o amor

por max 30. janeiro 2014 09:01

 

O mundo ao nosso redor desmorona, tudo se torna mais e mais violento, mais perigoso e, para o homem, que cada vez mais se reduz a espaços fechados, só resta provar a liberação do corpo. Para o homem, para os amantes. Nas histórias do Marquês de Sade a orgia acontece em lugares fechados, onde o mundo apenas tem nome, onde o mundo apenas parece não importar. Mas não é certo, a realidade é um vírus. Os amantes que se aposentam para viver a intimidade em confinamento trazem de fora esse vírus, trazem os vermes em seus corpos, e esses vermes também se rompem, também se tornam violentos nos corpos. Talvez este seja o caso de Bela do Senhor (Belle Du Seigneur, 2011), primeiro e único filme de ficção do falecido Glenio Bonder, diplomata brasileiro que se dedicou à fotografia e que terminou fazendo um documentário para a televisão francesa sobre Albert Cohen, o autor do romance Bela do Senhor (Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa em 1968, considerada uma das maiores obras literárias da França). Graças a este contato inicial, Bonder foi capaz de conversar e finalizar a produção cinematográfica do filme.

Bonder tenta centralizar em algumas horas um romance complexo de mil páginas que relata uma história íntima que é cercada por uma história maior, a dos anos anteriores da Segunda Guerra Mundial, a dos anos do apogeu do antissemitismo. A história se passa em Genebra e na França, por volta de 1936, e nos apresenta Solal (Jonathan Rhys Meyers), um funcionário judeu de cargo importante da Liga das Nações, e Ariane (a modelo Natalia Vodianova), uma aristocrata protestante casada com um funcionário de Solal. Ambos começam uma relação no meio deste mundo paralisado, praticamente inútil dessa diplomacia anterior à guerra e das tensões que se operam na Alemanha nazista. Esta relação extraconjugal, que como todas essas relações é uma via de escape, passará por todo o espectro amoroso: a conquista, a paixão, o erotismo, o prazer doentio do segredo diante dos outros, os ciúmes, as humilhações mútuas, os altos e baixos, os conflitos morais, o cansaço. O filme, como o livro, fala da beleza do amor, dessa visão de amor como um meio de superação espiritual, mas também dos horrores do ser humano, da sua capacidade de se afundar no pior de si mesmo, da sua tendência a cair no peso da burocracia, da ambição e do poder, apesar dos espaços fechados, apesar de todas as suas aventuras.

Bela do Senhor, sábado, 1 de fevereiro, no Max.

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