Deus é Brasileiro, ou um país segundo Cacá Diegues

por max 22. outubro 2012 11:35

 

Carlos Diegues é um diretor veterano, um dos últimos representantes do Cinema Novo em atividade, movimento surgido no final dos anos 50, e diretor de filmes importantes como A Grande Cidade (1967), Os Herdeiros ((1972), Xica da Silva (1976), Bye Bye Brasil (1980), Quilombo (1986), Um Trem para as Estrelas (1987), Tieta do Agreste (1996), Orfeu (1999) e O Maior Amor do Mundo (2006), entre outros.

Aqueles cineastas dos anos 50, influenciados pela Nouvelle Vague e pelo neorrealismo italiano, levantaram-se para mostrar ao mundo o verdadeiro Brasil da pobreza e, assim, sob o conceito de uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, começaram a fazer cinema. Diegues, junto com seu mentor Glauber Rocha, foi dos que mais escreveu sobre o movimento. Também Diegues foi quem mais trabalhou o tema do negro em sua filmografia. Com os anos, logicamente, foi se decantando e mostrando-se menos radical quanto à "estética da fome" do Cinema Novo. Ele entendia que o Brasil, como totalidade, não era só miséria, mas também as melodias, as paisagens, a beleza do povo, apesar de que isso trazia o exotismo pré-fabricado que a indústria e o público europeu desejavam, como diziam os cineastas daquela época.

Um de seus trabalhos mais recentes é Deus é Brasileiro (2002), um filme que não se afasta da visão social e crítica, mas que, desta vez, é trabalhado a partir do gênero da comédia e sob o formato de road movie. Baseado no conto "O santo que não acreditava em Deus", de João Ubaldo Ribeiro, o filme apresenta Deus como protagonista. O Criador (Antônio Fagundes), cansado de ver os homens errarem várias vezes, decide tirar férias, mas, para não deixar o negócio sozinho, decide procurar um santo na Terra que o substitua por um tempo. Esse santo chama-se Quinca das Mulas (Bruce Gomlevsky) e vive em algum lugar no Brasil. Deus desce à Terra para buscá-lo pois, embora seja Deus, não conhece a localização exata desse sujeito. No caminho, encontra personagens que o ajudarão na aventura: um malandro chamado Taoca (Wagner Moura) e a bela Madá (Paloma Duarte). Assim, o que seria uma procissão solene, acaba virando a trajetória de saltimbancos através de um país que vai se revelando em suas entranhas, tal como Cacá Diegues já tinha feito em 1979, com Bye Bye Brasil. Os road movies, já sabemos, permitem revelar regiões desconhecidas dos países e da alma.

Deus é Brasileiro mostra o campo, o urbano, as favelas, a prostituição, a violência, mas faz isso a partir de um olhar abrangente, a partir do afeto, da ironia e de um suave sarcasmo que revelam um Brasil, como todo país latino-americano, mergulhado nas contradições, da pobreza e do extremo capitalismo, da modernidade e do primitivismo.

E, finalmente, Quinca. O santo querido acaba sendo um lutador social ateu, que não se deixa convencer facilmente pelos milagres, pelas maravilhas e até mesmo pela fúria de Deus. Paradoxo do mundo: Deus existe, mas não faz falta, ou Deus existe, mas ninguém percebeu que está morto? Um país não precisa de deuses, mas sim de pessoas honestas que, verdadeiramente, acreditam no que fazem?

Deus é brasileiro, de Cacá Diegues, nesta sexta-feira, 26 de outubro. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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