Michel Petrucciani, ou os caminhos de Michael Radford

por max 27. dezembro 2012 05:29

 

Pode-se dizer que Michael Radford não é uma figura fácil. Considerado um diretor promissor nos anos 80, quando lançou a adaptação cinematográfica de George Orwell, 1984 (que estreou em 1984), Radford foi de grandes sucessos a estrondosos fracassos, que o fizeram se afastar do público por anos, para depois voltar com um novo projeto alinhado com suas buscas, com suas necessidades do momento, nunca para impressionar comercialmente. Isso, às vezes, resultou em sucessos e noutras, em fracassos.

Radford também não é fácil no que diz respeito à vertente temática: não gosta de ser rotulado. Porém, depois de mais de quatro décadas de trajetória, dá para ver linhas diversas traçadas nele. Radford gosta de Shakespeare — gosta de literatura — (O Mercador de Veneza, O Rei Lear, este último estreará em 2013; o filme 1984), gosta também da cultura latina (América e Espanha se veem refletidos em filmes como La Mula – do qual se retirou e ao qual não quer ser ligado como diretor -, Elsa e Fred – também para 2013 – e O Carteiro e o Poeta) e, finalmente, de música. Como bom inglês (nasceu na Índia de pai inglês e mãe australiana) e herdeiro, possivelmente, do realismo social, sua cinematografia tem uma boa carga social, de luta – é importante a palavra luta — contra os poderes. Não é de se estranhar que, nos últimos anos, está trabalhando um filme protagonizado por Che Guevera (Castro's Daughter), ainda que também ali vejamos seu gosto pelo que é latino. Outro assunto que mexe com Radford é a música. O longa de estreia, em 1980, foi um documentário sobre Van Morrison. Em 2011, voltou seu olhar sobre outro músico, Michel Petrucciani, também na forma de documentário. Radford, é bom lembrar, disse que não sabia nada sobre o músico quando lhe propuseram realizar o documentário. Quando começou a pesquisar se deu conta que se tratava de um homem excepcional, alguém que passou por cima de todas as circunstâncias adversas. Petrucciani media menos que um metro de altura e não era apenas um grande talento, mas representou uma forma titânica para Radford, uma forma de luta humana para tirar o máximo do que a vida oferece, e do que a vida lhe deu, sem se deixar mergulhar em pena, sem se deixar derrotar.

É disso que trata Michel Petrucciani (2011), o filme de Michael Radford, da surpreendente história de um homem. Petrucciani nasceu com uma deficiência física importante, com osteogenia imperfeita (conhecida também como a doença dos ossos de cristal), uma doença muito rara que aparece em uma a cada 20 mil pessoas. Contudo, Petrucciani foi um dos mais destacados pianistas de jazz da história, morreu jovem, aos 36 anos, e sua história é daquelas que merece ser contada. E isso é o que Radford faz, através de entrevistas – mais de 35 pessoas -, arquivos de vídeos e fotografias, neste documentário humano e inspirador. Radford é, sem dúvida, um diretor de caminhos diversos, caminhos que ele nos oferece com a profundidade de sua paixão, a luta do homem diante das vicissitudes da existência.

Neste domingo, 30 de dezembro, o Max fecha o ano, com chave de ouro, com uma história de esperança e vida: o documentário Michel Petrucciani, de Michael Radford.

Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

In the Loop, ou o espetáculo das guerras

por max 23. novembro 2012 06:58

 

Relembro de Mera Coincidência (Wag the Dog, 1997), com Dustin Hoffman e Robert De Niro. No filme, Barry Levinson inventa uma guerra com a finalidade de esconder um escândalo presidencial. Esta guerra inventada acontece na mídia, nas telas. Jean Baudrillard chegou a dizer que, nos nossos tempos, a realidade não existe, que tudo é parte de uma simulação, um espetáculo. Tudo isso, claro, é uma ferramenta de controle. Podemos ir ainda mais para trás no tempo, até 1949, ano da publicação do livro 1984, de George Orwell. Nesse livro, a guerra também é uma invenção. Constantemente, países diferentes estão em guerra. Um dia é a Eurasia contra Estasia, outro dia é Estasia contra Oceania, e depois, no terceiro dia, Oceania contra Estasia. Tudo acontece (falamos do filme de Michel Radford) nas grandes telas dos refeitórios, diante dos olhos daqueles trabalhadores autômatos.

A comédia satírica britânica In The Loop (2009), retoma o mesmo tema do espetáculo e da política, da simulação e da realidade. O diretor Armando Iannucci parte da interpretação errônea da declaração de um político, feita no rádio, para começar um jogo de guerras e diplomacias entre políticos americanos e britânicos que parecem participar de um reality show da TV. Alguém quer uma guerra e essa guerra, não importa como, deve ser realizada, então que seja inventada e aconteça por razões fictícias, o que acaba sendo uma espécie de ficção cruel. O estilo documental do trabalho marca, com maior ênfase, essa ideia do que está sendo registrado para depois ser visto do sofá, de uma poltrona em um aparelho de televisão.

Inspirada na série britânica "The thick of it", do mesmo diretor, In the Loop é uma comédia satírica sobre interesses políticos, montada em uma estrutura de falso documentário, em torno deste mundo de falsas aparências e informações (você lembra de algo como armas de destruição em massa?) que podem acabar produzindo o grande estopim da guerra. Divertida, lúcida e tremendamente atual, In the Loop é uma comédia, pura e simplesmente, muito britânica.

Assista nesta sexta, 23 de novembro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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THX 1138 e as tecnologias cristãs do eu

por max 5. novembro 2012 13:06

 

Do filme THX 1138 (1971), hoje me interessa um símbolo: o confessionário com sua imagem de Cristo na tela. A sociedade na qual o personagem THX se encontra submerso, claramente, o controla por inteiro: o homem é uma máquina que produz, seu corpo foi reduzido à condição de máquina e sua mente está em constante vigilância. O eu de THX, e de todos os que vivem nesse mundo subterrâneo, existe em função do que dizem a ele que deve ser feito. É uma tecnologia do eu, profundamente cristã, se nos baseamos em Michel Foucault. OMM, o Cristo de Hans Memling, dá a pista, ou melhor, confirma a própria pista. Cabe dizer que o tema cristão é uma particularidade – ou originalidade – do filme de George Lucas. Embora suas referências ou influências apresentem uma descarada semelhança com George Orwell e com Aldous Huxley, ao contrário, no lugar do confessionário fica clara uma distância singular. Neste primeiro longa-metragem de Lucas, a vigilância e o controle do eu se revelam com uma forte carga cristã, onde o confessionário é o espaço no qual o homem precisa ir para revelar suas obscuridades mais profundas, aquilo que segundo a opinião geral, é maléfico e deve ser rejeitado com a finalidade de levar a pessoa a aderir aos desígnios exteriores do poder. Ou seja, o indivíduo, sob as tecnologias do eu do cristianismo, deve anular sua individualidade, deve rejeitar ao eu em prol de algo maior. Para Michel Foucault, a confissão é uma forma de revelação de si que está fundamentada na autodestruição. Essa obscuridade que se manifesta na confissão deve ser aniquilada para dar lugar ao bom, à lei da benfeitoria, a essa luz exterior que deve conformar e fazer o indivíduo feliz. O bem, a moral, a ética não estão no homem. O conhecimento de si mesmo não é, nesse sentido, helênico. No confessionário cristão, é a voz de OMM, esse Cristo de Memling, cristão e exterior, que diz como você deve agir e pensar para ser perfeito. Ali, supõe-se, está a luz. Precisamente, é contra este controle, contra essa supressão da liberdade, que o personagem de Robert Duvall se rebela no amor e na fuga. E é assim que começa uma cruzada por sua individualização, uma cruzada onde seu eu mais íntimo tem valor, é luz e pode decidir e pensar, não sei se felicidade, mas, sim, seu destino.

THX 1138, nesta quarta, 7 de novembro. Reinvente, imagine de novo... Descubra o Max.

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Pink Floyd The Wall, O incansável Roger Waters

por max 20. abril 2012 07:51

 

Roger Waters (George Roger Waters) nasceu em 6 de setembro de 1943, em Surrey. Seu pai, Eric Fletcher Waters, professor, cristão e pacifista, foi motorista de ambulância no começo da 2ª Guerra Mundial. Depois, abandonou o pacifismo pela militância comunista, se alistou no exército e morreu em combate na Itália, quando Roger tinha apenas quatro meses. Roger foi com a mãe e o irmão para Cambridge, onde passou infância e juventude. Pelas ruas da cidade, conheceu David Gilmour. Syd Barrett encontrou nas aulas de arte, que cursava para compensar um pouco o severo e sufocante sistema educativo. Roger era ótimo atleta, mas não gostava de estudar. Ele ficava chocado com a disciplina rígida da escola, todo aquele assédio dos alunos maiores e dos professores. Queria sair correndo dali, abandonar os estudos.

Em 1963, estudava arquitetura na Regent Street Polytechnic, em Londres. Não tinha grande amor pelos estudos quando formou uma banda com o baterista Nick Mason e o tecladista Rick Wright - ele tocava o baixo e cantava. Em pouco tempo, Syd Barrett se juntou à banda que tinha o nome de Tea Set e virou Pink Floyd no primeiro disco. Syd Barrett foi líder até a gravação deste disco e logo Waters assumiu o comando. Quando saiu The Dark Side of the Moon, em 1973, ela já dava as cartas na banda. Claro, não faltaram discussões e guerras de egos. The Dark Side of the Moon se transformou num clássico, fez a banda mais popular e, musicalmente, marcou um novo caminho no som do Pink Floyd, uma original mistura de jazz, blues, rock e psicodelia. Conceitual, o disco tratava de temas como doença, loucura, conflito, drogas (as marcas deixadas por Syd Barrett) e nasceu totalmente da mente de Roger, no auge da criatividade e também do egocentrismo.

Em 1975, veio Wish You Were Here, onde a saudade de Barrett também estava presente em canções como "Shine on You Crazy Diamond". Conta a lenda que ele apareceu no estúdio quando a banda gravava essa canção. Estava gordo, careca, sobrancelhas raspadas, distante e com aspecto fantasmagórico. Roger, dizem, chorou ao vê-lo.

Animals, de 1977, foi inspirado em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, uma metáfora de poder e corrupção. E, em 1979, saiu The Wall, o décimo disco do Pink Floyd. Nessa época, todos os integrantes da banda viviam fora da Inglaterra, na falência, assediados por dívidas causadas pela quebra da empresa que administrava suas finanças e desapareceu deixando-os completamente sem dinheiro.

Com The Wall, Roger estava na posição de amo e senhor da banda. O conceito é totalmente dele. O disco, que não superou as vendas de The Dark Side of the Moon, é talvez o mais representativo do Pink Floyd e o que se transformou em filme.

The Wall, o disco, é uma ópera de rock progressivo sobre as paranóias de Pink, um superstar que mergulha no mundo das drogas e acaba contruindo um muro alucinógeno entre ele o mundo. Num dos discos mais influentes da história do rock, Roger Waters recorre a seus temas costumeiros: guerra, perda do pai, drogas, fama, alienação, educação escolar obtusa, poder e corrupção do poder. Ele saiu do Pink Floyd em 1985, depois de uma disputa legal com os outros membros da banda. Eles ficaram com o nome Pink Floyd e Roger com quase todas as canções de The Wall. Em 1982, antes de se tornar um ex-Pink Floyd, o cantor e baixista pôde ver um de seus sonhos realizado: a adaptação para o cinema de The Wall , com direção de Alan Parker.

Há dois anos, Roger Waters circula pelo mundo com a turnê The Wall Live, que comemora os 30 anos de lançamento do disco, e recentemente passou pelo Brasil. O cara não descansa. Aquele momento criativo deve ter sido muito intenso.

Pink Floyd The Wall. Sexta, 20 de abril. Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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