Al Pacino, entre o olhar cabisbaixo e a violenta explosão

por max 24. novembro 2011 08:48

 

Al Pacino surgiu nos anos 70, junto com um grupo de atores e diretores conhecidos como a marca da Nova Hollywood. Tal como disse Peter Biskind em Moteros tranquilos, toros salvajes, eles eram Jack Nicholson, Robert De Niro, Dustin Hoffman, Gene Hackman, Richard Dreyfuss, James Caan, Robert Duvall, Harvey Keitel e estavam junto a diretores que abandonaram a ideologia do cinema de autor, como Francis Ford Coppola, Woody Allen, Stanley Kubrick, Martin Scorsese e Steven Spielberg, entre outros. O que tinham esses novos atores? Eles não formavam um grupo homogêneo de rostos bonitos. Não eram nem insignificantes, nem metidos, bonecos irreais do mundo das ilusões. Os novos atores pareciam mais com as pessoas que caminhavam nas ruas. Assim como Al Pacino, filho do Actors Studio e Lee Strasberg, eles contribuíram para uma nova maneira de entender a atuação, mais cheia de energia, mais psicológica, complexa e crua. Al Pacino, com seus 1,75m, era um cara raquítico que olhava todo o tempo para o chão. Sua presença não impressionava e, claro, não havia produtor ou diretor da velha Hollywood, que se interessaria nele. Bob Evans, o famoso produtor que deu tantos problemas a Coppola durante a realização de O Poderoso Chefão (The Godfather), se referia a Pacino como "o anão", e havia proposto outros atores para o papel, entre eles Robert Redford e Alain Delon. Foi Coppola quem insistiu em Pacino, um ator totalmente desconhecido, para o papel de Michael Corleone. No princípio dos anos 70, Pacino havia atuado em apenas um filme, Os Viciados (The Panic in the Needle Park, 1971). Ali interpretou Bobby, um dependente de heroína nova-iorquino. Coppola viu o filme e se empenhou em que Pacino fosse seu escolhido. No final conseguiu e o ator acabou sendo este personagem, no princípio humilhado e tímido, absolutamente distante das manobras mafiosas de seu pai Don Vito (claro, Marlon Brandon) e que, por várias razões que se entendem durante o filme, termina transformando-se no chefe absoluto do clã, um ser sem piedade, cerebral e frio. O Poderoso Chefão foi um sucesso de bilheteria e de crítica e Al Pacino se lançaria às nuvens. Contudo, seu perfil como ator estava claro: Pacino pertencia a essa nova camada de atores realistas que podiam oferecer grandes interpretações. Pacino, em especial, era uma marca étnica, um ítalo-americano com seu sotaque particular ao falar inglês. Mas, quando atuava, aquele rapaz tímido, que olhava o tempo todo para o chão, se transformava em uma figura poderosa. Continuava mesmo assim, havendo certa fragilidade nele. Seus personagens eram sempre da periferia: faziam parte deste lugar e ao mesmo tempo não. Eram solitários, por caráter e inclusive por convicção. Assim era Frank Sérpico, seu policial sempre teimoso, sempre movido por uma grande força interior, por sua honestidade e seu sentido de dever; sempre sozinho no meio de sua luta contra a corrupção generalizada. Em Sérpico (Serpico, 1973) fez outra de suas grandes interpretações. Naquele mesmo ano, também ganhou destaque em Cannes com O Espantalho (Scarecow), um filme de Jerry Schatzberg, que já havia dirigido Pacino em O Viciado. Se Schatzberg havia dado sorte no início e o levado a Coppola, porque não tentar de novo com o ator. A escolha foi totalmente acertada. Junto com Gene Hackman, Pacino interpreta o personagem Francis Lionel Delbuchi neste filme, no qual os vagabundos se encontram na estrada e iniciam uma grande amizade. O personagem de Hackman é duro e agressivo, e o de Pacino é mais leve, mais enlouquecido, mais sensível e com uma visão da vida muito mais aberta. Para Francis, os espantalhos não espantam os corvos, mas sim, os espantalhos fascinam os corvos. O filme faturou a Palma de Ouro em Cannes e Al Pacino conquistou o público e uma crítica bem exigente.

Logo depois de O Espantalho e Sérpico, Pacino interpretou outra vez Michael Corleone na segunda parte de O Poderoso Chefão em 1974, e fez o papel de Sonny Wortzik em Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975), de Sidney Lumet. Sonny, o assaltante de banco, era um personagem elétrico, perigoso, carismático e sensível. O ator, uma vez mais, dava o melhor de Pacino ao seu personagem, e conseguia, pelo quarto ano consecutivo, uma indicação ao Oscar como Melhor Ator. A saber: O Poderoso Chefão, Sérpico, O Poderoso Chefão 2 (The Godfather – Part II) e Um Dia de Cão. Depois de um intervalo pouco glorioso, voltaria à telona com outra de suas grandes interpretações. Em 1983, interpretou Tony Montana em Scarface, de Brian De Palma, um de seus personagens mais abjetos. Afundado (ou, melhor dizendo, consumido) na violência e corrupção, Montana, sem dúvida, também dá espaço a Pacino para mostrar seu lado humano, suas fraquezas, seus medos; esse seu olhar cabisbaixo de que já falamos. Porque foi assim: o ator tinha feito de novo: havia interpretado um personagem agressivo, mas ao mesmo tempo humano e, diga-se de passagem, estrangeiro; lembremos que Montana era um cubano.

Com os anos, Pacino foi ocupando cada vez mais seu espaço nas alturas como um dos atores mais importantes do cinema mundial. Apesar disso, só recebeu um Oscar. Os jornalistas estrangeiros, não por acaso, agora o tratam melhor. Al Pacino levou quatro Globos de Ouro mais um prêmio Cecil B. DeMille, outorgado pela imprensa estrangeira nesta cerimônia. Pacino também já assinou filmes como produtor e diretor. Seu mais recente filme, Wilde Salome (2011) recria dentro e fora dos palcos a peça de Oscar Wilde, em um jogo entre teatro, realidade e ficção, que nos lembra seu documentário de 1994, Ricardo III: Um Ensaio (Looking for Richard).

Mas onde Al Pacino fez história e onde, sem dúvida, converteu-se em um ícone do cinema foi no difícil terreno da atuação. Aqui ele apresentou personagens memoráveis, papeis de maestria que serão reverenciados para sempre.

Nesta quinta-feira, 24 de novembro, não deixe de ver Al Pacino em O Espantalho, dentro do ciclo Ícones do Cinema, no Max.

A Morte do Demônio, ou a bem sucedida vida de Sam Raimi

por max 3. novembro 2011 11:58

 

As gerações mais jovens lembram de Sam Raimi como o diretor de filmes do Homem-Aranha. E, sim, Raimi é um fã do personagem dos quadrinhos e conseguiu que lhe dessem o projeto e a direção dos filmes porque demonstrou que era um grande conhecedor do herói. Mas a história de Raimi vai muito além disso e sua imagem como diretor cult começou a formar-se em 1981, quando lançou um filme que hoje em dia é um clássico do terror, do gore (cheio de sangue e violência). Estamos falando de A Morte do Demônio (The Evil Dead).

Mas ele não ficou por aí. A partir deste filme, Raimi não parou de fazer cinema. Em 1987, dirigiu Evil Dead – Uma Noite Alucinante 2 (The Evil Dead II) e logo depois Darkman – Vingança sem Rosto (Darkman), em 1990, um fascinante filme de ação e suspense, protagonizado por um herói obscuro que mostra todo seu poder em ataques de ira, cuja motivação principal é a vingança. Estrelado por Liam Neeson, Darkman é um desses filmes que marcam e mudam para sempre a visão das coisas na arte do cinema. Darkman pegou as obscuridades que nos deu Tim Burton com Batman (1989) e potencializou toda a violência e crueldade lúdica que naquele momento não haviam sido ainda exploradas nos filmes de super-heróis ou heróis mascarados. Dois anos depois de Darkman, Raimi fecha sua trilogia de terror com Evil Dead – Uma Noite Alucinante 3 (Evil Dead III: The Army of Darkness), um filme que difere um pouco dos anteriores, pois situa os acontecimentos fora da típica cabana do bosque e, além disso, viaja aos tempos medievais atrás do tenebroso livro Necronomicon, que foi fundamental em toda a trilogia. Em Evil Dead – Uma Noite Alucinante 3, o humor negro está um pouco mais presente que nos anteriores, e o terror se soma à aventura. Vale dizer que, desde Darkman, Raimi se sentia pronto para sair da cabana e explorar novos caminhos. Com Evil Dead – Uma Noite Alucinante 3 demonstrou que tudo estava dando muito certo. Assim, em 1995, lançou um filme produzido por Sharon Stone (a atriz também aparece como protagonista no filme). Trata-se de Rápida e Mortal (The Quick and the Dead), filme de cowboys que também conta, no elenco, com Gene Hackman, Leonardo DiCaprio e um praticamente desconhecido, à época, Russel Crowe. Como em tudo de Raimi, Rápida e Mortal resulta em um filme atípico que joga com os gêneros, neste caso com o western, no qual o pistoleiro – o herói – é, na verdade, uma mulher (Stone) que se inscreve em uma competição de duelos mortais, mas que, no fundo, chegou ao vilarejo dos cowboys em busca de vingança. Como em todos os seus filmes, Raimi demonstra habilidade com seus planos e movimentos de câmera, e oferece um novo olhar a um gênero tradicional no cinema norte-americano. Já neste momento, Raimi passou a ser considerado um diretor importante dentro dos gêneros aventura e terror, com um toque muito particular tanto em seu tratamento dos temas como em seu estilo de fotografar e mexer com as imagens. Em 1998, ele apresenta Um Plano Simples (A Simple Plan), um excelente filme sobre criminosos e pequenos vilões que nos lembra um pouco Fargo – Uma Comédia de Erros (1996), dos irmãos Cohen e depois, em 1999, nos surpreende negativamente com Por Amor (For Love of the Game), protagonizado, lamentavelmente, por Kevin Costner. Raimi parecia não estar mais nas graças de Hollywood, mas a tempo ele retoma as rédeas e sua dignidade e, em 1999, voa um pouco mais alto com O Dom da Premonição (The Gift), um filme sobre percepções extrasensoriais, protagonizado por Cate Blanchett, para depois, em 2000, aprofundar-se em seu projeto do Homem-Aranha, que chegou a três filmes. Como produtor, Raimi também não ficou para trás. Nos últimos anos, produziu muita coisa para televisão e tem sido presença constante por trás das versões norte-americanas dos filmes japoneses de terror que conhecemos como O Grito (The Grudge). Raimi, poderíamos dizer, foi pioneiro em levar as maravilhas do novo cinema de terror asiático ao conhecimento do grande público do ocidente.

Este mês, no Max, você poderá ver o primeiro filme que fez de Sam Raimi um diretor cult: A Morte do Demônio.

Em 1979, Raimi fundou a Renaissance Pictures junto com Robert Tapert e o ator Bruce Campbell, que seria o protagonista de seus primeiros filmes e de toda a trilogia The Evil Dead. Para financiar a produção de A Morte do Demônio, Raimi e seus sócios utilizaram como isca um filme de 30 minutos intitulado Within the Woods, era um argumento de vendas, um ponto de partida do que estava por vir, pois a história era muito parecida com o que seria o longa. Finalmente, Raimi consegue reunir o dinheiro, não mais que 375 mil dólares, e se lança na aventura. Na realidade, não sairia muito cara, pois todo o argumento se desenvolve em um bosque e dentro de uma cabana, dois elementos constantes que marcaram o imaginário dos fãs de Raimi até os dias de hoje, e com um poder tal na imaginação que se verão refletidos em homenagens e cópias grosseiras ao longo dos anos. Não é para menos, o bosque e a cabana sempre têm presença constante na imaginação dos homens; lembremos dos contos de fadas, das lendas medievais e dos contos populares de todas as partes do mundo. Fato é que Raimi agregou seus efeitos especiais (muito caseiros em um primeiro momento, mas respeitáveis) e, além disso, usou como "detonador" do terror o livro Necronomicon, o livro dos mortos, um texto maldito (imaginado por Lovercraft), que conhece o segredo da invocação dos mais terríveis demônios. As filmagens duraram três meses e foram realizadas em 16mm, não em 35mm, que é muito mais caro. Seu sucesso comercial foi tamanho, que no ano seguinte da estreia, Raimi já estava em Cannes, em Londres e no festival do cinema fantástico de Sitges. Trata-se de um filme violento, absolutamente gore (sangrento e violento), mas carregado, ao mesmo tempo, de uma tensão de dar medo e de uma originalidade no seu enfoque, que fazem dele um filme de grande destaque dentro do cinema B. Stephen King se referiu à produção como "o filme de terror mais original do ano". Raimi, simplesmente, estava dando o que o público pedia e que ninguém tinha conseguido entender inteiramente e misturar: terror, muito terror, muita violência gratuita, mas em uma nova dimensão sobrenatural, extrema, claustrofóbica e mitológica.

A Morte do Demônio, nesta quinta-feira, 3 de novembro, no Max.

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