Beleza Adormecida, ou a sorte de Julia Leigh

por max 15. março 2013 13:17

 

Julia Leigh, diretora de Beleza Adormecida (Sleeping Beauty – 2011), é uma mulher de sorte. Tem 42 anos, é australiana (o que pode não ter a ver com sorte, mas é preciso dizer), uma reconhecida romancista e também diretora de cinema. É jovem, mas antes de ser a jovem que é hoje, antes, quando era ainda mais jovem, ganhou o Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative, uma espécie de bolsa de estudos das letras que é realizada sob a orientação de um escritor renomado; e no caso de Julia, ela teve a assessoria do romancista ganhador do prêmio Nobel, Toni Morrison. Seu primeiro romance, O Caçador (The Hunter), foi traduzido para nove idiomas, e também transformado em filme por Daniel Nettheim (com Willem Dafoe e Sam Neill nos papéis principais).

Julia Leigh contou que a partir do sucesso de O Caçador, começou a sonhar com alguém, uma espécie de demônio, observando-a enquanto dormia. O sonho lembra o filme A Estrada Perdida (Lost Highway) de David Lynch. Em A Estrada Perdida, os personagens protagonistas (Patricia Arquette e Bill Pullman) recebem um vídeo onde descobrem que são gravados enquanto dormem. E também podemos lembrar Caché (2005) de Michael Haneke, onde Juliette Binoche e Daniel Auteuil também recebem um vídeo onde descobrem que a parte de fora de sua casa é constantemente gravada. Ser vigiado, observado dessa maneira nos lembra nossa impotência. Somos vulneráveis diante de olhares espiões. Esses olhares têm poder sobre nós. É um poder, é o poder.

Julia Leigh ficou com a ideia desse sonho-demônio em sua cabeça e, um tempo depois, fez seu primeiro filme: Beleza Adormecida (Sleeping Beauty), título que, sem dúvida, nos remete aos contos de fadas, como A Bela Adormecida, mas também a assuntos muito mais perversos (um conto de fadas já é perverso).

Leigh confessou em uma nota sobre o filme que já conhecia Memória de Minhas Putas Tristes (Memoria de Mis Putas Tristes – 2004), romance de Gabriel García Márquez em que um jornalista decide celebrar seu aniversário de noventa anos dormindo com uma prostituta menor de idade. No romance, a jovem Delgadina dorme para que o idoso possa contemplá-la, só isso. Sem dúvida, existe uma influência direta e confessa.

Pelos lados da prostituição, vemos outras referências. Leigh fala da história de Salomão, que mandava trazer jovens prostitutas para sua cama. No cinema (disso Leigh não falou), contamos com A Bela da Tarde, de Buñuel. Do mesmo modo podemos ir a mundos mais sórdidos, onde a prostituição e a luxúria dos poderosos se misturam. Temos Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream – 2000) de Darren Aronofsky e De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut), último filme do grande Stanley Kubrick.

Julia Leigh apresenta uma combinação de todos estes elementos em Beleza Adormecida, a história de uma linda garota com um lado obscuro que nunca fica claro, porque não importa. Esta linda garota é Emily Browning (Desventuras em Série - Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events), que desde seus primeiros filmes se revelou como um rosto exótico, que no futuro poderia aprofundar essa perfeição em filmes de tom mais sensual. Sua participação em Beleza Adormecida é perfeita. Em seu rosto, em seu olhar, em sua delicadeza selvagem tem algo de obscuro, da noite que cai, da tentação de uma serpente interior. Por isso, não é estranho quando sua personagem Lucy aceita um trabalho particular: em troca de um bom dinheiro, ela se deitará para dormir e enquanto dorme, idosos burgueses, cheios de dinheiro, se deitam com ela e fazem o que quiserem com o seu corpo... tudo, menos penetração. Sua virilha é um templo proibido. O olhar espião está ali presente, aquele olhar que, como já disse, é poderoso.

Mas tem mais. Uma vertente dos significados do poder está relacionada com a velhice. Os idosos acumulam, ao longo do tempo, influências, dinheiro, conhecimento. O diabo sabe mais que o velho diabo. E o idoso com dinheiro é, com certeza, uma metáfora da corrupção da alma humana. Mas a esse idoso que tem tudo, algo lhe foi negado: a juventude, o corpo da juventude. Suas ânsias, nostalgias, seu desejo por aquilo que não poderá ser nunca mais, se traduz em mãos que buscam tocar a suavidade perdida. O corpo tocado se transforma em espelho do desejo. A imagem refletida.

Beleza Adormecida, domingo, 17 de março. Juventude, desejo, velhice, poder. O que você vê quando vê o Max?

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Crematório, ou o Max se reinventa e imagina de novo, agora com séries

por max 6. março 2012 12:36

 

O Max imagina de novo, reinventa e descobre as séries de melhor qualidade. A partir de março, o canal abrirá as portas para um pacote completo de séries, que têm trama e produção fincadas na primeira fila da vanguarda da TV. A característica fundamental, já que se trata do Max, é a inspiração em fatos históricos ou em textos literários. Este mês, o canal inicia sua nova mania - e não há maneira de curar esse vício, nem você vai querer se curar - com a série espanhola Crematório (2011), produção do Canal+, que segue fielmente os padrões da HBO e os caminhos literários de William Faulkner, que sem dúvida, estão no romance que inspira a série, original do escritor Rafael Chirbes. E digo HBO porque a obra de Chirbes explora o universo da corrupção, das máfias, das armadilhas imobiliárias e outros negócios escusos; é neste ponto que a série, escrita e produzida por Jorge Sánchez-Cabezudo, busca a estética e as estruturas de roteiro encontradas também em Família Soprano (The Sopranos), Boardwalk Empire e A Escuta (The Wire), ótimas referências para uma série que se move em torno do thriller e do mundo do crime. E cito também Faulkner porque, uma vez mais, mesmo que a série seja baseada na novela de Chirbes, o recurso de criar uma cidade, um povo ou um lugar fictício tem sua raiz contemporânea mais conhecida em William Faulkner, com o condado de Yoknapatawpha (Gabriel García Márquez e seu Macondo também vêm à mente, mas lembremos a influência que teve Faulkner sobre o grande autor de Cem Anos de Solidão). Chirbes, muito "à la Faulkner", criou a cidade de Micent, à margem do Mediterrâneo, metáfora, sem dúvida, de cidades como Benidorm ou Marbella, e se propôs a interagir não com os Compsons, com os Sartoris ou os Snopes, mas sim com a família Bertomeu, encabeçada por Rubén Bertomeu, tenaz homem de negócios mergulhado em negociatas escusas. Chirbes trabalha muito como James Joyce em sua obra, com fluidez de pensamento e sem maiores precisões dramáticas, e isso na série se transforma em um complexo nó argumental, que recorrerá à agonia e ao êxtase de cada um dos Bertomeu e de seus agregados. Uma série que traz suspense, drama e até humor inteligente, mostrando o que, para muitos, é um reflexo da Espanha atual, ou da situação internacional em geral, em oito episódios dirigidos por Sánchez-Cabezudo e produzidos por Fernando Bovaira, produtor de Alejandro Amenábar — um dos diretores espanhóis mais próximos de Hollywood. Cabe destacar que Bovaira já havia trabalhado com Sánchez-Cabezudo em La Noche de los Girasoles (ou Angosto, 2006), seu primeiro e bem sucedido longa-metragem.

Crematório, nesta quarta, 7 de março (toda quarta, até o final da série). Iniciando as séries com toda força, reinvente, reimagine… Descubra o Max.

Revolução

por max 21. novembro 2011 09:45

 

Há fatos históricos que marcam, que são fundamentais em nossa personalidade, em nossa alma. Para o México, a Revolução é um desses acontecimentos que se repetem como ecos na boca de todos, do qual se fala com orgulho, que se ressalta nas escolas e que é narrado de vez em quando nos livros. É inclusive uma ferramenta de venda, arma do comércio, artigo de exportação. Hollywood fez da Revolução Mexicana um tema fascinante para as bilheterias desde muito cedo.

 

A partir de um ponto de vista mais reflexivo, sem querer desviar-se do comercial, o filme de produção mexicana Revolução (Revolución, 2010) explora este fato histórico. Justamente quando são comemorados os 100 anos desta data, é lançado um trabalho de ficção cuja premissa foi falar da Revolução com toda a liberdade criativa; isso sim, sem criar um cartão-postal histórico que recrie o passado, mas levando os acontecimentos ao ano de 2010. Para isso, os produtores reuniram dez diretores (nem todos mexicanos) que realizaram dez curtas-metragens de 10 minutos cada um. O espectro varia da comédia, ao filme contemplativo a partir do experimento que ronda o documentário e a ficção, metáforas de um país complexo que mostra o melhor e o pior de uma herança tão poderosa como foi a Revolução.

 

Os 10 curta-metragens são:

 

"La bienvenida", de Fernando Eimbcke (México, 1970) centra-se no mundo rural, na música de Mozart e na desolação de vidas que talvez não tenham nada a celebrar em um dia da pátria. Uma espécie de Esperando Godot da Revolução.

 

"Lindo y querido", de Patrícia Riggen (México, 1970), é uma pequena comédia que tem início com uma família de imigrantes mexicanos nos Estados Unidos procurando uma maneira de tirar o pai morto do país para enterrá-lo em sua terra natal. A Odisséia daqueles que saem de seu país porque não têm nada a comemorar, porque a Revolução não chegou a eles.

 

"Lucio", do ator Gael García Bernal (México, 1978), também se fundamenta no mundo rural e em torno dos filhos como protagonistas. Aqui, o jogo vazio das tradições, das canções, dos símbolos pátrios manuseados e manuseados novamente, se contrasta com a infância e a juventude contemporâneas.

 

"El cura Nicolas colgado", de Amat Escalante (Espanha, 1979), é um filme de excelente fotografia, carregado de imagens, de simbolismos (o Enforcado do Tarô?), de desertos e de filhos que também funcionam como referência ao presente e, claro, ao futuro.

 

"Este es mi reino", de Carlos Reygadas (México, 1971), apresenta-se como um dos curtas mais interessantes do grupo. Entre ficção e documentário, o filme se passa em uma festa de campo onde estão reunidas diferentes classes sociais. O álcool e o tempo começam a fazer estragos, e o caos toma seu lugar, assim como os ódios e as diferenças.

 

"La tienda de raya", de Mariana Chenillo (México, 1977), é uma comédia com toque de romance (ou melhor, uma espécie de comédia romântica), que se desenvolve em um supermercado. O fim da tienda de raya (um mercadinho), um tipo de comércio onde os trabalhadores trocam os vales com os quais são pagos para fazer as compras em contas que são feitas e assinadas em um quadro de giz, pois não sabiam escrever, muito menos assinar seus nomes.

 

"R-100", de Gerardo Naranjo, leva o nome de uma moto da marca Mazda, e a história se desenvolve em uma estrada vazia, com dois personagens. Um filme sem palavras, cheio de tensão e violência. Um road curta-metragem dos caminhos do México, um espírito guerreiro transmutado em delinquência.

 

"30/30", de Rodrigo Plá (Uruguai, 1968), aprofunda-se no tema do herói e dos descendentes do herói, o que nos leva a outro tema, da imagem e da representação; de como tudo fica mais bonito na publicidade, nas homenagens e nas fotografias quando a realidade é bem outra, não tão iluminada como mostrada nesses meios.

 

"Pacífico", de Diego Luna (México, 1979), busca a importância da paternidade. A situação de como ser pai pode ser uma revolução em si. O filme, de alguma maneira, mostra os mexicanos como órfãos da Revolução que os deixou "livres", mas sem direção clara, sem um caminho preciso e sem a companhia dos mais velhos.

 

"La Séptima y Alvarado", de Rodrigo García (Colômbia, 1959), é um conto filmado em câmera lenta trabalhado a partir do urbano pelo filho de Gabriel García Márquez. Um bairro pobre de Los Angeles, gente que vai e vem, rostos mexicanos, ocupando os Estados Unidos como se esses movimentos, como se essa presença, fossem uma nova revolução.

 

Revolução, este mês. No Max.

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