Barbara, ou a lenta fúria dos rostos do passado

por max 25. janeiro 2014 02:16

 

Qual o rosto do passado? Quantos rostos ele teria? Parece que cada momento tem um rosto diferente e, até mesmo um único momento, pode apresentar rostos distintos. Cada um vai fazer sua leitura, cada um vai buscar seu ângulo. O revisionismo cinematográfico é, sem dúvida, uma oportunidade para olhar e ler estes rostos de que falamos. Na Alemanha, não é a Segunda Guerra que mais incomoda (da mesma forma como incomoda Hollywood), mas sim a recente Alemanha Oriental, conhecida como RDA ou República Democrática Alemã. Uma referência obrigatória é A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006), filme de Florian Henckel von Donnersmarck. Antes, em 2003, temos Adeus, Lenin! (Good bye, Lenin!, 2003) de Wolfgang Becker. Já mais próximo de nossos dias, está Barbara (Barbara, 2012), de Christian Petzold, um filme que também viaja a estes tempos e a este local para, a partir de um olhar intimista, revisar a vida de uma mulher daqueles anos.

Ela é Barbara (Nina Hoss), uma jovem médica, loira, de aparência fria, que pediu visto para sair do país – ela tem um amante na Alemanha Ocidental – e que, por causa dele, foi punida e enviada para trabalhar no interior. Tudo nela mostra distância, desinteresse por tudo o que a rodeia. Tudo nela vai de acordo com o regime que matou qualquer rastro de alegria e liberdade. Pode ser que este distanciamento não seja totalmente falso. Ela está cansada deste mundo em que vive e só quer (por trás da máscara de frieza) que seu amante termine de preparar sua fuga. Essa frieza de Barbada não deixa de ter certo egoísmo. Estamos na terra do salve-se quem puder, sobreviver é apenas uma questão de ficar alheio à realidade. É neste ponto que a história começa a atingir a doutora. Uma coisa é suportar os embates do poder com a antipatia do exterior, e outra é enfrentar a si mesmo, uma vez que aparecem certas verdades: o amor, os que decidiram lutar contra o poder, fazer resistência. No entanto, tudo o que acontecerá com Barbara não será um estalo, mas um despertar contido, conciso, de poucas palavras, muito interior, intimista. O que poderia ser expressivo se transforma, assim, em um rio subterrâneo que vai percorrendo o rosto de Nina Hoss em silêncio, discretamente.

Nisto está sua magnífica atuação, pois Christian Petzold trabalhou um roteiro sem estridências nem melodramas. E compreendemos, não podemos esquecer que estamos cravados no centro de uma época marcada pelo controle do Estado, pelo controle ditatorial. Qualquer excesso se traduz em perigo de morte. Por isso, andaremos com cuidado e com a pele tensa, os músculos tensos, a alma tensa diante da intriga e do drama que sacodem a alma de Barbara.

Barbara conquistou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim e teve sucesso com os prêmios da Academia Alemã de Cinema e com os críticos de seu país. Um filme magnífico, sério, sem exageros na atuação, um roteiro preciso, uma fotografia fria, mas suficientemente expressiva, para falar de tempos difíceis e devastadores e por um trabalho de câmera que revela, com calma, estes rostos do passado que revisamos para contar a nós mesmos os contos de terror que não queremos repetir.

Barbara, domingo, 26 de fevereiro, no Max.

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