360, ou o retorno a nós mesmos

por max 15. novembro 2013 13:34

 

Anthony Hopkins, Jude Law, Ben Foster, Rachel Weisz, Moritz Bleibtreu e Dinara Drukarova são alguns dos atores que interpretam papeis principais neste filme caleidoscópico de Fernando Meirelles (Cidade dos Homens, O Jardineiro Fiel, Cidade de Deus), que dá uma volta por cidades distintas do mundo, como se girassem 360 graus em busca constante por relacionamentos amorosos e decisões de vida. Em Viena nos deparamos com uma história de prostituição, amor e suborno, que inclui Jude Law como o homem que pediu uma acompanhante, mas se arrepende ao ser descoberto por seu possível sócio, que irá suborná-lo. Em meio a este desastre vienense está a garota, que também tomou uma difícil decisão em sua vida: trabalhar como prostituta. Em Paris encontramos um divertido argelino obcecado por uma mulher com uma boina vermelha. O dilema deste homem tem a ver com sua religião, com seus desejos mais íntimos. Por que ele persegue esta mulher? O que sente na realidade por ela? O que dizem a religião e a ciência de seu momento de ruptura? Em Londres conheceremos Rachel Weisz indo se encontrar com seu amante. Outra mulher a filma na rua. Ela não sabe o que fazer. Finalmente se encontra com aquele homem que a fascina. No entanto, termina com ele. Ainda assim, no último momento, fazem sexo. Eles se separam e ele chega em casa e percebe que sua namorada não está, mas que lhe deixou um vídeo. Já sabe que vídeo é esse? O personagem interpretado por Rachel Weisz, por outro lado, escuta as mensagens de seu marido. Seu marido diz que a ama, que queria estar com ela. Seu marido que está viajando a Viena. Você já ouviu falar? No Colorado teremos um homem que acaba de sair da prisão após uma pena de seis anos por problemas sexuais, outro que busca sua filha desaparecida (aqui Anthony Hopkins) e uma garota que parece normal até começarmos a conhecê-la. Eles se encontrarão, ela vai beber demais, vai se insinuar para o criminoso sexual e o homem que procura a filha não a encontra onde pensava que encontraria. E assim voltaremos a Paris, conheceremos novos personagens. Uma mulher que quer se divorciar do marido russo, que se nega a aceitar a proposta e viaja imediatamente para Viena. Esta mulher, abandonada pelo marido, vai trabalhar. Ela se sente atraída por seu chefe. Ambos se gostam, mas ele terá que tomar as rédeas daquele dilema. Em Viena, o marido russo se reúne com seu chefe. O chefe, nota-se, não é uma pessoa fácil. Aparece novamente a jovem prostituta, com sua irmã. A prostituta é para o chefe. A irmã está falando com o marido russo. As coisas logo se complicam por causa de um telefonema da jovem prostituta. Haverá briga, tensão, nova tomada de decisões.

O filme de Meirelles, como se vê, é um emaranhado de histórias complexas e em situações limites. O roteiro é de Peter Morgan e é baseado em uma obra teatral de Arthur Schnitzler, que já foi levada ao cinema em algumas ocasiões. O entrelaçamento das histórias pode não ser direto ou altamente significativo; o que parece certo é que essa volta de 360 graus não é uma volta pela geografia do mundo, e sim uma volta pelo espírito humano, o amor, o sexo e as decisões. Sobre todas as decisões. Nossa vida está cheia delas. Todos os dias pegamos um caminho, decidimos fazer algo. Mas também há grandes momentos onde essas decisões mudam nossas vidas. Decisões, erros, sobressaltos, golpes súbitos do destino. Aqui estamos em um entrelaçamento que leva e traz momentos de crises que fazem virar a alma. Paradoxalmente, estamos diante de uma volta de 360 graus: quer dizer, quando o eixo da vida gira nós giramos também e caímos, de novo, em nós mesmos. Porque no final disso, as grandes crises da vida nos machucam, nos despertam, nos fazem sentir vivos de novo, começamos a tentar sobreviver e, de alguma forma, nos levam de volta a nós mesmos, ali, onde todos nós estamos conectados. Este filme de Meirelles também aborda isso.

360, domingo, 17 de novembro, no Max.

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Um Certo Olhar. Três retratos da realidade dos jovens no Brasil

por max 20. junho 2011 01:29

 

Cada país gera suas próprias clichês, as projeções simplificadas de suas realidades e seus modos de ser. Eu também acho que o truísmo dessa cultura é diretamente proporcional à complexidade do fenômeno. Ou seja, um lugar comum é mais forte quanto mais complexa é a coisa a que se refere. Pense nos charros mexicanos. Eles são uma simplificação completa de todo um universo que se move por trás da imagem que se origina desde os tempos coloniais, passando pela cavalaria, o desejo de ascensão social, a figura do chinaco, os filmes, a música popular, o léxico mexicano, "a china poblana", o sindicalismo, o sexismo e até Emiliano Zapata. Um charro é mais que uma charro. Sua figura é um legisign, como diria o semiólogo Peirce, um signo cheio de significado universal, mas também complexos, argumentais. Assim, o clichê é apenas a ponta do iceberg da realidade. México, é claro, é um clichê em si mesmo, que inclui o charro, o asteca, tequila e praias. Falando do Brasil, nós sentimos o mesmo. Dizemos que pensar em Brasil é samba, alegria, garotas e carnaval. Também poderíamos pensar em favelas, mas em qualquer caso, também a favela é uma simplificação da ecologia complexa que suporta a palavra.

A arte tem entre suas funções, de fato, elevar-se acima do clichê e tentar representar a complexidade de um aspecto da realidade. O filme, quando é levado a sério tem a intenção de fazer arte e propõe ainda a partir da imagem o entretenimento. Este mês, Max traz uma pequena série de três filmes que quebram os clichês do Brasil contemporâneo, mas especialmente aqueles que lidam com a juventude brasileira dos dois pólos fundamentais: a pobreza e a burguesia. O pobre da favela, é sempre um garoto violento, assassino, magrelo, burro ou sem aspirações. O burguês, talvez um garoto feliz, sexualmente livre, festeiro, sem grandes preocupações. Mas, novamente, a arte, buscando sempre superar clichês, tem outros lados, outras complexidades. E assim que temos para este ciclo de três retratos contemporâneos de jovens no Brasil, os seguintes filmes:


 

5 X Favela, Agora por nós mesmos (2010): Este filme é composto de cinco histórias diferentes, mas unidas pelo tema da vida na favela, surge a partir da reunião de mais de 80 jovens das favelas do Rio de Janeiro, que foram selecionados após uns workshops de cinema, com professores da categoria de cineastas como Fernando Meirelles, Walter Salles, Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra. O projeto teve como objetivo dar aos jovens a chance de contar suas vidas diárias através dos seus olhos, da sua realidade, isto foi finalmente possível e terminou se concretando em material de 16mm. Há cinco histórias que nos contam a ua sobrevivência. De como mais do que viver, se sobrevive nas favelas, nesse mundo duro de coragem, medo, corrupção e morte. Esse mundo onde você não pode distinguir claramente entre o bem e o mal, cuja linha divisória é turva. Este é um filme honesto com um ar de ingenuidade da inexperiência que paradoxalmente, dá um ar de vanguarda. Um filme muito social, mas ao mesmo tempo, muito humano, muito real.

5 X Favela, assista na terça, 21 de junho.

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Os Famosos e os Duendes da Morte (2009): Primeiro filme do diretor Esmir Filhos (premiado com os curtas Saliva e Something Like That) que apresenta um jovem blogger do interior do Brasil (de Teutonia, área de origens germânicos) cujo apelido fala muito sobre ele. "Mr. Tambourine Man" é um adolescente particular que sonha mundos que estão além de sua realidade, onde Bob Dylan se destaca como ícone máximo da arte, da rebelião, e libertação. Na verdade, a música de Dylan é a guia essencial para esta história atravessada por uma misteriosa presença do sexo feminino, bem como as preocupações, medos, esperanças e desespero deste garoto anônimo (e com pseudônimo). Este é um filme sem uma narrativa específica, às vezes escuro e à beira do horror, mas também com elementos dos contos de fadas de Tim Burton com um monte de imagens místicas. Aqui deve-se lembrar de Cioran em Esse Maldito Eu : "Tendo passado a juventude numa temperatura demiúrgica." Muito disto tem este filme, muito de jovem que começa a se descobrir e criar suas idéias do mundo dentro dessa temperatura mística e esotérica que procura afundar na escuridão para trazer respostas do ser que começa a estabelecer o seu lugar na existência. 

Os Famosos e os Duendes da Morte, na terça-feira 22 de junho. 

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Only When I Dance (2009): Este é um documentário dirigido pela cineasta brasileira radicada em Londres, Beadie Finzi, que mostra a luta de orgulho e paixão de dois jovens das favelas do Rio de Janeiro cujo maior sonho é ser bailarinos. Eles são Isabella e Irlan, e vamos vê-los lutando contra os prejuízos e arbitrariedades que podem enfrentar dois jovens tentando ter sucesso em um campo profissional incomum entre as pessoas de baixa renda. Neste caso, é claro, a dança. Aqui as declarações dadas pela diretora do filme ao site Women and Hollywood: "Há muita emoção neste filme. Mas os temas mais poderosos tem a ver com a família, o que está relacionado com o apoio da família, e o que eles vão fazer para dar aos seus filhos uma mudança para melhor. Foi verdadeiramente inspirador conhecer as famílias da Irlan e da Isabella. A sua confiança e bom humor, apesar das dificuldades. Passamos um ano muito especial filmando com eles e devo dizer que eu realmente sinto falta deles. " 

Only When I Dance quinta-feira, 23 de junho. 

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