Toda quinta de dezembro: música, cinema e alma

por max 6. dezembro 2012 04:48

 

 

A música está sempre presente. Os pitagóricos a incluíram entre as sete artes liberais. Para eles, era um conhecimento das Exatas, ao lado da geometria, astronomia e aaritmética. Em sua doutrina, a matemática e a música se uniam no conceito de harmonia, que significa proporção das partes em um todo. Assim, se estabelecia um paralelo entre os intervalos acústicos, base da música, e as distâncias que separavam os planetas. Universo, música e matemática estavam fortemente unidos neste pensamento filosófico nascido de Pitágoras. Havia, pois, uma música em silêncio nas esferas celestes, uma música que unia o Cosmos. A harmonia também estava na alma. No microcosmos e no macrocosmos, existia a música como elemento de apoio, como elemento gerador. Sob esta visão, a música é criadora, por assim dizer.

Se bem me lembro, e desculpem o salto, em O Silmarillion, de Tolkien, o canto dos ainur e de Ilúvatar cria o mundo. Diz-se que esta ideia de Tolkien foi inspirada em fontes ancestrais. Uma antiga lenda persa diz que Deus fez uma estátua de barro para inserir alma nela, mas a alma não ficava quieta. Assim sendo, para acalmá-la, Deus pediu para os seres celestiais cantarem uma canção. Essa canção fez a alma ficar tranquila dentro do corpo de barro. Os sufis, por outro lado, sustentam que Deus criou o mundo a partir do som. Nas religiões africanas, a música e os deuses estão estreitamente unidos. Hoje em dia, os deuses seguem soando na África e no Caribe.

 

 

 

No Japão, há outra lenda de criação e música, que vou relatar rapidamente. A história fala de Amaterasu, a deusa do sol. Ela vivia fechada numa caverna, enquanto que o mundo lá fora era frio e sem vida. Cansada do silêncio, a deusa pegou seis arcos e fez a primeira harpa. A deusa tocava aquele instrumento e, certo dia, outra deusa, Ame-no-Uzume, atraída por aquela música, começou a dançar e cantar. O canto chamou a atenção da deusa Amaterasu. Sua curiosidade foi tamanha que decidiu sair da caverna. Ao fazê-lo, sua luz encheu o exterior e então o mundo se fez, o mundo foi criado, com suas plantas e seus animais e seus homens. O crítico de Jazz e estudioso da música Joachim-Ernst Berendt's fala melhor que eu disto em The World Is Sound: Nada Brahma.

Mas continuemos. Nietzsche escreve, em seus primeiros trabalhos, O nascimento da tragédia. Este livro poderoso fala sobre as forças dionisíacas e as apolíneas, e sobre Wagner. A música, para aquele Nietzsche, era o que salvava o homem no mundo. Santo Agostinho também falou da música. Viu a música, primeiro, a partir do ponto de vista filosófico, de forma muito próxima dos pitagóricos e da sua perfeição harmônica. Logo, com o passar dos anos, volta a meditar sobre o tema, e, desta vez, o faz a partir de sua visão religiosa, contemplativa. Então, a música para Santo Agostinho converte-se em um caminho para alegrar a Deus, para estar com Deus.

 

 

A música como ente sagrado, a música como elemento para o sagrado está ali presente, em todos estes pensadores, em todas estas histórias. Assim a seguimos entendendo hoje em dia. A música tem algo que nos leva além. Não é somente entretenimento. Mas também a música, despojada dessa sacralidade, a música em nosso mundo profano ou laico, mesclada com rituais não sacros e drogas, se converte em um elemento destruidor de todas as luzes. Com o poder, com o maior, não se pode jogar, porque ele te destrói. Rudolf Otto falava do iluminado, uma energia poderosa que repele e, ao mesmo tempo, fascina, que inspira e, ao mesmo tempo, pode destruir.

Assim, pois, quem enfrenta o iluminado sem estar devidamente preparado pode ser destruído. Lembremos de Rilke quando falava dos anjos. Dizia: "Todo anjo é terrível". Dar para ele a cara de sagrado pode ser terrível, pode acabar contigo. Ainda que também pode ser que essa acareação com o sagrado, e que esse deixar-se destruir possa ser consciente. Possa ser inclusive uma forma de purificação profana.

 

 

Contudo, a música sempre terá esse poder. Ela levou mais de um para o abismo e para a morte. Os senhores do rock padeceram de tais enfrentamentos. Jogaram-se nos abismos da música com os olhos fechados, e alguns não voltaram. Nunca souberam? Ninguém os avisou? Ninguém sabe. Alguns ignoraram. Outros, mais inteligentes e mais trágicos, talvez sem saber o que os esperava, e ainda assim se atreveram. São os temerários da música, os filhos da música. E já disse isso acima: talvez neles, o sacrifício profano seja uma forma de purificação profana. Quem sabe. A música levou-os, isso sem dúvida.

Este mês, o Max apresenta, nas quatro quintas-feiras de dezembro, a experiência da música como ente sagrado e ente destruidor, como fonte de luz e fonte de obscuridade luminosa.

Quinta, dia 6, os últimos acordes de um vazio ídolo do rock em Últimos Dias, de Gus Van Sant. Na quinta seguinte, dia 13, os redobres e o som das botas militares em Pink Floyd The Wall, e dia 20, o melhor guitarrista de todos os tempos no documentário Jimi Hendrix. Na última quinta do mês, dia 27, um piano branco, um tema imortal de um músico igualmente imortal: Imagine: John Lennon.

São quatro filmes, quatro visões dessa relação entre o homem e a música, tão próxima, tão terrível, tão violenta, tão bela. Somente em dezembro.

Reinvente, imagine de novo… Descubra o Max.

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